
O ônus de vencer são os desafios de cuidar. Ao falar em renovar seu partido e governar ouvindo as pessoas, muito mais do que uma promessa, percebi em Lula um pedido: não abandonem as ruas. Em outras palavras, “assim como não venceríamos sem vocês, sem vocês não será possível governar”.
Por que? Lula olha para o lado direito da praça dos Três Poderes e vê um novo congresso, onde a direita está mais fortalecida; olha para a frente, e vê um Supremo desmoralizado pelos excessos deslumbrados de sua constelação de egos. E sabe que, onde seus companheiros governam, as filas para comprar água são escoltadas por policiais para garantir o abastecimento.
Enfim, a inflação está sob controle, o país cresce, o desemprego bateu recorde e seu presidente é louvado nas praças do mundo como a maior referência de resistência da civilidade ante as pressões dos novos bárbaros neofascistas. Parece que está tudo certo. E está: como dois e dois são cinco.
Na aspereza do chão, na arena da experiência com coisas reais, os desafios são enormes. Agradeçamos aos que lutaram pois, apesar de tudo que se possa dizer, esses desafios serão enfrentados sob a liderança de um homem experiente e que tem gosto pelo diálogo. Poderíamos estar embarcados num desastre. Ao contrário, temos ao leme um nordestino passado na casca do alho.
É nas mãos dele que estão as batatas quentes:
_ A necessidade de engendrar fluidez na governabilidade com um parlamento onde não chega a um terço os que, de fato, pensam como ele.
_ Obter taxa de juros mais baixas para que consiga manter tanto os investimentos inclusivos quanto em modernização da infraestrutura.
_ Oferecer, o Estado, finalmente, uma resposta à sociedade que a faça se sentir mais segura com um programa consistente de combate ao crime organizado.
_ Alargar os horizontes da juventude, com Educação qualificada e oportunidades materiais, de modo que ela possa crer que nasceu no lugar certo e tenha por este lugar estima suficiente para cultivar valores civilizados e cooperativos.
Isso aí é só para bater o centro no jogo do futuro. Há inúmeras outras questões a reclamar cuidados. Negligências ambientais e enchentes em áreas de risco habitadas, o avanço predatório da pecuária em maciços florestais, sem esquecer de honrar a condição de maior exportador agrícola do mundo com a oferta de gêneros a preços compatíveis com a renda dos trabalhadores. A queda da participação do setor industrial no PIB e os investimentos pífios em pesquisa e inovação… Bem, fiquemos por aqui.
Foi bonita a festa, pá. Mas quem venceu leva para casa como troféu apenas a responsabilidade de descascar as batatas – e com as unhas, no caso do Brasil. Bora nessa.








