A Cesare o que é de Cesare, por Catarina Rochamonte

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Catarina Rochamonte, articulista do Focus, é graduada em Filosofia pela UECE, Mestre em Filosofia pela UFRN e Doutora em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos (Ufscar).

Caso Cesare Battisti: a mentalidade revolucionária e o poder da mentira

Na época em que Tarso Genro era ministro da Justiça, ele instruiu o presidente Lula em relação ao caso Battisti, que teve provisório desfecho no último dia do seu segundo mandato, em dezembro de 2010. O militante do grupo terrorista italiano “Proletari Armati per il Comunismo”/PAC, julgado na forma da lei e condenado pela justiça de um país democrático à prisão perpétua por, dentre outros crimes, quatro assassinatos, pediu refúgio no Brasil alegando inocência e perseguição política; e o refúgio lhe foi concedido.
Anteriormente, porém, em 2007, durante os Jogos Pan-americanos, dois atletas cubanos tentaram refúgio no Brasil e a resposta do governo brasileiro foi mandar caçá-los, prendê-los e devolvê-los à ditadura da qual desejavam escapar. Entendo que prejudicar inocentes é um tanto pior do que salvar culpados, daí a gravidade e a covardia da ação do governo petista em relação aos boxeadores cubanos Erislander Lara e Guillermo Rigondeaux.
Nunca a esquerda brasileira mostrou-se incomodada com esse paradoxo que escancara a sua falência moral. Mas incomoda-se agora por ter sido desmascarada pelas confissões do seu terrorista de estimação sobre os crimes pelos quais ele está preso na Itália, chegando ao cúmulo de inventar teorias que confrontam a própria confissão do criminoso. Isso não causa estranheza, pois nossa esquerda, pouco afeita à verdade,    costuma sustentar até o limite do surreal e do risível as suas narrativas, mesmo quando confrontada com a realidade.
Já era esperado que expoentes petistas, a começar pelo próprio ex-ministro Tarso Genro e pelo ex-senador Eduardo Suplicy (que foi o mais ardoroso defensor de Battisti no Parlamento), se conjugassem na elaboração de uma “narrativa” substituta. Notem como convergem as suas declarações:
Tarso Genro: “Battisti pode estar fazendo uma confissão combinada com uma transação com o promotor. Só quem sabe disso é o próprio Battisti. A verdade, neste caso, será sempre uma verdade ficta”.
Eduardo Suplicy: “Eu ainda quero o desvendar da verdade inteira, o que significa saber qual foi o tipo de ameaça, de proposição feita a Battisti. Caso ele não fizesse essa confissão, o que aconteceria?”
Suplicy, como é do seu feitio, falou muito e, no seu estilo inocente, puro e besta revelou a extensão da sua credulidade para como o militante de um grupo terrorista extremamente violento. Cada um vai acreditar no que quiser, mas a narrativa em gestação é por demais manjada: delação premiada em busca de vantagens ou confissão falsa sob pressão; a mesma narrativa que vem sendo usada para escusar os corruptos petistas presos. No que pese a desconfiança dos ilustres petistas, as confissões de Battisti soam convincentes; bem mais do que a nova narrativa que a esquerda vai tentando colar.
Há uma anedota que se conta sobre Hegel: durante uma aula do ilustre filósofo alemão, um de seus alunos ousou questioná-lo: “Mestre, os fatos contradizem a sua teoria”. Resposta imediata de Hegel: “Tanto pior para os fatos”. Marx herdou muita coisa de Hegel, desde o raciocínio abstruso, pretensioso e grandiloquente até o espírito dessa anedota, que é a tendência quase natural de subjugar os fatos à sua teoria/narrativa.
Assim age a esquerda. Ao longo de quase dois séculos, a esquerda marxista e suas ramificações demonstrou o poder da mentira na construção de muitos regimes autoritários e totalitários. A séria questão a ser por nós enfrentada não é, pois, a mentira eventual de Battisti, agora desfeita por ele mesmo, mas a mentira permanente da esquerda herdada desde Marx, desde Lenin, desde Trotsky, desde Stalin, desde Gramsci, et caterva.
Outro ponto que merece atenção é a seguinte declaração dada por Cesare Battisti na sua confissão: “quando matei, foi uma guerra justa para mim.” As pessoas assassinadas pelos Proletários Armados pelo Comunismo não eram políticos nem tinham influência sobre grupos ou organizações; eram pessoas comuns. E mesmo que não fossem, os assassinatos seriam justificados? O que é a justiça para a mente de um revolucionário? Alcançar o bem-estar físico de determinado grupo de pessoas em troca do sangue jorrado de vidas inocentes?
Enquanto essa mentalidade prevalecer, enquanto alguém com um mínimo de bom senso ainda se deixar capturar por tais armadilhas teóricas e retóricas totalmente desprovidas de qualquer fundamentação moral, o problema político não estará reduzido a questões de gestão pública, eficiência técnica ou liberalismo econômico. Se entregarmos o poder político a pessoas com mentalidade beligerante, destrutiva, fanatizada e amoral seremos corresponsáveis pelo caos e teremos pecado por omissão.

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