O mar que se abre: quatro razões para o Ceará olhar para o offshore agora

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Por Almirante Elis T. Öberg e Rômulo Soares*

O Ceará vive um momento raro, daqueles em que diferentes ciclos econômicos convergem ao mesmo tempo, apontando para a mesma direção. No horizonte do nosso litoral, quatro movimentos simultâneos criam uma janela de oportunidade que merece atenção de lideranças públicas, empresariais e acadêmicas. Todos eles têm o mar como protagonista. E todos eles têm timing.

O primeiro movimento: o descomissionamento do Campo de Espada

A 30 quilômetros da costa de Paracuru, o Campo de Espada — plataforma de petróleo operada pela Petrobras desde o final dos anos 1970 — inicia o processo de descomissionamento definitivo. Em 2025, a Agência Nacional do Petróleo encerrou formalmente o ciclo de produção. O que começa agora é um processo técnico de alta complexidade e alto valor: selamento definitivo dos poços, remoção de estruturas no mar, reciclagem de materiais, e em alguns casos, quem sabe não é viável, a criação de recifes artificiais que passam a abrigar biodiversidade marinha.

Descomissionar uma plataforma offshore exige competências muito específicas — mergulho técnico, logística de embarcações especializadas, engenharia de ativos no mar, gestão ambiental rigorosa. É um mercado bilionário, e o Campo de Espada é o caso piloto de uma sequência maior, senão, vejamos.

Vale lembrar, que a questão do descomissionamento de ativos marítimos, no Brasil, não é tema ajustado e pacificado. A legislação vem caminhando em passos lentos e a “Convenção de Hong Kong” – elaborada pela “International Maritime Organization (IMO)” – embora assinada pelo País, está no Congresso Nacional, aguardando deliberação, para que o nosso instrumento de ratificação possa ser depositado. Esse cenário, embora complexo, gera oportunidades, uma vez que praticamente inexistem estaleiros especializados nessa atividade em nosso território.

O segundo movimento: o Polo Ceará inteiro na mesma trajetória
Espada não está sozinha. O Polo Ceará reúne mais oito plataformas hibernadas — os campos de Atum, Xaréu e Curimã —, todas caminhando para o mesmo destino. O que for aprendido, estruturado e desenvolvido no Campo de Espada pode se repetir e se ampliar nas operações seguintes. Há aqui uma oportunidade concreta de construir, no estado, uma cadeia produtiva especializada em offshore — fornecedores, técnicos, empresas de logística, profissionais qualificados — que nasce a partir do descomissionamento e cresce com ele.

O terceiro movimento: a Margem Equatorial
O Ceará está na entrada de uma das maiores fronteiras de exploração offshore do Brasil. A Margem Equatorial concentra blocos em processo de licenciamento e interesse crescente de operadoras nacionais e internacionais. O comissionamento de novas infraestruturas no mar — plataformas, dutos, sistemas de escoamento — é uma questão de quando, não de se. E quando esse momento chegar, o estado que tiver uma cadeia produtiva offshore organizada vai sair na frente na atração de investimentos, contratos e empregos qualificados. Dentro desse processo, que ainda está se estabelecendo, convém considerar que o planejamento, com a escolha de onde serão as bases de apoio dos meios “off-shore”, está ocorrendo agora e, portanto, torna-se conveniente mostrar-se interessado e desejoso de concorrer nessa escolha.

O quarto movimento: a eólica offshore
Ao mesmo tempo, o Ceará reúne algumas das melhores condições do mundo para a geração de energia eólica no mar. Os ventos alísios — regulares, intensos e previsíveis — tornam nosso litoral um ativo estratégico para uma das fronteiras mais promissoras da transição energética global. Instalar e operar parques eólicos offshore exige exatamente o mesmo perfil de competência do descomissionamento: embarcações especializadas, mergulho técnico, engenharia de ativos no mar, logística portuária robusta. A importância desses campos decorre da disponibilidade de energia limpa, conectada diretamente com a produção de H2V, fundamental para a obtenção dos novos combustíveis marítimos como metanol e amônia.

A convergência
Quatro movimentos. Uma cadeia de competências em comum. O descomissionamento do Polo Ceará, o comissionamento da Margem Equatorial e a chegada da eólica offshore não são agendas separadas — são etapas de um mesmo ciclo econômico que o estado tem condições reais de liderar na região.

A cadeia produtiva que o descomissionamento vai demandar nos próximos anos é precisamente a cadeia que os próximos ciclos vão precisar. Investir agora em formação técnica, em estrutura logística, em articulação entre empresas locais e operadoras é preparar o Ceará para entrar nos novos ciclos já com capacidade instalada — e não construir essa capacidade correndo atrás, quando os contratos já estiverem alocados.

Nos dias 2 e 3 de junho, Fortaleza recebe dois eventos técnicos organizados pelo grupo DESCOM.SUB, da COPPE/UFRJ, em cooperação com a Petrobras, dedicados ao planejamento do descomissionamento do Campo de Espada. São pesquisadores de alto nível trabalhando com metodologia séria em um tema que merece entrar com força na agenda de desenvolvimento econômico do estado.

A Câmara Setorial de Economia Azul da ADECE, O Sebrae e a FIEC estão apoiando a iniciativa. Espero que outros setores se juntem — porque raramente tantas oportunidades se apresentam ao mesmo tempo, apontando para a mesma direção.

O mar do Ceará chama. É hora de avançar.

Almirante de Esquadra da reserva Elis T. Öberg – Doutor em Ciências Navais, ex Comandante de Operações Navais, Ex Presidente da Junta Interamericana de Defesa e Membro da Câmara Setorial de Economia Azul da Adece.
Rômulo Alexandre Soares, advogado, sócio da firma APSV Advogados e co-fundador do Instituto Winds for Future

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