Quem compara, o que compara?; Por Marco Dalpozzo

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Entre o balanço de Lula e as promessas de Flávio Bolsonaro, uma leitura sobre o que os documentos mostram, o que deixam de fora e o que precisamos perguntar.

Por Marco Dalpozzo

Comparar para escolher. Mas, antes de escolher, talvez seja necessário perguntar: quem compara, o que compara? Com qual régua? E o que preferiu não colocar sobre a mesa?

O primeiro turno, em 4 de outubro, terminou com Flávio Bolsonaro à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. O segundo turno será em 25 de outubro. Nesse intervalo, li com essas perguntas dois documentos: o guia de campanha “Quem compara escolhe Lula”, do PT, com 27 páginas, e o programa de governo de Flávio Bolsonaro, “Para o Brasil Vencer o Atraso”, com 76 páginas e nove eixos. Li com a curiosidade de um economista e psicossocioanalista, e de alguém interessado em observar organizações: o que cada informação mede, contra o que é comparada e o que o conjunto nos permite concluir.

Um guia de campanha olha para trás. Um programa de governo olha para a frente. O primeiro seleciona realizações; o segundo organiza intenções. A régua muda, mas a exigência permanece. Os resultados precisam de contexto. As promessas, de meios para acontecer.

O balanço que olha para trás

No guia de Lula, há avanços que resistem ao exame. O desemprego médio de 2025, de 5,6%, foi o menor da série da PNAD Contínua, iniciada em 2012, segundo o IBGE. A renda média real subiu, e foram criados 10,1 milhões de empregos formais. O desmatamento na Amazônia medido pelo Prodes caiu de cerca de 13 mil km² em 2021 para perto de 5,7 mil km² em 2025, um dado de satélite, de série longa. E a saída do Brasil do Mapa da Fome foi confirmada pela FAO. Reconhecer esses resultados deveria ser um exercício simples de honestidade intelectual, qualquer que seja a preferência política do leitor.

O problema de uma comparação começa quando a apresentação dos números dispensa a explicação de suas condições.

O guia compara os orçamentos de Saúde e Educação de 2022 e de 2026 em valores correntes, o que sugere um crescimento de cerca de 63%. Descontada a inflação acumulada no período, perto de 18%, o aumento real fica em torno de 38%. O crescimento existe, mas é menor. No Meio Ambiente, a passagem de R$ 3,5 bilhões para R$ 47,9 bilhões, uma multiplicação por 13,6, sugere mudança de escopo contábil, e não apenas de prioridade. O guia também não esclarece se compara dinheiro efetivamente gasto em 2022 com dinheiro apenas autorizado em 2026. A cifra pode estar correta; a conclusão exige mais cuidado.

A janela escolhida importa. O guia contrapõe um crescimento médio de 1,4% ao ano no governo anterior a 2,8% no atual, e uma inflação de 6,2% a 4,6%. Mas a média anterior carrega a recessão da pandemia, em 2020, e o choque global de energia e alimentos de 2021. Reconhecer esse choque não absolve decisões, mas impede que circunstâncias extraordinárias sejam tratadas como se fossem condições normais de governo. O mesmo vale para os juros: a Selic aparece em 13,75% tanto em dezembro de 2022 quanto em setembro de 2026. A igualdade das pontas esconde o percurso, com quase um ano de juros a 15% antes dos cortes.

Às vezes muda a própria régua. Os 36% de crianças alfabetizadas na idade certa em 2021 vêm de uma avaliação feita no auge do fechamento das escolas; os 66% de 2025 vêm de um indicador criado em 2023. E a fome, que a FAO mede em médias de três anos, aparece no guia como dado anual.

Há ainda o ponto de partida. Tendências não obedecem ao calendário eleitoral. Homicídios e latrocínios caíram 19% entre 2022 e 2025, mas a curva descendente começou em 2018, e a segurança pública é sobretudo competência estadual. A cobertura vacinal infantil se recupera, mas sua queda começou por volta de 2016. Um governo herda movimentos iniciados antes de sua chegada e deixa outros em curso quando termina. Atribuir toda melhora a quem está no poder empobrece a compreensão da política pública.

Minha principal ressalva ao guia de Lula, contudo, está no que fica fora do enquadramento: a sustentabilidade financeira das entregas. A dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB em agosto de 2026, R$ 11,1 trilhões, segundo o Banco Central. Ao fim do mandato anterior, estava em 71,7%. São mais de 11 pontos do PIB em menos de quatro anos, e o tema não aparece em nenhuma das 27 páginas.

