
No centenário de 1929, a inteligência artificial poderá produzir uma abundância de bens, códigos e conteúdos, mas revelar que renda, energia, atenção e confiança continuam escassas.
Por Machidovel Trigueiro Filho,
Robôs produzem, mas não compram o que produzem. Não pagam aluguel, não levam os filhos ao cinema, não contratam planos de saúde nem enchem carrinhos de supermercado. Quanto mais a inteligência artificial e a automação avançam, mais essa obviedade assume a forma de um problema econômico. Se as máquinas substituírem parte relevante do trabalho humano, quem receberá a renda necessária para consumir a abundância que elas prometem criar?
Conta-se que, nos anos 1950, durante uma visita a uma fábrica automatizada da Ford, um executivo perguntou ao sindicalista Walter Reuther como ele faria aquelas máquinas pagarem contribuições sindicais. Reuther teria devolvido a pergunta: como a empresa faria aquelas máquinas comprarem carros? A cena é talvez apócrifa, mas sobreviveu porque capturou o defeito escondido em toda utopia de automação: produzir não é consumir.
É desse circuito (produção, salário, consumo e demanda) que pode nascer uma nova crise da superprodução. O ano de 2029 não aparece aqui como profecia nem como prazo tecnológico. Ele marca o centenário da quebra de 1929 e funciona como um espelho colocado diante do nosso próprio tempo. O ponto de interrogação no título é essencial: ainda não existe uma superprodução geral causada pela inteligência artificial, mas já existem condições capazes de separar, numa velocidade inédita, capacidade produtiva e poder de compra.
A Grande Depressão não foi provocada apenas por fábricas produzindo demais, e seria historicamente incorreto reduzi-la a armazéns cheios. Especulação alavancada, crédito frágil, desigualdade, colapso bancário, contração monetária, padrão-ouro e erros de política econômica transformaram uma recessão em catástrofe. Entre 1929 e 1933, o estoque de moeda nos Estados Unidos contraiu-se cerca de um terço, aprofundando a deflação, as falências, o desemprego e a retração do consumo.
Ainda assim, 1929 deixou uma lição que atravessa o século: capacidade de produzir não cria, por si só, capacidade de comprar. A produção em massa precisou, ao longo do século XX, de salários em massa, crédito, proteção social e investimento público para encontrar consumidores. O capitalismo industrial descobriu que o trabalhador não era apenas um custo da fábrica. Era também o comprador do que a fábrica colocava no mundo.
Na ressaca do crash, em 1930, John Maynard Keynes publicou Possibilidades econômicas para nossos netos. Ali chamou de “desemprego tecnológico” a substituição do trabalho em ritmo superior à criação de novas ocupações e imaginou que, por volta de 2030, o problema econômico poderia estar próximo de ser resolvido, com jornadas de 15 horas semanais. Chegaremos a 2029 quase no prazo de Keynes, repetindo sua pergunta com máquinas incomparavelmente mais capazes.
A automação avançada ameaça romper esse equilíbrio. Uma empresa que substitui trabalhadores por sistemas inteligentes pode reduzir custos, elevar margens e multiplicar a produção. Para ela, a decisão parece racional. Quando milhares de empresas fazem o mesmo, porém, cada salário eliminado também pode retirar um consumidor do mercado. A máquina fabrica a mercadoria, mas não cria a demanda solvente. O ganho privado de eficiência pode produzir, coletivamente, uma escassez de compradores.
Em entrevista à editora-chefe do The Economist, Zanny Minton Beddoes, gravada na Gigafactory do Texas e publicada em 23 de julho de 2026, Elon Musk afirmou que, em 2036, o dinheiro já não importaria. Meses antes, no Fórum de Investimentos Estados Unidos-Arábia Saudita, previra que, em dez ou vinte anos, o trabalho poderia se tornar opcional. É uma das promessas mais sedutoras da utopia digital: inteligência abundante, produção quase ilimitada e uma humanidade finalmente libertada da necessidade.
Mas o próprio Musk reconheceu a fronteira que sua profecia não consegue apagar: energia e matéria continuarão submetidas a limites físicos. A inteligência artificial não roda no vácuo. Aquilo que chamamos de “nuvem” ocupa terrenos, conecta-se a subestações, consome eletricidade, depende de chips, redes e sistemas de resfriamento, muitas vezes intensivos em água, e repousa sobre cadeias globais de semicondutores, equipamentos elétricos e minerais críticos. Um data center é uma fábrica de abstrações com endereço, medidor de energia e impactos concretos.
Essa fronteira desmonta a versão mais ingênua da utopia. A tecnologia não elimina necessariamente a escassez; ela muda o endereço da escassez. O código pode ser copiado quase sem limite. Elétrons, água, território, transformadores e chips não podem ser convocados por comando de texto. A abundância sintética é virtual; sua infraestrutura permanece física, finita e frequentemente concentrada. Quanto mais barata se torna a inteligência, mais estratégicos podem se tornar os gargalos que a sustentam.
