
Não encontrei em meus alfarrábios de grego, aramaico e hebraico nada que explicasse a clonagem. Imaginei que fosse coisa estritamente da modernidade!
Não me refiro, contudo, ao processo biológico de reproduzir um ser idêntico aos seus ancestrais, algo amplamente difundido pela ficção científica, por estudos acadêmicos e até por novelas.
Quero falar do contexto em que a clonagem desembarcou na cultura popular: a clonagem como instrumento de criação de avatares digitais para simular documentos, pessoas e situações sob medida para aplicar golpes e fraudes financeiras.
O operador é o clonador. Indivíduo sorrateiro, desalmado e de precisão cirúrgica. Ele não desenvolve sua atividade como os antigos ladrões de galinha do sertão ou os batedores de carteira nos ônibus de antigamente, que agiam movidos pela sobrevivência ou pelo instinto da preguiça. O clonador mira o empoderamento em sua comunidade e, se possível, o enriquecimento rápido.
Fui vítima. Levei sorte; estou curado. Meu algoz era recruta, não fez o serviço direito. Tenho até dó. Sei que perderá o “emprego” e será julgado pelo tribunal do crime organizado. Afinal, o chefe não perdoa pixotada.
A reação dos meus amigos no grupo do WhatsApp foi bastante variada. Responderam ao rapaz com grosseria, criaram memes e fizeram piadas. Como dizia o grande Chico Anysio: “A desgraça de ontem é a piada de hoje”.
Outros, no entanto, viraram-se contra mim, dizendo que haviam mandado o dinheiro e cobrando o ressarcimento com juros e correção monetária. Brincadeirinhas, sem sequer imaginar os atropelos pelos quais passei.
Outro disse que eu havia pedido dinheiro até aos “Ferreira” pobres. Não sabia dessa divisão financeira familiar.
Ninguém comentou a complacência do Estado brasileiro perante essa onda de violência. Os crimes que antes afrontavam apenas a desguarnecida periferia agora invadem os bairros nobres e atingem a burguesia.
Quando uma autoridade diz abertamente que subtrair um pertence sob a mira de uma arma não vale nada, ficamos emparedados. A quem recorrer?
Por outro lado, resta um consolo: na condição de idoso, remido de meu conselho e encostado pela Previdência, foi, de certo modo, reconfortante ser utilizado como clone. Sinal de que ainda tenho algo a oferecer, nem que seja para um aprendiz do crime.
Para o clonador, afinal, sempre existe um chinelo velho para um pé cansado.