O motor principal são os juros. Nos 12 meses até agosto, a conta de juros nominais somou R$ 1,18 trilhão, cerca de 8,9% do PIB: mais do que os orçamentos de Saúde e Educação somados que o próprio guia exibe. Uma comparação entre governos precisa mostrar também o que cada um deixa ao sucessor. Que compromissos foram assumidos? Que despesas foram adiadas? Qual espaço restará para investir? O guia mostra o que cada governo entregou; não o que cada um deixa a pagar.

Isso também vale para o governo anterior. A redução da dívida naquele mandato se apoiou em inflação alta, que corrói a dívida em relação ao PIB nominal, e em despesas represadas, como os precatórios adiados. O mesmo indicador pode melhorar por razões muito diferentes. Comparar exige compreender essas razões.

As promessas que olham para a frente

Ao passar para o programa de Flávio Bolsonaro, a pergunta muda. Já não basta verificar o que aconteceu. É preciso entender como o anunciado poderá acontecer: se cada promessa tem meta, custo e instrumento.

O programa acerta no diagnóstico. Coloca a dívida no centro e propõe um novo teto de gastos, superávits primários e a redução da dívida em relação ao PIB. Com a dívida em 82,9% do PIB, é a prioridade certa, justamente a que o guia adversário omitiu. Há também metas verificáveis, o que é mérito: cinco presídios federais de segurança máxima, 500 mil novas vagas prisionais em quatro anos, mais de 1 milhão de câmeras com reconhecimento facial. E uma meta que surpreende: zerar o desmatamento ilegal até 2029, próxima do compromisso do governo atual.

Falta saber, com a mesma clareza, como a conta será fechada. O chamado “tesouraço” propõe cortar ao menos dez ministérios, cargos comissionados e supersalários. Reduzir ministérios, cargos e privilégios pode ser desejável. Mas mais de 90% da despesa primária federal é obrigatória: previdência, pessoal, pisos de saúde e educação, benefícios assistenciais. O custeio administrativo é uma fração pequena desse total. Se atribuições, equipes e despesas apenas mudarem de endereço, a economia será bem menor do que a sugerida pelo anúncio. E o programa não apresenta nenhum número de economia.

O núcleo da discussão está nas despesas permanentes e nas regras que as sustentam. Que gastos serão reduzidos? Quais obrigações serão revistas? Que serviços serão preservados? Sem mexer em previdência, vinculações ou indexação ao salário mínimo, um teto de gastos volta a comprimir o investimento, como aconteceu entre 2017 e 2022. E o novo teto exige emenda constitucional, com três quintos do Congresso em dois turnos. Sem essas respostas, o corte permanece mais claro como mensagem política do que como demonstração econômica.

Do outro lado da balança estão as reduções de impostos sobre energia e combustíveis, a desoneração de exportações e investimentos e a revisão da reforma tributária. E novas promessas: manter o Bolsa Família, que Flávio passou a chamar de “direito adquirido”; estender a regra que preserva parte do benefício para quem consegue emprego formal; manter a isenção do IR até R$ 5 mil, aprovada no governo atual. Cada uma precisa ser examinada por seu mérito e por seu custo, mas o programa não traz estimativa consolidada de custos, de economia ou de perda de arrecadação. Quanto se espera perder? Quanto poderá ser recuperado pelo crescimento? Em que prazo? E o que acontecerá se a economia responder menos do que o previsto?

A resposta implícita é o crescimento, e é o ponto mais frágil: 4% ao ano por uma década e R$ 900 bilhões em infraestrutura em quatro anos, sem divisão entre investimento público e privado. O Brasil só sustentou esse ritmo em janelas curtas, como entre 2004 e 2010, com o vento das commodities a favor.

Na segurança, uma meta de construção permite acompanhar a entrega física. Mas inaugurar não encerra a despesa. Meio milhão de vagas prisionais é uma das maiores despesas de capital e de pessoal que um governo federal poderia assumir, em tensão direta com o tesouraço. Presídios precisam funcionar. Serviços precisam de pessoas, manutenção e financiamento continuado. Um programa consistente deve apresentar também a vida das propostas depois da fotografia de inauguração.

Há, portanto, uma diferença importante entre reconhecer um problema e demonstrar capacidade de resolvê-lo. O diagnóstico fiscal pode ser pertinente e a solução continuar incompleta.

