
Não eram só os passarinhos canoros e os urubus que povoavam os ares no trajeto até Camocim. Vi, pelo vidro molhado da janela do carro, o voo lento de uma garça da cor da nuvem com a qual se misturou no azul do céu. Muitos quilômetros adiante vi também um par de asas de imponente envergadura, ensaiando a decolagem para o voo de caça.
É um carcará – avisou o motorista. No meu desinformado pensamento, carcará pertencia à secura dos sertões e não a esse tanto de verde, de tão ostensiva exuberância trazida pela estação das chuvas. Carcará, para mim, era a voz grave de Maria Betânia, nos anos 60, cantando o destino da ave sertaneja que “pega, mata e come” (igualzinho ao que fazemos nós…), uma ave com “mais coragem do que homem.”
O carcará me parecera um gavião, ou um falcão, com o olhar agudo do predador e uma mancha vermelha no bico. Parece mesmo – esclareceu o motorista, respeitando minha ignorância. São todos são aves de rapina, aparentados com o necrófago urubu (e isso quem diz sou eu, após a necessária consulta às fontes da sapiência escrita).
Entre o cruzamento com um e outro caminhão, de dorso montado em doze ou mais pneus, impulsionando seu próprio e nebuloso microclima, não vi um único animal quadrúpede ou rastejante ao longo de todo o percurso de 350 quilômetros entre Fortaleza e Camocim. Nada. Nenhum vivo, nenhum morto, apesar da exuberância tentadora da vegetação a contornar de verde a língua escura do asfalto, convidativa a arriscadas travessias.
Não vi nem um só animal que motivasse o motorista a contar mais uma história, embora eu suspeitasse que o voo circular dos bandos de urubus, vistos à distância, podia ser um indicativo deles.
Por vários quilômetros o motorista foi apontando as capelinhas e as cruzes na beira da estrada, de um lado e de outro, enfeitadas com flores falsas desbotadas pela constância usual do sol, indicando o local onde um ser humano havia perdido a vida.
As perdas nas pedras do caminho.
Enquanto chegava, tive a surpresa de ver cinco corujas pequenas no chão, no meio de uma área desmatada, estáticas como estátuas, cinco filhotes com o ar desconfiado de crianças sem os pais por perto, avaliando a presença de estranhos. Estavam atentas aos nossos movimentos, cada uma com seu par de olhos redondos na face redonda, o que me fez lembrar uma inocente anedota contada por meu pai sobre um homem que conversava horas e horas com uma coruja.
E ela responde? – perguntara um vizinho.
Não – respondera o homem – mas presta uma atenção danada!
Pois prestavam atenção, as cinco corujinhas terrestres, sem dar um pio, girando o pescoço inexistente de um lado a outro, empoleiradas em montes cônicos, como formigueiros erguidos com terra escura. E eu me calo, porque prefiro imaginar as corujas ocupando campanários de igrejas abandonadas, mansardas vazias, parapeitos de janelas emparedadas, prefiro manter a imagem das corujas noturnas, agourentas, presentes nos livros oitocentistas, mais reais do que aquelas, estranhamente solares.
Enquanto chegava, vi de dentro do carro o que a natureza quis me mostrar de aves do céu e de plantas do mato, as árvores alteando-se do matagal de baixa estatura, uma e mais uma e mais outra a florescer em vermelho, em amarelo, a oferecer uma sucessão desavergonhada de buquês vivos a quem quer que por ali passasse.
E de repente, no final de uma rua estreita que pensei sem saída, ladeada por duas fileiras de pacientes casinhas, em um surto súbito de claridade se abriu aos nossos olhos toda a verde extensão do mar.
Ou talvez fosse a verde extensão do rio, não sei.
Porque nas águas que banham Camocim os visitantes despreparados não conseguem perceber o que separa o rio Coreaú do Oceano Atlântico, qual o limite do rio, qual a fronteira do mar, os visitantes não entendem como se dá o diálogo úmido entre o doce e o salgado – mas essa já é outra história.
Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.







