Enquanto a bola gira e o mundo roda, mesmo sem a participação brasileira os jogos de futebol da Copa FIFA 2026 trazem vantagens que vão além do previsto para a uma simples prática desportiva. Crianças (e adultos!) ganham ou reconquistam conhecimento sobre as bandeiras dos países, as cores predominantes, o motivo dos símbolos que nelas aparecem.
Os jogos possibilitam também a consciência sobre a existência de tantos países ocupando lugar no mesmo planeta, informação positiva para ampliar nelas (e nos adultos!) a visão de um mundo no qual o Brasil não ocupa a posição do umbigo. Os hinos então – esses resumem a História de cada nação competidora, ou pelo menos refletem seu espírito fundador, o que fez delas o que são e o que sonham vir a ser.
Aproveitando momentos de dolce far niente me dediquei a ler e ouvir os hinos de alguns países que estão (ou estiveram) presentes nas partidas recentes da Copa. Sem nenhuma preocupação acadêmica ou científica, arriscaria afirmar que a elevação da autoestima é fator buscado em todos os hinos nacionais, como não poderia deixar de ser, objetivo para o qual parece indispensável um insuperável sentimento bélico.
O hino de Portugal, país com o qual repartimos tanta História, é guerreiro. Conclama repetidas vezes a seus cidadãos (“nobre povo”) o envolvimento explícito em batalhas (“às armas, às armas, sobre a terra e sobre o mar!”), e que os “heróis do mar” empreguem seus canhões enfrentando as armas alheias. “Pela Pátria, lutar, lutar” é seu grito de guerra.
A Croácia ignora sons de conflito. Encanta ao trazer o orgulhoso resgate de uma pátria antiga, gloriosa, heroica e querida, e exibe relação próxima com a natureza ao mencionar planícies, montanhas, o sol aquecendo os campos, o azul do mar enviando mensagem aos povos, as águas do rio Danúbio fortalecendo os espíritos. Pura felicidade, até à estrofe final remeter aos fatos da vida: “Até o túmulo lhe acolher os mortos, até o coração lhe bater vivo.”
Bélico de verdade é o hino da França, com seus “estandartes ensanguentados” sendo erguidos nos campos de guerra, sob o rugir dos “ferozes soldados” dispostos ao sacrifício para a defesa de ameaças alarmantes partidas dos inimigos: “Vêm eles aos nossos braços para degolar nossos filhos, nossas mulheres.”
O alons enfant de la patrie, que vagamente conhecemos, é um grito rebelde contra a tirania e um questionamento coletivo a ser respondido pela força: “O que quer essa horda de escravos, de traidores, de reis conjurados? Para quem são esses ignóbeis entraves, esses grilhões há muito tempo preparados?” E clama aos conterrâneos, em uma profusão de pontos de exclamação, o “marchemos, marchemos” (Marchons! Marchons!): “Franceses! A vós, ah! que ultraje! Que comoção deve suscitar! É a nós que consideram retornar à antiga escravidão!”
O hino da Noruega traz em si uma verdadeira saga, uma longa história da fundação do país amado, contada em oito módulos de bom tamanho. São resgatadas figuras lendárias, nomes impronunciáveis vindos da bruma dos tempos invernais, como Haakon, Sverre, Tordenskjold, e lugares certamente emblemáticos como Fredrikshald. Cenários que se ensoparam de sangue no embate feroz dos exércitos, onde “até as mulheres ergueram-se e lutaram como se fossem homens”, enquanto “outros apenas choravam, mas isso cedo acabou!”.
Ainda bem que acabou cedo, digo eu, sensibilizada com a imagem da cruz pintada em sangue, com as terras queimadas a propósito, para não servirem ao inimigo, com os afiados machados pairando sobre as cabeças de um povo que canta os “olhos azuis da liberdade”, ou seja, os seus próprios olhos.
Como compensação, o hino do Japão é curto e breve, um quase haikai dotado de uma aura de paz à sombra das cerejeiras em flor. É fácil reproduzi-lo em sua inteireza: “Que o vosso reinado perdure por mil, por oito mil gerações, até que os pequenos seixos se transformem em grandes rochas e fiquem cobertas de musgo.” E só.
Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.







