O pênalti de Vini Jr. e o conflito de interesses das bets. Por Frederico Cortez

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Por Frederico Cortez

A maior discussão da semana no futebol brasileiro talvez nem tenha sido o pênalti em si, mas tudo o que surgiu em torno dele no embate entre Brasil x Noruega. E aqui entra o contexto, bets e o seu patrocínio de jogadores em atividade.

A cena do atacante canarinho entregando a bola para Bruno Guimarães na penalidade contra a Noruega foi o necessário e bastaram poucos segundos para que as redes sociais fossem inundadas por especulações.

Dentre as correntes conspiratórias para justificar a eliminação do Brasil na Copa do Mundo, uma delas ganhou especial repercussão: haveria interesse econômico para que determinados resultados de apostas esportivas fossem preservados?

É preciso fazer um registro indispensável. Não existe qualquer elemento concreto que permita atribuir ao atleta conduta ilícita ou qualquer participação em manipulação de resultados. Sustentar essa hipótese, sem provas, seria incompatível com os princípios mais elementares do Estado de Direito.

No entanto, limitar o debate à ausência de evidências seria ignorar uma questão muito mais profunda e relevante para o esporte.

O verdadeiro problema não é Vinicius Júnior. Tampouco se resume à decisão sobre quem deveria cobrar um pênalti. O que merece reflexão é o ambiente criado pela crescente presença das empresas de apostas no futebol brasileiro e os desafios que essa realidade impõe à credibilidade das competições.

Sob a perspectiva do Direito Empresarial e das modernas práticas de governança corporativa, conflito de interesses não significa, necessariamente, fraude, corrupção ou desvio de conduta. O conceito é mais amplo. Ele se caracteriza sempre que uma situação objetiva seja capaz de comprometer — ou simplesmente aparentar comprometer — a independência de uma decisão. Em outras palavras, a proteção jurídica não se limita à lisura dos atos, mas alcança também a preservação da confiança pública.

É justamente por essa razão que magistrados se declaram impedidos de julgar determinados processos, árbitros esportivos são afastados de partidas nas quais exista potencial comprometimento de sua imparcialidade e administradores de empresas deixam de participar de deliberações quando possuem interesse pessoal na matéria discutida.

Em todas essas situações acima, o objetivo não é punir previamente alguém por eventual desonestidade, mas impedir que a credibilidade da instituição seja colocada em dúvida.

Esse mesmo raciocínio deveria inspirar uma reflexão mais ampla sobre o futebol profissional.

Atualmente, jogadores em plena atividade protagonizam campanhas publicitárias para empresas de apostas esportivas. Não há ilegalidade nessa prática, tampouco se questiona a validade dos contratos firmados. A discussão, contudo, não se limita ao campo da legalidade. Ela envolve, sobretudo, a preservação da integridade institucional do esporte.

As plataformas de apostas possuem interesse econômico direto na realização e na expansão desse mercado. Os atletas, por sua vez, são os protagonistas do espetáculo que movimenta essa indústria bilionária.

Destaco que ainda jamais pratiquem qualquer irregularidade, a relação comercial permanente entre esses agentes produz um efeito inevitável: fragiliza a percepção de independência perante a sociedade e alimenta dúvidas que poderiam ser evitadas por mecanismos adequados de governança.

No Direito, confiança também constitui um patrimônio jurídico. Quando ela se deteriora, não é apenas a imagem de uma pessoa que sofre desgaste; a legitimidade da própria instituição passa a ser questionada. O mercado financeiro oferece um exemplo eloquente dessa realidade. Após sucessivos escândalos corporativos, surgiram rígidas regras de compliance, gestão de riscos e prevenção de conflitos de interesses justamente para restaurar a confiança dos investidores e da sociedade.

No futebol, entretanto, observa-se movimento inverso. Nunca houve tanto dinheiro proveniente das apostas esportivas circulando nas competições. As bets patrocinam campeonatos, clubes, transmissões, programas esportivos, influenciadores digitais e, em muitos casos, os próprios atletas. A presença tornou-se tão intensa que, por vezes, é difícil distinguir onde termina o conteúdo esportivo e onde começa a estratégia publicitária.

Essa realidade torna-se ainda mais sensível diante do reconhecimento, pelo próprio Estado brasileiro, de que a expansão descontrolada das apostas ultrapassou a esfera econômica e passou a representar um relevante problema de interesse público.