Há sinais concretos dessa transformação. O AI Index de Stanford registrou que, entre novembro de 2022 e outubro de 2024, o custo de uso de um sistema com desempenho comparável ao GPT-3.5 caiu mais de 280 vezes. Trata-se de uma deflação da inteligência digital já observada, embora ainda não exista evidência de superprodução macroeconômica provocada pela IA. Ao mesmo tempo, a Agência Internacional de Energia projeta que o consumo elétrico global dos data centers poderá quase dobrar entre 2025 e 2030, aproximando-se de 950 terawatts-hora. A inteligência fica mais barata, mas sua base material se torna mais valiosa. A nuvem, afinal, tem raízes na terra.
No trabalho, também convém resistir aos extremos. A Organização Internacional do Trabalho estima que um em cada quatro trabalhadores no mundo está em uma ocupação com algum grau de exposição à inteligência artificial generativa, mas considera a transformação das tarefas mais provável do que a eliminação integral dos empregos. Isso afasta a caricatura de um desemprego universal e instantâneo. Não elimina o risco de uma transição desigual, na qual funções desapareçam antes que novas capacidades sejam formadas, salários percam força antes que outras fontes de renda existam e os ganhos de produtividade se concentrem nos proprietários do capital computacional.
O contra-argumento otimista merece ser levado a sério: ao longo de dois séculos, teares, tratores, computadores e caixas eletrônicos eliminaram tarefas e profissões, mas também criaram outras e ampliaram a riqueza. O que recomenda cautela agora não é a certeza de que desta vez será diferente, mas a combinação de velocidade de difusão, alcance sobre o trabalho cognitivo e concentração inédita do capital computacional. A história oferece esperança; não oferece garantia.
Existe, porém, outra superprodução que já começou. Não é a de automóveis, roupas ou alimentos. É a de signos. Quando o custo de gerar textos, imagens, vozes, vídeos e programas cai vertiginosamente, a informação deixa de ser escassa; o que se torna escasso é a informação verificada. A economia passa a fabricar mais mensagens do que a sociedade consegue examinar, mais imagens do que o olhar humano consegue absorver e mais respostas do que somos capazes de submeter a boas perguntas.
Nesse mercado, atenção e confiança tornam-se moedas decisivas. A atenção humana não pode ser fabricada em escala: cada pessoa continua dispondo das mesmas horas no dia. A confiança leva anos para ser construída e segundos para ser abalada. A OCDE já advertiu que a inteligência generativa reduz o custo e as barreiras linguísticas para a criação de conteúdos falsos convincentes e de redes artificiais de perfis. Quando qualquer voz pode ser imitada e qualquer cena pode ser fabricada, a prova deixa de ser apenas aquilo que vemos e ouvimos. Precisará incluir origem, contexto, reputação e responsabilidade.
Surge então uma ironia adicional. A IA promete reduzir o custo do conhecimento, mas pode elevar o custo da confiança. Teremos deflação de conteúdo e inflação de verificação.[MTF1.1] Assim como robôs produzem mercadorias sem criar compradores, algoritmos produzem mensagens sem criar credibilidade. O excesso não nos deixará necessariamente mais informados; poderá nos deixar mais desconfiados, mais exaustos e mais dependentes das instituições capazes de autenticar a realidade. A crise da superprodução será também uma crise de sentido.
A crise de 2029, se vier a existir, talvez não assuma a forma clássica de mercadorias encalhadas em depósitos. Poderá ser mais complexa: serviços digitais quase gratuitos convivendo com moradia cara; inteligência abundante convivendo com energia disputada; conteúdo infinito convivendo com confiança rarefeita; produção automatizada convivendo com renda concentrada; custos em queda sem redução proporcional dos preços, preservados por monopólios, patentes, plataformas e controle da infraestrutura. A nova superprodução poderá ocorrer ao lado de escassezes físicas, sociais e juridicamente fabricadas.
O dinheiro, por isso, dificilmente desaparecerá apenas porque as máquinas produzem mais. Ele mede valores, permite trocas e conserva riqueza. Enquanto houver bens disputados e direitos desiguais de acesso, algum mecanismo continuará decidindo quem recebe o quê. O dinheiro pode perder importância para quem controla as máquinas e tornar-se ainda mais indispensável para quem perdeu o salário. Antes de abolir a moeda, a inteligência artificial poderá enfraquecer o principal canal pelo qual ela chega à maioria das pessoas.
