Vi a mocinha quando deixou o piso da estação e pôs os pés no vagão do metrô. Ou do metro, como preferem eles. Vinha com o rosto deformado pelo choro, a mais absoluta tristeza nos olhos vermelhos, nariz, boca, retorcidos todos os sinais de sua face até compor o que eu via: a máscara inconfundível de profunda infelicidade.
A mãe, ou talvez não fosse a mãe, e sim uma figura materna, seguia logo atrás da mocinha, e vieram sentar-se, as duas, a menina com suas lágrimas e a mulher de rosto escuro, logo diante do assento que eu ocupava.
O vagão estava disposto como costumam ser os vagões do metrô: uma dupla de assentos de frente para outra dupla de assentos. Distribuição de espaço que pode ser conveniente para a frieza operacional das máquinas, programadas para realizar o mesmo trajeto de ida e volta. Distribuição embaraçosa, na vida real.
A verdade é que fazemos o possível para não nos sentarmos assim no dia a dia, em situações públicas que coloquem duas pessoas encarando outras duas pessoas, desconhecidas entre si. Evitamos, com discrição variável, o quase toque dos joelhos, a invasão inconveniente de bolsas e pacotes, tentando resistir ao passeio casual da visão, ao deslize inevitável de cruzar os nossos olhos, feito espadas de luz, com a espada de luz dos olhos dos que se sentam à nossa frente.
Acho que devido à pressa, ou à desatenção, as duas sentaram-se na primeira fileira, expostas à vista do vagão inteiro. Então não era eu a única pessoa evitando encarar o rosto choroso delas, e sim todos os que se sentavam atrás de mim, na mesma posição que eu, nós que íamos de frente para o destino ao qual elas duas davam as costas.
A mocinha enfiara o rosto por baixo da gola do casaco da mãe, que talvez mãe não fosse, a tentar esconder seus sentimentos. O casaco era branco e parecia macio, como se feito de pele de coelho, ou de outro animal sacrificado para proteger seres humanos do frio A mulher que eu julgava ser a mãe aproveitara a aproximação para envolver os ombros da talvez filha e apertá-la ao peito.
Traziam uma dor com espessura, forma e cores, capaz de tornar mais denso todo o ar em volta delas. Depois, eu ia lembrar da escultura de Michelangelo, a Pietá. Pareciam-se, obra de arte e cena real, pelo compartilhar do sentimento, do mesmo amor imerso no sofrimento. Mãe e filho na escultura. Mãe e filha, caso o fossem de fato, na vida real.
Jamais vou saber sobre a relação entre elas, naquela narrativa suprimida, apesar de ter acompanhado as lágrimas da filha e o choro silencioso no rosto escuro da figura materna. Não traziam lenços, as duas, o que me passou a certeza de ter sido surpresa a causa do pranto. Não usavam óculos escuros, outro claro indício de ausência de preparo prévio para um momento de dor. Tinham sido apanhadas desavisadas, pressenti.
Pude olhar para elas nos intervalos entre estações de parada, usando o artifício de encarar o vidro da janela, a servir de espelho nos trechos mais sombrios nos quais mergulhava o metro. Havia ausências no rosto delas. Não perceberam meu olhar invasivo, como não perceberam a aura de desconsolo que emanavam, em ondas quase sólidas, impactando no meu peito e, certamente, avançando assento por assento dentro do vagão.
E assim permaneceram até a parada de destino delas. Ou a chegada ao Destino, como parecia ser o caso, sumindo silenciosas a caminho de algum lugar mais seguro do que aquele, causador da tristeza, de onde tinham vindo.
E não minto quando digo que o escutei naquela hora, além dos rangidos metálicos do vagão: um ruído surdo de alívio, como se estivéssemos todos ali dentro prendendo a respiração, tentando evitar aspirar o vírus contagioso da dor. Pois é assim que somos. E assumo com remorso meu silêncio naquele dia, em Lisboa, para o que estava além da minha capacidade de ajuda, quando o sofrimento alheio é exposto ao nosso rosto público convenientemente cego, surdo e mudo.
Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.