Caro leitor importante destacar que, as recentes medidas regulatórias, voltadas ao combate de operadores irregulares e ao fortalecimento da fiscalização, revelam que o fenômeno passou a envolver também questões relacionadas à saúde pública, ao superendividamento das famílias e à proteção dos consumidores.

Paradoxalmente, enquanto o poder público amplia os mecanismos de controle sobre o setor, a publicidade das casas de apostas continua ocupando espaços cada vez maiores, inclusive por meio da imagem dos principais protagonistas das competições esportivas.

Nesse contexto, talvez a pergunta mais importante não seja se Vinicius Júnior deveria ou não ter cobrado aquele pênalti. Tampouco se houve qualquer favorecimento às empresas de apostas, hipótese para a qual não existe absolutamente nenhuma prova.

No caso, a verdadeira indagação consiste em saber até que ponto é compatível com a integridade esportiva permitir que atletas em atividade mantenham vínculos comerciais permanentes com empresas cuja atividade econômica depende diretamente dos eventos esportivos dos quais participam.

Evidentemente, nenhum jogador deve ser privado do legítimo direito de explorar economicamente sua imagem. Entretanto, determinadas atividades exigem limitações proporcionais exatamente para preservar a confiança da sociedade.

Assim, um bom exemplo são casos de juízes e promotores de justiça que possuem restrições. Auditores independentes também estão submetidos a regras de impedimento. Todos esses mecanismos existem para proteger a credibilidade das instituições e evitar que a simples aparência de parcialidade comprometa a confiança coletiva.

Talvez tenha chegado o momento de o futebol enfrentar esse debate com a maturidade que o tema exige. Não se trata de proibir investimentos privados nem de demonizar um setor regularmente autorizado pelo Estado. Trata-se, antes de tudo, de estabelecer parâmetros éticos compatíveis com a dimensão econômica e social que o esporte alcançou.

O episódio envolvendo Vinicius Júnior certamente será esquecido com o passar do tempo. O debate sobre conflitos de interesses, contudo, tende a permanecer. Quanto mais o futebol adiar essa discussão, maior será o risco de que cada pênalti perdido, cada substituição inesperada ou cada decisão de campo deixe de ser interpretada como um fato esportivo para se transformar em motivo de suspeita.

E quando a desconfiança passa a ocupar o lugar da credibilidade, o prejuízo deixa de ser de um jogador, de um clube ou de uma empresa de apostas. Passa a ser do próprio futebol, cuja essência sempre esteve na confiança de que o resultado é definido exclusivamente dentro das quatro linhas.

Frederico Cortez é advogado, fundador do escritório Frederico Cortez Advocacia. Especialista em direito empresarial, propriedade intelectual e direito digital. Palestrante e escritor de artigos de opinião jurídica, sendo referência bibliográfica em obras jurídicas e trabalhos acadêmicos. Presidente da Comissão Especial de Propriedade Intelectual da OABCE. Fundador da startup Youmarca – Proteção Intelectual.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Atlas/Focus: Lula mantém vantagem larga no Ceará, mas avanço de Flávio reduz distância

Atlas + Focus: Cid lidera consolidado, Luizianne encosta e Wagner mantém disputa aberta entre os três primeiros

Focus/Atlas: O placar muda com Elmano 48,5% x Ciro 48% e disputa entra na reta final em claro empate técnico

Entenda a super sexta-feira: três pesquisas e três fotografias em uma disputa que continua aberta

O fundamento da crise se deu quando a política passou a pedir ao Supremo que resolvesse a política

Alerta: IA se organiza sozinha, forma uma “gangue” e ataca

Três pesquisas medem o mesmo Ceará e encontram distâncias diferentes entre Ciro e Elmano

Focus + Atlas para o Senado: Cid e Luizianne empatam na liderança; Wagner e Alcides travam disputa pela direita

Ciro e Elmano

Focus Poder/Atlas: Ciro lidera, Elmano encosta e diferença cai para 2,6 pontos

Atlas/Focus Poder, Datafolha e Quaest: três pesquisas em campo no Ceará deixam mercado político nervoso

Atlas/Bloomberg: Lula lidera 1º turno, mas entra na eleição com rejeição maior que aprovação

Data centers: Congresso começa a discutir política para setor que já movimenta mais de R$ 380 bilhões no Ceará

MAIS LIDAS DO DIA

RealTime Big Data aponta Elmano com 48% e Ciro com 41% no Ceará