Esse é o paradoxo que o entusiasmo tecnológico costuma evitar. Abundância privada não é abundância coletiva. Se robôs, modelos, dados, data centers e redes pertencerem a poucos, a sociedade poderá produzir mais do que jamais produziu sem democratizar a prosperidade. Teremos uma economia capaz de fabricar quase tudo e incapaz de distribuir o direito de comprar; capaz de gerar qualquer mensagem e incapaz de indicar qual merece crédito. À crise do comprador desaparecido poderá juntar-se a crise da testemunha desacreditada.
Por isso, a questão da inteligência artificial já não é apenas técnica ou econômica. Ela é constitucional. No Brasil, toca uma arquitetura que colocou lado a lado o valor social do trabalho e a livre iniciativa, e assumiu a redução das desigualdades como objetivo fundamental. Quem será titular dos ganhos de produtividade? Como será financiada a proteção social se a folha salarial encolher? Que parcela do valor criado com dados coletivos deverá retornar à coletividade? O direito de participar da riqueza continuará dependente de um emprego? O problema do futuro não será apenas fabricar riqueza, mas constitucionalizar o acesso a ela.
Não haverá uma resposta única. Renda básica, dividendos sociais da automação, participação dos trabalhadores no capital, redução da jornada, educação permanente, fundos públicos de inovação, tributação de rendas extraordinárias e políticas de concorrência são peças possíveis de um pacto ainda inexistente. A tecnologia pode ampliar o que a sociedade é capaz de produzir. Somente instituições políticas e jurídicas determinarão quem participará desse resultado.
Para o Brasil, e especialmente para o Ceará, o debate já tem endereço físico. A revolução chega na forma de data centers, cabos de fibra óptica, energia renovável, subestações, sistemas de resfriamento, áreas industriais e grandes investimentos. O Estado pode ocupar posição relevante na economia computacional, mas não deve confundir presença de infraestrutura com desenvolvimento automático. Uma cidade pode hospedar o futuro e continuar à margem dele. Pode iluminar servidores e deixar sua população no escuro das oportunidades.[MTF2.1]
Imagine uma jovem de Caucaia, recém-formada, vendo pela janela do ônibus uma nova subestação erguer-se atrás dos muros de um complexo tecnológico. O futuro está diante dela. A questão é se haverá uma porta de entrada ou apenas um muro mais alto.
Atrair capital e exigir reciprocidade territorial são objetivos complementares. Empreendimentos intensivos em energia, conectividade e território precisam deixar capacidades duradouras: qualificação de pessoas, pesquisa aplicada, fornecedores locais, expansão compartilhada de redes, infraestrutura pública de computação, transparência ambiental e recursos para inovação. Contrapartida não é hostilidade ao investimento; é o contrato político que transforma infraestrutura privada em desenvolvimento compartilhado.
Enquanto o capital global procura valor na nuvem (e parte dele especula com ela), territórios inteligentes constroem âncoras na terra. No Ceará, essas âncoras têm nomes concretos: energia confiável, segurança hídrica, formação de talentos, ciência local, fornecedores cearenses, poder público capaz de negociar e comunidades com voz sobre os impactos. O Estado não deve apenas hospedar servidores. Deve hospedar conhecimento, pesquisa, propriedade intelectual e poder de decisão. Sem essa reciprocidade, poderemos exportar inteligência, importar dependência e internalizar custos.
Existe ainda uma questão que nenhuma planilha de produtividade resolve. O trabalho não distribui apenas renda. Ele também organiza tempo, reconhecimento, identidade, vínculos e participação social. Dizer que o trabalho será opcional soa libertador, mas a frase só será verdadeira se a segurança econômica também deixar de depender dele. Se a escolha for reservada aos donos das máquinas, o trabalho opcional será liberdade para poucos e exclusão para muitos.
Em 1929, o mundo descobriu que expansão produtiva, euforia financeira e crédito não compensavam a fragilidade da renda e das instituições. Em 2029, poderemos encontrar fábricas robotizadas em movimento, data centers cheios, redes inundadas de conteúdo e uma sociedade novamente obrigada a perguntar quem comprará a riqueza produzida, quem controlará sua infraestrutura e em quem ainda poderemos confiar.
Robôs não compram o que produzem. Algoritmos não acreditam no que publicam. As sociedades compram e acreditam, mas somente quando distribuem renda, direitos, atenção e confiança. A nova crise da superprodução não será causada apenas pelo excesso de coisas ou de mensagens. Poderá nascer da falta de cidadãos economicamente habilitados a participar da abundância e politicamente capazes de governá-la.
Machidovel Trigueiro Filho é professor titular de Direito Digital da Faculdade de Direito da UFC, secretário de Ciência, Inovação e Desenvolvimento Tecnológico de Caucaia (CE), presidente da Comissão de Data Centers e Cidades Inteligentes da OAB-CE e autor, entre outros livros, de “Territórios de Inovação: Parques Tecnológicos, Distritos de Inovação e a Nova Geografia do Desenvolvimento.”