Dois silêncios simétricos

Na minha leitura, os dois documentos deixam perguntas em aberto em lugares diferentes, e de forma quase simétrica. O guia de Lula esconde a dívida; o programa de Flávio a coloca no centro, mas esconde a conta que a resolveria. Um não mostra o que deixa a pagar; o outro não mostra como pagaria.

Não é necessário distribuir críticas em quantidades iguais. É necessário manter o critério.

A narrativa e quem a recebe

Quem trabalha com organizações conhece esse tipo de documento: o relatório que a diretoria leva ao conselho, com indicadores selecionados e uma narrativa cuidadosamente construída. Cada informação pode estar correta e, ainda assim, o conjunto conduzir a uma percepção parcial.

A tradição psicossocioanalítica, de Luigi Pagliarani a Giuseppe Varchetta, ensina a olhar não só para o conteúdo de um documento, mas para a relação entre as pessoas, os grupos e suas representações. O ponto não é desmascarar o relatório. É perguntar que função a narrativa cumpre para quem a produz e que necessidade atende em quem a recebe.

Um guia de campanha não é um instrumento de análise; é um instrumento de pertencimento. Organiza um mundo ambíguo em duas colunas, reduz a angústia da escolha e ajuda o apoiador a reconhecer seu grupo e a reafirmar sua decisão. O programa adversário faz algo parecido, com uma sutileza: cita o governo de Jair Bolsonaro como referência e, ao mesmo tempo, adota bandeiras do governo Lula, como o Bolsa Família, a isenção do IR e o desmatamento zero. É o gesto de quem herda uma organização: sinalizar continuidade ao grupo fundador enquanto procura conquistar quem está fora dele.

Hoje essa função é amplificada. As redes e seus algoritmos, os novos “alienígenas” digitais que habitam a conversa pública, premiam a frase que confirma o grupo e penalizam a que o inquieta. O risco é o do “talk the talk” sem “walk the walk”: a comunicação toma o lugar da entrega, e a propaganda, o lugar da prestação de contas.

O país real, porém, não cabe em duas colunas.

Uma política pode produzir avanços e carregar problemas de financiamento. Uma proposta pode identificar corretamente uma dificuldade e não apresentar os meios de superá-la. Aceitar essas possibilidades exige tolerar a complexidade, inclusive quando ela perturba nossas certezas.

Minha contribuição pretende ser essa: ajudar a comparar. Perguntar o que cada número revela, o que cada promessa exige e quais consequências permanecerão depois da eleição. Para o eleitor, a pergunta útil não é quem tem a coluna mais verde, mas quem mostra como fecha a conta. Ler o vento, não o cata-vento.

Depois da urna

Sou italiano, um gringo adotado pelo Brasil, que amo. Não posso votar aqui, infelizmente. Mas gostaria de estimular quem pode, e no Brasil deve, já que o voto é obrigatório, a ir às urnas no dia 25 e votar, em um ou em outro, mas votar. Na minha visão, o exercício da democracia é este: anular o voto ou deixar de votar não ajuda a afirmá-la.

Não participo dessa escolha na urna. Participo da vida que continuará depois dela. Porque o Brasil também é minha casa, e sou brasileiro de coração.

Marco Dalpozzo é economista e psicossocioanalista, com experiência em desenvolvimento organizacional e RH, e empresário do vento. Professor convidado da Fundação Dom Cabral, italiano radicado no Brasil há três décadas. Escreve sobre liderança, cultura empresarial e negócios.

Fontes: Guia de Bolso “Quem compara escolhe Lula” (versão de 17/09/2026); programa de governo “Para o Brasil Vencer o Atraso” (TSE/DivulgaCandContas); IBGE (PNAD Contínua); INPE (Prodes); FAO (SOFI 2025 e 2026); Banco Central (dívida bruta e juros nominais, agosto de 2026); TSE (resultado do 1º turno). Crescimento real dos orçamentos estimado com deflator de 18%, a partir da inflação média citada no próprio guia.

Marco Dalpozzo é um executivo (Grupo *e), professor e empresário ítalo-brasileiro que combina uma sólida trajetória corporativa com o gosto pela liberdade, pelo turismo sustentável e pelos esportes de vento. Ao longo de 15 anos na Unilever, construiu uma carreira que o levou à vice-presidência de Recursos Humanos da CBF, da L’Oréal e da Vale. Hoje, é sócio da Organizações Contemporâneas, cofundador da Ariele, professor da Fundação Dom Cabral e conselheiro consultivo do Coppead/UFRJ.



 

 

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