“Pega, mata e come” — não vai morrer de fome. A sentença seria justa, não predominasse apenas a primeira parte. Não houve maldade em João do Vale; os gênios não operam assim.
Não sou exatamente o que pensam de mim. Sou caça e caçador por pura sobrevivência; sou defesa e ataque, instinto e razão. Este penacho preto, pousado sobre a cabeça como um solidéu, não me aproxima de altar algum, nem carrega mistério sobrenatural. Não sinto prazer em ser monstro — muito menos faço o mal pelo mal. A vida se divide entre faca cega e faca amolada. Meu bico, curvo como um cutelo, pode assustar, pode “azarar”, mas é, antes de tudo, meu escudo.
Na luta por território e sustento, minha face empalidece em amarelo; quando me acalmo, se inflama em tons de vermelho ou laranja. Sou mutável, mimético.
Não canto, não encanto, não tenho voz — talvez para não ofuscar o brilho da minha plumagem. Sou útil. Faço o trabalho que ninguém quer: recolho restos à beira da estrada, nas cinzas das queimadas, nas bordas das matas.
Minhas patas longas, verdadeiros trens de pouso amarelados, capturam cobras, lagartos e pintos. Sou, por natureza, generalista, oportunista. Construo meu lar, mas também ocupo ninhos alheios — não por maldade, mas por sobrevivência da espécie. Não me levem a mal: não pertenço a facções, não sou coiteiro, volante ou coronel, nem corrompo quem me persegue. Nisso, sou talvez o mais inocente dos seres.
Ocupo qualquer ecossistema — não por escolha, mas por coragem. Sei avisar do perigo, proteger os meus, seguir em frente.
Venho, por fim, me retratar: apaguem meus defeitos e enxerguem minhas qualidades, ainda que sob o silêncio conveniente que tantas vezes se concede aos humanos. Prometo, à minha maneira, ser melhor.
Essa é minha natureza. Essa é minha lenda.







