A mentira (do bem) dita várias vezes

COMPARTILHE A NOTÍCIA

No domingo passado o presidente Lula (PT) concedia entrevista ao Canal Livre, da Tv Bandeirantes. Quase ao final, percebendo que os jornalistas não tocariam no assunto que há quatro dias tomava conta das redes e das notícias – envolvendo até decisões do TSE e do STF -, o presidente em busca de reeleição, numa disputa competitiva contra Flávio Bolsonaro (PL), resolveu tocar no assunto:

-“Não sei se vocês vão perguntar, mas esse negócio de mexer com Nossa Senhora Aparecida não é aceitável. Já teve gente da religião evangélica que chutou Nossa Senhora Aparecida“.

Lula falava batendo na mesa, fazendo tilintar xícaras e pires. Um bravo macho valente em defesa da fé.

Da sua posição de jornalista, Adriana Araújo, uma das âncoras da emissora, tentou corrigir Sua Excelênica: “mas foi fake news, presidente!”.

Para quê? Como ousa questionar Sua Excelência?

Mais murro na mesa, masi barulhos de xícaras e pires.

Um bravo Lula retorquiu:

-“Não sei se foi“.

Como assim, presidente? Desde quinta-feira a Globo News tratou de desmentir a informação, dada pela jornalista Maria Cristina Fernandes em um dos programas da emissora. Estávamos no domingo, e Lula ainda não sabia disso? Jornais, os mais diversos, publicaram o desmentido, mas Lula “não sabia“?

Sigamos o presidente:

-“O dado concreto é o seguinte: que tá na rede social, muito forte. Como já tem a experiência de ter chutado, nao é a primeira vez …“.

Mesmo com o desmentido, o presidente da República recorre ao que tem como irrefutáve: “está na rede social, muito forte“. Existem muitas coisas “na rede social, muito forte“, que passam longe de ser verdade factual. Muita coisa contra Lula e o PT, inclusive. Ontem, mesmo, a partir de uma declaração sua, estava “na rede social, muito forte” que Lula havia sugerido violência sexual contra mulheres “desde cedo“. Bolsonarista impulsionaram a hastag “lulanaotoquenascriancas” – tudo “muito forte“. É verdadeiro o que estão a dizer de Lula?

Ao renunciar ao desmentido factual lembrado pela jornalista e ficar com sua crença no que “está na rede social“, Lula mostra sua rendição, e a de nosso tempo, à pós-verdade: o verdadeiro perde sentido frente ao verossímel – “como já tem a experiência de ter chutado…” pode chutar denovo ou querer proibir a Aparecida.

Do alto de sua função presidencial, diante dos jornalistas, Lula decretou: “Ela vai ser padroeira do Brasil porque o povo brasileiro quer“. Não existe “povo brasileiro” no singular. Essa abstração, em sua concretude, é bem complexa, e, do ponto de vista religioso, é diverso: católico, evangélico, espírita, afro etc. Quem “quer” a padroeira é o “povo católico“, não o “brasileiro“.

Ao que tudo indica, a militância do bem tratou de encher as redes de Adriana Araújo de ataques, uma vez que precisou se pronunciar para dizer que um jornalista “é quem faz as perguntas essenciais, necessárias“, não as que agradam.

O presidente voltou ao tema em dois atos de campanha entre segunda e terça.

Em Belém, arrematou:

“Enquanto eu for presidente da República, ninguém vai avacalhar com Nossa Senhora Aparecida. Ninguém. As pessoas precisam aprender a respeitar todas as religiões. […] Ninguém é dono da verdade”.

Estranhamente, falando de “respeito a todas as religiões“, tratou de classificar a “Igreja da Lagoinha“, e não sua lideranças, como “mentirosa“. Muito respeito, não?

Em Fortaleza, erguendo uma imagem de Aparecida, repetiu as declarações:

“Essa semana saiu boato de que vão querer que Nossa Senhora Aparecida não seja mais padroeira do Brasil. Eu respeito todas as religiões. A católica, a evangélica, a religião de matriz africana. Eu respeito até os ateus. Mas, enquanto eu for presidente da República, Nossa Senhora Aparecida será padroeira do Brasil. Quem não quiser, que mude do Brasil“.

Olha só, lembra Jair Bolsonaro, em 2018, lembrando que ele era “terivelmente cristão” e que quem não gostasse da fé que se “retirasse“.

Chegamos à reta final da disputa presidencial nesse espírito:um presidente que busca reeleger-se aproveitando-se da circulação de um conteúdo por ele sabidamente mentiroso, com a promessa de manutenção da padroeira do Brsil como tal.

E do outro lado da disputa, o que faz Flávio? A promessa de declarar o país “propriedade de Jesus“, não deixando de agarrar-se, eleitoralmente, a uma imagem de crochê da santa.

Brasil, meu Brasil brasileiro!

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Atlas/Focus: Elmano avança entre os mais velhos e nas faixas de maior renda; Ciro concentra vantagem entre jovens

Atlas/Focus a seis dias da eleição: Elmano 49% x Ciro 47,6%

Coligação de Ciro Gomes tenta barrar pesquisa Atlas/Focus, mas TRE rejeita e impede censura

Atlasintel: A polícia e a confiança que ainda resiste

Atlas/Focus: Lula mantém vantagem larga no Ceará, mas avanço de Flávio reduz distância

Atlas + Focus: Cid lidera consolidado, Luizianne encosta e Wagner mantém disputa aberta entre os três primeiros

Focus/Atlas: O placar muda com Elmano 48,5% x Ciro 48% e disputa entra na reta final em claro empate técnico

Entenda a super sexta-feira: três pesquisas e três fotografias em uma disputa que continua aberta

O fundamento da crise se deu quando a política passou a pedir ao Supremo que resolvesse a política

Alerta: IA se organiza sozinha, forma uma “gangue” e ataca

Três pesquisas medem o mesmo Ceará e encontram distâncias diferentes entre Ciro e Elmano

Focus + Atlas para o Senado: Cid e Luizianne empatam na liderança; Wagner e Alcides travam disputa pela direita

MAIS LIDAS DO DIA

PIB do Ceará cresce 2,21% no segundo trimestre e supera média nacional

Desemprego cai para 5,3% e atinge menor nível para trimestre até agosto

Dossiê de ex-sócio expõe Flávio Bolsonaro: festas com mulheres, Rolex e pressão sobre o STF

Juros do crédito para famílias sobem para 61,7% ao ano em agosto, diz BC

Bets: somos livres? Por Aline Ponte

Atlas/Focus: No Ceará, Lula cresce e chega a 57,7%; Flávio marca 32,2%

Após declarar suspeição, Floriano deixa caso de RC e Wagner; novo relator será sorteado

Siará Tech Summit 2026 destaca educação empreendedora como caminho para talentos, inovação e novas oportunidades

A mentira (do bem) dita várias vezes