Ciro Gomes afirma que Temer "devia estar preso há 20 anos" e chama Bolsonaro de "imbecil"

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Foto: Divulgação

Equipe Focus
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O ex-candidato a Presidência da República pelo PDT, derrotado nas últimas eleições, Ciro Gomes, mantém a língua afiada. Os “alvos” desta vez foram o ex-presidente Michel Temer e o atual presidente Jair Bolsonaro. Em entrevista ao periódico português Diário de Notícias, Ciro afirmou que Temer “devia estar preso há 20 anos” e Bolsonaro é um “imbecil”. Para completar, chamou Haddad de “bom professor”.
Também falou da operação Lava Jato, afirmando que ela “prestou um grande serviço ao Brasil, por mais que seja lamentável a prisão do ex-presidente Lula”. E faz planos para 2022.
Abaixo, alguns trechos da entrevista concedida ao português Diário de Notícias: 
Diário – É um crítico do ex-presidente Michel Temer, mas ainda assim considerou a sua prisão uma “aberração jurídica”. Porquê?
Ciro – Porque ainda que choque um país de cultura civilizada e avançada como é Portugal, Michel Temer merecia ser condenado e estar preso há dez ou 20 anos. Mas até hoje não foi ainda formalizada nenhuma condenação. A regra nos países civilizados do Estado de direito democrático é a liberdade. As prisões excecionais dão-se em casos muitos específicos. E nenhum dos factos imaginados pela lei, como a ameaça de fugir, evidência de que está a destruir provas, coagindo testemunhas ou perturbando a ordem pública, nem uma dessas situações excecionais, estava desenhada em redor de Michel Temer. Portanto, não estou a defender Michel Temer, estou a defender a Constituição brasileira, a ordem jurídica que no Brasil tem sido muito violentada ultimamente.
Diário – Considera que a Operação Lava-Jato já perdeu sentido?
Ciro – Não diria que perdeu sentido. Ela prestou, no passado, um grande serviço ao Brasil, por mais que seja lamentável a prisão do ex-presidente Lula. Ela prendeu também outras pessoas, como o ex-presidente da Câmara [Eduardo Cunha], um corrupto absolutamente notório, com dinheiro na Suíça. Prendeu o Gedel [Vieira Lima], que foi ministro do Lula, das fotografias com malas de dinheiro em espécie, à conta de 51 milhões de reais. Tudo isto foi uma obra da Lava-Jato, que foi importante para o Brasil, que é um país que se queixa muito da impunidade dos grandes. O Brasil é um país que tem uma população carcerária imensa, mas toda ela caracterizada por serem pobres, negros, da periferia, e há uma sensação muito justa e desagradável entre nós brasileiros médios de que a lei não é para todos. E a Lava-Jato pareceu ser, num primeiro momento, uma exceção a isso.
Diário – Que impacto tem a detenção de Temer e a Lava-Jato na presidência de Jair Bolsonaro?
Ciro – A Lava-Jato teve um impacto publicitário no começo que se está a esvair muito rápido. Bolsonaro recrutou o [juiz Sérgio] Moro por uma razão publicitária. Parecia que o xerife da nação, o grande vergalhão moral da nação, estava aceitando participar num governo que parecia ser a sanção, a demonstração que seria um governo que se constituiria originalmente contra a corrupção e os maus costumes no Brasil. Na sequência, os factos foram evidenciando que tudo isso são ilusões, porque a corrupção é um fenômeno mais complexo e tem de ser enfrentado com muito mais sofisticação do que com esses casos de publicidade.
Diário – Também considera que a decisão de Bolsonaro de celebrar o aniversário do golpe de Estado de 1964, que instituiu a ditadura militar, é um golpe publicitário?
Ciro – Sem dúvida. Os últimos 15 dias no Brasil foram muito críticos para o governo. É como se a máscara tivesse caído e muito velozmente. É quase frenética a velocidade com que se decompõe o capital político recém-constituído, nem completou três meses de governo. Você tem a viagem aos EUA que caiu muito mal no Brasil, pela vassalagem, pelo despreparo, pela falta de agenda, pela bajulação constrangedora e a entrega aos norte-americanos de interesses do Brasil.
Diário – E usa a celebração para o esconder…
Ciro – É uma agenda de desgaste, de bobagens, e o que é que ele imagina fazer, aconselhado por esses marqueteiros e o filho dele é um deles? Ele lança uma polêmica em que troca o assunto. Então, pede para se celebrar a ditadura de 1964, porque neste assunto há imediatamente uma reação natural, mas pouco pensada, em que os setores mais à esquerda vão lembrar todas as mazelas da ditadura. Se você abrir a internet nos sites brasileiros, os ambientes do Facebook, das redes sociais, são fotos terríveis de gente torturada, de gente morta, de gente desaparecida, de parentes que se suicidaram porque foram torturados barbaramente, etc. Tudo o que os próprios militares profissionais não querem mais lembrar, como Portugal não quer lembrar a ditadura de Salazar, Espanha não quer lembrar o franquismo, a Alemanha não quer lembrar o nazismo, a Itália não quer lembrar o fascismo. E ele faz o oposto, para tentar unir o bando dele, que está disperso.
Diário – E o Partido dos Trabalhadores? Falou noutras ocasiões no “lado bandido” do PT…
