Sim, é preciso achatar a curva do coronavírus, mas não a economia, por Fábio Campos

COMPARTILHE A NOTÍCIA

“Melting Men” é o projeto mais famoso da artista Nele Azevedo. A obra consiste na instalação de centenas de bonequinhos de gelo. Os remédios dados para combater o coronavírus podem derreter a nossa economia.

Por Fábio Campos
fabiocampos@focuspoder.com.br

Há uma frase muito usada entre os médicos: “A cura pode ser pior que a doença”. Ou seja, os remédios prescritos aos pacientes podem até curá-los da doença-foco, mas seus efeitos colaterais vão levá-lo à morte por doenças ainda mais violentas.

Precisamente, é o que pode estar acontecendo no Brasil e no mundo. As políticas que, de forma geral, os países estão pondo em prática para combater o coronavírus, se não forem bem conduzidas e com tempo determinado, tendem a gerar uma tragédia econômica sem referência cujas consequências podem ser muito mais arrasadoras que o próprio COVID-19.

As políticas baseadas em quarentena geral têm limite de tempo. Se prescritas em excesso, matam com extrema rapidez a estrutura social e econômica das sociedades, estabelecendo o estado de anomia com consequências tão aterrorizantes que nem sequer precisam ser citadas neste artigo. Fiquemos só com duas: desemprego em massa e, consequentemente, fome.

Enfim, a introdução serve para dizer o seguinte: políticas de quarentena geral têm limite. Se forem mantidas além do razoável, vão resolver a epidemia do coronavírus, mas geram uma epidemia de fome e, possivelmente, de violência. Salvar a economia e, por conseguinte, o tecido social é a fundamental tarefa paralela no combate à COVID-19.

Na hora em que escrevia estas linhas, saia o último balanço da doença no Brasil: 1.981 casos identificados e 34 mortes. Considerando que a quantidade de infectados é bem maior do que o detectado, o índice de mortes torna-se ainda mais baixo. Para efeito de comparação: durante o motim dos Policiais Militares, 364 cidadãos foram assassinados no Ceará. Portanto, o índice de mortos por coronavírus até aqui no Brasil equivale a 10% dos homicídios praticados no Ceará em 25 dias de fevereiro.

Não se trata de minimizar as mortes por coronavírus. Trata-se de jogar a luz sobre uma questão crucial: até onde vão as políticas de quarentena, de fechar o comércio e limitar o transporte e o trabalho das pessoas? Ora, é preciso haver um limite sob pena de inviabilizarmos o país e relegarmos milhões à miséria absoluta.

Devemos ver as medidas até aqui como uma forma de fazer com que os sistemas de saúde público e privado ganhem tempo para se estruturar antes que haja contaminação em massa e, obviamente, estrangulem os hospitais com riscos de gente morrer na porta da emergência. É evidente que, passado esse tempo (que eu não sei qual é), a economia tem que voltar a funcionar até com mais força e estímulos do que antes.

Fundamentalmente, como já ocorre hoje, será preciso continuar protegendo (sim, em quarentena) a população de idade mais avançada e os cidadãos com as chamadas comorbidades. É o que importa. Não custa repetir: em praticamente 90% da população, o vírus, quando não é assintomático, provoca efeitos similares a uma gripe, que pode ser fraca, média ou mais forte.

Por enquanto, quem manda são os médicos. Estes estão dando o tom das ações governamentais. Estes profissionais são treinados para curar o doente e seguir os protocolos para os quais foram treinados. Portanto, seus focos não são as questões econômicas.

Sim, é preciso achatar a curva do coronavírus, mas não a economia. Mas aí será a vez de outros profissionais: os economistas e os políticos (estes, assim como os médicos e os jornalistas, há, claro, os bons e os de qualidade inferior). Em breve (não sei quando, mas, creiam, o cotidiano vai apressar), mesmo sem o fim da epidemia, os governos se sentirão impelidos a revogar seus decretos restritivos ao trânsito e ao trabalho. Lógico que, espera-se, quer tudo seja feito de forma gradual, científica e inteligente.

Governador Camilo Santana, o dia 29 será no próximo domingo. É a data limite estabelecida pelos seus decretos para o, digamos, desligamento de parte da cadeia econômica. Sei que o governador cuidou de ouvir os representantes dos setores econômicos para tomas suas decisões mais duras. A questão é: os decretos serão prorrogados? Será preciso muita perícia para que a cura do coronavírus não venha acompanhada da derrocada econômica do nosso Ceará.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Vídeo: Como o Focus Poder antecipou, Aécio chama Ciro para a disputa presidencial

Parceira do Focus Poder, AtlasIntel crava resultado da eleição na Hungria

O novo cálculo do Senado: entre a força de Cid e a oportunidade de Luizianne

Criatura política no Ceará: federação estilo Frankenstein tenta ganhar vida

Vídeo: Aécio recoloca Ciro no radar da terceira via

Geólogos concluem que o Brasil tem montanhas; E o Ceará é o estado mais montanhoso do Nordeste

Aécio e Cid se movem em sintonia e reposicionam Ciro no tabuleiro nacional

Queda histórica na violência: Ceará registra a Semana Santa menos letal em 17 anos

Aliado de Elmano, AJ Albuquerque divulga decisão nacional do PP que libera apoios no Ceará

Atlasintel perguntou ao brasileiro se ele é de direita, esquerda ou centro; Veja o resultado

Atlasintel: pesquisa mostra empate técnico com Ciro em vantagem numérica sobre Elmano

Pesquisa da AtlasIntel testa cenário com Camilo Santana contra Ciro Gomes

MAIS LIDAS DO DIA

Quaest: Flávio Bolsonaro tem 42% e Lula 40% em cenário de 2º turno

Quaest: Lula tem 37% e Flávio Bolsonaro 32% em cenário de 1º turno

Moraes abre inquérito contra Flávio Bolsonaro por suposta calúnia contra Lula

Safra 2026 no Ceará deve crescer mesmo com chuvas abaixo da média, aponta IBGE

De democratas, todos temos um pouco; Por Paulo Elpídio

STJ restabelece demarcação da Terra Indígena Tapeba no Ceará

Lia Gomes lê o presente, mas a política exige construção