A feira da ladra. Por Angela Barros Leal

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“Era tudo da minha tia!” cantarolava o velho vendedor, e eu quase acreditei até ouvir o final da quadrinha: “Que roubava de noite pra vender de dia!” Rimos juntos, eu e ele, cercados pelas velharias espalhadas no chão. Nenhum dos donos das vendas vizinhas fez caso. A piada devia ser mais velha do que a Sé de Braga, escutada há décadas, ou talvez séculos, quem sabe desde o nascimento da Feira chamada da Ladra, ao tempo em que itinerava de bairro em bairro até fixar raízes no fértil Campo de Santa Clara.

À minha frente, no final das sinuosas ladeiras empedradas, desdobrava-se o azul do rio Tejo, contido entre suas margens plácidas, de um azul tão suntuoso como poderia ter estado no dia em que partira, rumo às Índias, a frota de Pedro Álvares Cabral. Às minhas costas, ladeira acima, reluzia o domo do Panteão Nacional, construção iniciada no século XVI visando hospedar a Igreja de Santa Engrácia, propósito ao qual o edifício jamais serviria, amaldiçoado que havia sido por um cristão-novo vitimado por uma condenação injusta. Ou pelo menos é o que narram versões da história.

Entre o Tejo e o Panteão, estendidos ao ar livre nas calçadas estreitas, amontoados sobre precárias prateleiras, empilhados uns sobre os outros em uma confusão de formas, pesos e cores, estão expostas as heranças de séculos, os espólios de guerras públicas e privadas, os despojos filtrados pelo fino funil da passagem das eras. Roupas que foram usadas por vivos e mortos, medalhas bravamente vencidas, quadros e telas de gosto discutível, malas deixando à mostra as cicatrizes de incontáveis viagens, estátuas e estatuetas em bronze, madeira ou resina, tantas chaves, o acesso enferrujado de portas há muito fechadas, adereços femininos (e a curiosidade de saber que braços, mãos e colos adornaram).

E os tapetes de todo tamanho que, se levados a um especialista forense, contariam sombrias crônicas, e objetos como porta-bengalas, ferraduras, sinos e sinetas com ecos de torres e salões, conjuntos incompletos de louça e porcelana, jarros e vasos desbeiçados, fotografias avulsas de famílias extintas, brinquedos danificados, estolas de pele – como uma que vi, feita com quatro raposinhas completas, do focinho com olhos de vidro à cauda macia, e livros, livros e mais livros, em profusão: uma biblioteca de Alexandria ardendo nas calçadas sob o sol de um Outono que não esquecera ainda o Verão.

“Era tudo da minha tia!”, e ficava para trás o velho vendedor, distanciava-se o domo do Panteão enquanto eu buscava coisas de inútil beleza, objetos que não poderia deixar de ter, de trazer para casa, vindo junto com eles um pedaço do que era Portugal. Foi quando vi o caderno. Estava no chão, sobre a mesma manta onde a vendedora enfileirara azulejos velhos, que algum dia haviam embelezado as paredes frontais de uma casa, um porta-moedas niquelado, facas sem corte e sei lá mais o quê, pois eu via tão somente o caderno.

De capa dura, escura, do tamanho dos antigos cadernos de Contabilidade mantidos pelos escritórios e repartições públicas do século passado, quedava-se ele tão sisudo, desbotando sob o sol, a destoar dos demais objetos. Tantas eram as cartas, bilhetes e recortes colados ou incluídos no caderno que suas páginas se entreabriam, como as dobras de um fole destinado a avivar fogueiras, a animar o fogo de lareiras. Trazia uns poucos desenhos, entre eles o que representava o rosto da pessoa a quem ele pertencera: uma poetisa de aldeia, de breve fama local, e de quem não guardei o nome dito pela vendedora.

Há coisas sobre as quais “é uma inutilidade escrever”, como colocou Eça de Queiroz na voz de um de seus curiosos personagens, o poeta e bon-vivant Fradique Mendes, sob o risco de “produzir formas sem beleza”. E dentro dessas mesmas formas, advertia ele, “só cabe metade do que se queria exprimir, porque a outra metade não é redutível ao verbo”. Assim era o caderno: não redutível ao verbo, pelos mistérios e revelações que poderia conter entre suas páginas sanfonadas, pelas curiosidades que poderia trazer dos sonhos e ambições da esquecida poetisa.

Era entretanto quantificável: custava 50 euros, como informou a vendedora, naquela misteriosa avaliação feita através de um veloz cálculo mental entre o interesse de quem pergunta e a possibilidade de futuras ofertas. Cinquenta euros e talvez bem mais de 1k a adicionar à bagagem, quase fechada. Folheei o caderno, sopesei novamente sua firme consistência, e o depositei de volta sobre a manta, em local menos exposto ao sol. A vendedora, que estacionara seu carro de cigana à sombra de uma árvore de largo tronco, para proteger as portas traseiras onde conduzia seus produtos, empurrou o caderno com o pé, de volta ao lugar original.

Cinquenta euros, ela havia dito, e eu, curvando-me como em uma cena de filme em slow motion, devolvera ao chão um tesouro que não deixou ainda de me perturbar. Minha filha me tranquiliza: Esqueça, mãe. Era a vida daquela pessoa, podia trazer um carma negativo. Não sei. Lisboa, outubro de 2021, vai continuar sendo o ano em que perdi uma vida na Feira da Ladra.

Angela Barros Leal é jornalista e escritora

 

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