Ciro – O PT é uma organização muito importante para a história brasileira. Mas o PT, de um tempo para cá, perdeu completamente a noção do país. E não posso chamar o PT, porque conheço muita gente do PT que está a perceber isso. O problema é que o PT vive hoje vítima de um caudilhismo sul-americano. O Lula foi um momento maravilhoso da vida brasileira, que eu ajudei, com quem colaborei, de quem sou companheiro, sou amigo. Mas infelizmente parece haver uma síndrome dos Cem Anos de Solidão, do Gabriel García Márquez. Talvez explique esse trauma, essa vulnerabilidade sul-americana ao caudilhismo personalista corrupto. E é no que se transformou a direção do PT, transformou-se na réplica de um caudilhismo, absolutamente sem projeto, sem compreensão de país, que se assume e se autorrefere como de esquerda e faz toda uma prática de direita, não só no campo moral mas no campo econômico, principalmente.
Diário – Pode dar exemplos?
Ciro – Só para que o português saiba, o Brasil, durante o governo assim chamado de esquerda, não fez uma única alteração no sistema tributário mais regressivo do mundo. Os pobres no Brasil pagam 42% do seu rendimento em impostos e os muito ricos pagam 4%, como proporção. O Brasil é um de dois países do mundo, junto com a Estônia, que não cobra tributo sobre lucros e dividendos empresariais. O Brasil, durante o governo Lula, concentrou em apenas cinco bancos, 87% de todas as transações financeiras do país. E esses bancos vivem tendo um lucro extraordinário, quando a economia real está completamente deteriorada. É impressionante o que lhe digo. O Brasil fechou 13 mil indústrias nos últimos três anos. O Brasil fechou 12 mil casas de comércio nos últimos três anos. Nós estamos com 14 milhões de desempregados, 63 milhões de brasileiros com nome sujo no sistema de controlo de crédito, e os bancos tendo lucros exorbitantes, recordistas, basicamente estipendiados pelo Estado brasileiro, que patrocina uma taxa de juros absolutamente criminosa durante todo o período assim referido de esquerda. Essa crítica eu faço com dor, mas ou o Brasil dá um passo adiante ou nós vamos produzir essas aberrações. Porque o que gerou esse fenômeno de eleger um despreparado, um semianalfabeto, não no sentido de leitura, mas no sentido de compreensão da vida, como Bolsonaro, um maluco, em rigor, um imbecil, uma palavra dura para se dizer de um presidente, mas é um imbecil, foi a onda anti-petista.
Diário – Teria sido tudo muito diferente se o PT tivesse apoiado a sua candidatura presidencial?
Ciro – Não precisava ter-me apoiado, porque senão a minha análise não teria a isenção necessária. Se o PT tivesse entrado numa dinâmica de discutir as coisas do Brasil, assim como elas são percebidas pelo nosso povo… Se o PT tivesse tido o mínimo de autocrítica… porque não é razoável. O [António] Palocci foi ministro da Fazenda do Lula oito anos, foi ministro-chefe da Dilma, e está hoje em prisão domiciliária depois de ser apanhado com cem milhões de reais, algo em redor de 25 milhões de euros, quando era uma pessoa pobre. É confesso que foi corrupção, é réu confesso e denuncia toda a estrutura e o PT até hoje não faz uma referência? Todos os tesoureiros do PT foram presos, todos os dirigentes do PT, os parceiros… Michel Temer foi posto na linha de sucessão pelo Lula, pela popularidade generosa que o povo lhe deu. Então, nada disso eles refletem. Temer é preso e eles que acusaram o Temer de promover um golpe de Estado, fizeram a defesa de Temer não pela legalidade, mas pelos factos, porque eles estão amarrados na narrativa do Lula de que é um preso político, tendo tido amplo direito de defesa, de se defender. Ele tem seis processos contra ele.
Diário – Podemos esperar uma candidatura sua em 2022 ou já desistiu?
Ciro – Não desisti não, sigo lutando, sigo militando. Acabei de escrever um livro, estou fazendo a revisão para lançar, estou atendendo convites de palestras, que me deu mais uma vez a alegria de voltar a Lisboa, tive também em Madrid, sempre lutando pelo Brasil. Agora, eu tenho muita experiência. A confusão que vem aí, já começou, mas a confusão que vem e o deslinde dessa confusão tem um poder de combustão, um poder de fogo muito quente. E essa combustão vai queimar muita coisa no Brasil. Não sei se eu, não pelo campo moral que isso eu sei que não, mas não sei se já não estou ultrapassado. Não sei se por questão dessa combustão a população não vai procurar uma coisa nova. Também no adjetivo. Porque a minha ideia é muito nova, mas somo a isso uma experiência e uma idade que está andando.
Fui governador tinha 32 anos, o mais jovem da história do Brasil. Agora já tenho 61 anos. Estou muito amadurecido e fico indignado porque o Brasil tem dez portas de saída, é um país tão raro nas suas potencialidades, que tem dez portas de saída. Você imagina um sistema tributário que cobra 4% de imposto sobre heranças? Um sistema tributário que não cobra sobre lucros e dividendos? Uma fisiografia onde você planta culturas temperadas, como o trigo, e tropicais como o melão no mesmo dia? Você tem a maior biodiversidade do mundo, você tem água, você tem minérios de toda a natureza, você tem petróleo em abundância sobrada… o que está fracassando miseravelmente no Brasil é a política. E tenho a comoção de que é possível consertar.
Diário – Para acabar, vou lançar nomes e pedir que diga as primeiras palavras que lhe veem à cabeça. Começando com Jair Bolsonaro.
Ciro – Um imbecil.
Diário – Michel Temer?
Ciro -Um corrupto contumaz.
Diário – Dilma Rousseff?
Ciro – Honesta, mas absolutamente incapaz.
Diário – Lula da Silva?
Ciro – Foi um bom presidente para o Brasil, mas se corrompeu.
Diário – Fernando Haddad?
Ciro – Um bom professor.
Diário – Ciro Gomes?
Ciro – Um sonhador

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