A Alemanha Verde, por Igor Macedo de Lucena

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Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

Ao final do seu último mandato como chanceler da Alemanha, Angela Merkel anunciou um ousado e importante plano que deve colocá-la como a premiê mais alinhada com a causa da economia verde na Europa. A Alemanha alocará 54 bilhões de euros nos próximos quatro anos para acelerar a redução de emissão de poluentes e o fará sem recorrer ao endividamento público, ou seja, com o atual budget nacional.
Os objetivos estabelecidos neste tipo de “Plano Marshall” ambiental são os já assumidos pela Alemanha na conferência de Paris, embora agora sejam vinculativos em um documento de 22 páginas. O setor de energia deve reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 61% até 2030, habitação em 66%, transportes em 40%, indústria em 50% e a agricultura em 33%. No total, as emissões devem ser reduzidas em 55% em comparação com 1990, o ano de referência da comunidade internacional.
A tarefa não será fácil. A taxa de emissão de CO2 per capita na Alemanha é de 8,9 milhões de toneladas, a maior da Europa, algo lógico para a maior economia do continente. O plano prevê novos impostos sobre combustíveis fósseis, que afetarão diretamente as famílias, impactando um terço de todas as emissões. A partir de 2026, o combustível fóssil para aquecimento das casas será banido e, por mais que haja apoio público a transição para uma nova matriz energética de aquecimento, as associações de consumidores temem que não compensem o aumento do custo de vida. Os usuários de transporte urbano podem, no entanto, equilibrar suas contas com descontos e isenções.
As empresas, apesar das oportunidades que a nova era pode oferecer, enfrentam uma grande mudança tecnológica, especialmente no setor de ponta alemão, o automotivo. Não foi por acaso que este segmento, um dos mais poluentes, é, depois da agricultura, o que teve menor metas de reduzir a emissão de CO2.
Às portas de uma recessão econômica, mas com amplo espaço para reativar a economia sem abrir mão do mantra de “zero dívidas” nos orçamentos públicos, o pacote ambiental chega no momento certo. Os incentivos para a compra de carros elétricos devem reviver o setor, que sofreu uma contração de 12% no último trimestre, principalmente devido a guerra comercial dos Estados Unidos e da China. As melhorias no transporte urbano e na tão necessária rede ferroviária federal permitirão, fora do orçamento, investimentos em infraestrutura pública. Cerca de 11 bilhões de euros serão investidos na melhoria da ferrovia alemã e, para incentivar os usuários de voos curtos, os preços dos bilhetes de longa distância serão reduzidos em 10%.
Nas palavras do ministro das finanças: “o que estamos fazendo é garantir empregos. Trata-se de usar o apoio climático para modernizar a economia e conseguir novos empregos”. Toda essa mudança possui três grandes planos de fundos. O primeiro é uma clara necessidade de reativar a economia alemã por meio do investimento público em um momento de incertezas internacionais, no qual os investidores privados se mostram receosos de investir e que as exportações estão caindo mês a mês.
O segundo é um ponto de vista político, pois na última eleição nacional alemã, o grande partido vencedor foi o partido Verde, ultrapassando 20% dos votos e se tornando a segunda força política, atrás apenas da coalizão de direita CDU-CSU. Essa reação dos eleitores foi uma clara resposta aos políticos: “queremos uma economia verde”. A tendência é que os partidos verdes da Europa ganhem mais espaço e esse novo plano da premiê Angela Merkel é um aceno para essa nova força política e mostra uma nova visão para onde seu partido e sua sucessora Annegret Kramp-Karrenbauer devem seguir.
O terceiro aspecto é referente a uma questão de legado. Merkel foi a responsável pela expansão da Alemanha como coração político e econômico da Europa. Sua liderança ao lado dos diversos presidentes franceses e premiês italianos moldou a política externa e as decisões da Europa nos últimos 19 anos. Nos seus últimos dois mandatos sua política de imigração desagradou parte do eleitorado, o que abriu a possibilidade da volta de uma direita ultrarradical. O novo plano verde para a Alemanha é para Merkel uma redenção de uma política migratória ineficiente, algo que pode colocar a chanceler como a mãe de uma nova economia alemã.
Uma coisa é certa, os eleitores europeus estão cada vez mais interessados e relacionados com o meio ambiente e o desenvolvimento da economia verde, algo que já se mostrou realidade nas urnas alemãs, será pauta importante nas próximas eleições e formatações de políticas públicas. Para os alemães, nada mais lógico do que transformar esse desejo em novos setores econômicos, saindo na frente e mais uma vez criando uma indústria nacional de ponta.

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