
Meu nome é Francisco, em homenagem ao santo amigo da natureza, dos animais e dos pobres: São Francisco de Assis.
Quando criança, meus pais me levavam todos os anos a Canindé, no sertão cearense, para pagar promessas e renovar a devoção ao santo. Eram viagens que misturavam fé, esperança e lembranças de uma infância marcada pela religiosidade de minha família.
Há cerca de vinte anos, tive que voltar a Canindé por uma razão curiosa. Uma amiga de minha mãe havia prometido ao santo que, caso eu fosse eleito deputado estadual, pagaria uma promessa em seu nome. Só tomei conhecimento daquele contrato com o céu depois de ganhar a eleição. E ela praticamente exigiu que eu honrasse a dívida.
Fui em respeito à fé de uma amiga, embora esse tipo de tradição religiosa pouco significasse para mim. Aproveitei a viagem para revisitar as lembranças dos caminhos percorridos ao lado de meus pais, onde a fé, a paisagem do sertão e os afetos familiares se entrelaçavam na memória.
Pouco antes de chegar a Canindé, passei pela pequena cidade de Caridade. Recordei que minha mãe realizava um importante trabalho social no distrito de Campos Belos, levando atenção, solidariedade e esperança às famílias carentes daquela comunidade.
Foi quando, olhando para o lado esquerdo da rodovia, avistei, no alto de um morro, uma imagem insólita: uma gigantesca estátua de um santo sem cabeça.
Lembrei imediatamente da história que já conhecia. O corpo do santo havia sido construído, mas sua cabeça jamais chegara ao lugar. Resolvi entrar na cidade para descobrir onde ela estava.Depois de percorrer algumas ruas e pedir informações aos moradores, finalmente a encontrei. Ali estava ela, diante de uma casa simples, como um objeto qualquer esquecido no quintal da história. Uma cabeça gigantesca, feita de ferro e cimento, castigada pelo sol, pelas chuvas e pela indiferença dos anos.
O rosto do santo, que deveria contemplar os fiéis do alto de um monumento, permanecia ao alcance dos olhos de quem passava pela rua. Parei diante daquela imagem e fiquei algum tempo em silêncio. Havia algo de profundamente desconcertante naquela cena. Não era apenas uma peça de concreto abandonada. Era a cabeça de um santo separado do próprio corpo, uma expressão de devoção transformada em ruína antes mesmo de cumprir seu destino.
A quase três quilômetros dali, no alto do morro, permanecia o corpo, erguido em direção ao céu. Aqui embaixo, repousava a cabeça, entregue ao tempo. Era como se o santo tivesse sido dividido entre duas esperas: o corpo aguardando a cabeça e a cabeça esperando que alguém se lembrasse do corpo.
Aquela situação me provocou uma indagação:
O que se passaria na cabeça dos moradores de Caridade ao contemplarem, durante tantos anos, a imagem de Santo Antônio, padroeiro da cidade, mutilada e sem cabeça?
Ao conversar com algumas pessoas, percebi um sentimento de descrença, não no santo, mas nos governantes que se sucediam sem resolver aquele absurdo.
Procurei saber como aquilo havia acontecido. Descobri que a construção começara em 1984, por iniciativa da administração municipal, mas fora interrompida em 1986, por falta de recursos. Dificuldades técnicas, o peso da estrutura e os fortes ventos da região também teriam dificultado a instalação da cabeça.
O episódio acabou ganhando dimensão literária. Em 2014, a escritora cearense Socorro Acioli publicou o romance A Cabeça do Santo. No enredo ficcional, um jovem chamado Samuel encontra abrigo dentro da cabeça abandonada e passa a ouvir as preces de mulheres que pedem ajuda para encontrar o amor.
Agora, a história do santo sem cabeça transformou-se em inspiração para o enredo da tradicional escola de samba Unidos da Tijuca, no Carnaval de 2027, levando à Marquês de Sapucaí a literatura cearense, a religiosidade popular e a imaginação do nosso povo.
Naquele dia em que encontrei a cabeça do santo, também entrei nela. Não escutei nenhuma prece, como o personagem do romance. Ouvi apenas minha própria voz interior, tomada pela indignação e pela inquietante sensação de impotência diante daquele absurdo.
Durante quase quarenta anos, aquela imagem mutilada permaneceu diante dos olhos de todos. Governantes se sucederam, promessas foram renovadas, eleições aconteceram, e o santo continuou sem cabeça. O que deveria provocar indignação acabou incorporado à paisagem. O absurdo, de tão repetido, tornou-se normal.
Na política, como na religião, há quem prefira acreditar a questionar. A diferença é que a fé pode alimentar a esperança, enquanto a renúncia ao pensamento crítico pode alimentar a submissão.
Finalmente, em 15 de dezembro de 2025, colocaram uma nova cabeça no santo. Depois de quase quarenta anos, Santo Antônio deixou de ser conhecido na cidade apenas como o santo sem cabeça.
Mas uma inquietação permaneceu comigo:
Afinal, o que é mais grave: um santo que passou quarenta anos sem cabeça ou uma sociedade que, mesmo tendo cabeça, permite que outros pensem por ela?
Talvez a maior ironia dessa história seja esta: o santo precisou de quarenta anos para receber uma cabeça. E nós, de quantas gerações precisaremos para aprender a usar a nossa?






