
A isenção de visto para cidadãos chineses que viajam ao Brasil pode produzir efeitos que vão além do turismo e influenciar diretamente a cadeia de importação brasileira. A avaliação é de especialistas em comércio exterior, que apontam uma maior aproximação entre fabricantes chineses e compradores nacionais.
Desde 11 de maio, chineses podem entrar no Brasil sem visto para permanência de até 30 dias em viagens de turismo, negócios e participação em eventos. A medida, anunciada durante o Salão do Turismo, em Fortaleza, é uma contrapartida à isenção concedida pela China aos brasileiros desde 2025 e deve permanecer em vigor até o fim de 2026.
Fabricantes mais próximos dos clientes
Para Arcelino Calado, sócio-fundador da PBF Comex e diretor do grupo ProHospital, a principal mudança está na redução das barreiras que dificultavam a vinda de empresários chineses ao país.
“Antes, o visto brasileiro para o chinês era caro e demorado. Esse atrito, por menor que pareça, segurava muita coisa. Tirar o atrito muda o jogo, e nem todo mundo vai gostar do novo jogo.”
Segundo ele, a medida tende a reduzir a dependência de intermediários que atuam apenas como elo entre fabricantes chineses e compradores brasileiros.
“Ficou muito mais fácil para o fabricante chinês vir ao Brasil, sentar na frente do cliente final e vender direto. Sem o atravessador. E o atravessador, em muitos casos, é o empresário brasileiro que vive de comprar lá e revender aqui sem agregar quase nada.”
Intermediação continuará necessária
Apesar da maior facilidade para negociações diretas, Calado ressalta que etapas essenciais da importação permanecem exigindo conhecimento técnico e estrutura local.
“Continua existindo a barreira regulatória — registro na Anvisa, certificação no Inmetro. Continua existindo o risco de qualidade, de lote fora de especificação. Continua existindo a logística, o desembaraço, o câmbio, a garantia, o pós-venda.”
Na avaliação do especialista, essas atividades continuarão sendo um diferencial competitivo para empresas brasileiras.
Necessidade de reposicionamento
Para Calado, o novo cenário exigirá uma mudança de estratégia dos importadores nacionais.
Segundo ele, empresas que atuam apenas como intermediárias tendem a perder espaço, enquanto aquelas capazes de oferecer serviços especializados, como controle de qualidade, regularização, logística e assistência pós-venda, poderão fortalecer sua posição no mercado.
“O intermediário que só fazia ponte está ameaçado. O intermediário que resolve problema está mais valioso do que nunca.”
Ao avaliar a medida, o especialista afirma que a isenção de vistos representa uma mudança estrutural no ambiente de negócios.
“É uma mudança de regra que vai premiar quem agrega valor real e punir quem só ocupava espaço. Em mercado que ficou mais aberto, ninguém se protege fechando os olhos. Se protege sendo difícil de substituir.”






