“Pô, Chicó! Essa obra tá pior do que a da Sé!”
A frase, disparada por meu pai entre a impaciência e o desalento, marcou minha infância na Rua Antônio Augusto, em Fortaleza. Chicó — com acento agudo no “ó” — era o mestre de obras encarregado de construir nossa casa. Bastava um atraso para meu pai, homem meticuloso e pouco afeito a procrastinações, recorrer à comparação.
Eu, ainda menino, imaginava que a tal Sé fosse uma construção fadada a jamais terminar.
E não era para menos.
A primeira matriz, iniciada em 1746, levou 49 anos para ficar pronta. Parecia até que alguém havia enterrado uma cabeça de tartaruga naquele terreno.
Em 1938, durante o episcopado de Dom Manoel da Silva Gomes, graves problemas estruturais condenaram a antiga Catedral à demolição. Em 15 de agosto de 1939, foi lançada a pedra fundamental do novo templo, projetado pelo engenheiro francês Georges Mounier, em estilo neogótico.
Tudo parecia encaminhado.
Só faltou combinar com Adolf Hitler.
Poucas semanas depois, a Segunda Guerra Mundial comprometeu o abastecimento de materiais. Terminada a guerra, veio a seca de 1947, agravando as dificuldades financeiras.
A Catedral permanecia inacabada, como um gigantesco esqueleto de concreto a desafiar a paciência dos fortalezenses.
Monsenhor José Quinderé tentou arrecadar contribuições mensais de um cruzeiro por morador. Em 1964, Dom José Medeiros de Delgado organizou uma comissão para impulsionar os trabalhos. Mas faltava dinheiro.
Até que, em 1969, surgiu a engenhosa Papeleta Amarela, permitindo contribuições voluntárias por meio da conta de energia elétrica.
Era a fé chegando junto com a conta de luz.
Com o apoio de autoridades, empresários e cidadãos, a construção finalmente avançou. Entre os colaboradores destacaram-se Adauto Bezerra, José Walter, Edson Queiroz, Francisco Philomeno Gomes, Genésio Bezerra, Ivan de Castro Alves e tantos outros cearenses.
Em 22 de dezembro de 1978, após 39 anos de esforços, Fortaleza finalmente inaugurava sua Catedral Metropolitana.
Mas o destino reservara à nossa família uma coincidência extraordinária.
Minha irmã Beatriz Helena iria se casar justamente naquele templo, no dia seguinte à inauguração.
Nossa casa vivia uma verdadeira operação de guerra. Meu pai supervisionava cada providência com seu habitual perfeccionismo, enquanto minha mãe, Dona Didy, administrava serenamente os preparativos.
Em 23 de dezembro de 1978, Beatriz Helena subiu ao altar da recém-inaugurada Catedral. Segundo a memória familiar, protagonizou o primeiro casamento ali realizado.
A recepção aconteceu nos jardins do antigo Palácio do Bispo, numa celebração inesquecível.
A mesma Sé que simbolizara, durante décadas, a morosidade das construções tornava-se cenário de uma das mais preciosas recordações de nossa família.
Quase 48 anos depois, Beatriz Helena e seu marido permanecem juntos, cercados pelos oito filhos e por uma descendência de netos que não para de crescer.
Hoje, ao contemplar as torres da Catedral, volto à infância e quase escuto meu pai reclamando com o pobre Chicó:
“Pô, Chicó! Essa obra tá pior do que a da Sé!”
Mal sabia ele que aquela construção interminável acabaria por eternizar um dos momentos mais felizes de nossa história.
A Catedral levou 39 anos para ficar pronta. O casamento de minha irmã aproxima-se dos 48.
E talvez aí resida a mais bela ironia dessa história:
Há obras que parecem levar uma eternidade para terminar. E há amores que, felizmente, foram feitos para durar.
Sérgio Jaborandy é Engenheiro, foi aluno do Colégio Militar de Fortaleza e Oficial da Marinha Mercante.







