A grande irmandade; Por Angela Barros Leal

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Uma das minhas irmãs me telefona com um pedido. Quer que eu a auxilie a escrever a história dela, que considera importante para deixar como lembrança aos dois filhos e quatro netas. Não se trata, entretanto, de uma biografia a ser narrada desde o seu primeiro dia do nascimento, como de início pensei que fosse, a descrever fatos e acontecimentos presentes e impactantes no decorrer da sua vida.

Pelo que me explicou, queria produzir um livro, um livreto, um folheto que fosse – listando as doenças que sofrera ao longo dos anos, os medicamentos que tomara, os tratamentos que fizera, o que disseram os médicos que cuidaram dela, uma espécie de ficha médica a ser entregue aos descendentes, um aviso aos navegantes sobre onde evitar rochas, recifes e rochedos, onde se desviar das turbulências, onde antecipar correntes e marés.

O que você quer é uma ficha médica –, resumo ao telefone.

Pouco tempo atrás, ela passara por uma cirurgia altamente invasiva, tendo a cabeça aberta de uma orelha a outra, para a remoção de uma bomba-relógio que tiquetaqueava nas imediações do cérebro.

É um pouco isso também – ela trata de minimizar, como se a delicada cirurgia à qual se submetera, após a descoberta casual do problema (um “achado”, no dizer dos médicos), não tivesse passado de um pequeno lembrete sobre os cuidados a serem tomados com a vigilância da saúde.

O projeto dela é listar os desígnios genéticos despertados com o seu primeiro fôlego de oxigênio. Pelo que entendi da sua visão, nada mais somos além de meros biscoitos da sorte, aqueles que são quebrados depois de refeições supostamente chinesas, e trazemos no interior dos nossos sistemas operacionais uma série de mensagens cifradas, uma programação inata que o Tempo se encarregará de revelar.

O livreto seria uma peça capaz de facilitar, aos descendentes dela, as informações que vão precisar para responder às perguntas inevitáveis dos médicos em consultórios, e estimular a busca precoce, da parte de netos e bisnetos, por sintomas suspeitos de algumas das mazelas listadas nas páginas. Uma espécie de mapa para o caminhar saudável e seguro deles, de vida a dentro.

Debatemos a temática, ela no carro, a caminho do trabalho, eu em casa, diante do computador. E vamos alargando o escopo a ser abrangido pelo livreto. Aos poucos, o produto deixava de ser uma ação pessoal para se estabelecer como uma obra de família. Ou de famílias, pois precisaria incluir o desenho biológico também dos maridos e das esposas, dos genros e das noras, a mistura dos sangues de variada procedência.

Já é possível realizar o mapeamento genético –, lembro a ela, puxando da memória o pouco que sei sobre essa tecnologia, que descortina para nós um panorama provável de futuro. Uma espécie de astrologia dos genes, feita para antecipar os resultados da miscigenação celular resultante da união dos casais, e para apontar os percentuais de risco de determinados males, capazes de incidir sobre criaturas ainda a serem geradas.

Minha irmã me avisa que está chegando ao trabalho. Penso que a ideia dela a respeito do livreto vai sendo descartada. Antes que ela desligue, repito uma frase ouvida do obstetra em cujas mãos nasceu meu filho, e que pode dar fim às preocupações dela com o registro familiar das enfermidades em prol dos descendentes.

O médico me disse o óbvio: Somos todos irmãos em Adão e Eva – refletira ele, enquanto me tranquilizava em relação aos meus tensos informes sobre avós que sofreram disso, pais que penaram daquilo, tios que adoeceram daquilo-outro.

Seus pais biológicos, seus ascendentes, isso não é o mais relevante – ele explicara. Corremos riscos similares em relação à saúde tanto pela linha genética –, que não vou negar ser de fato uma espada de Dâmocles suspensa sobre nossas cabeças – mas também pelas condições ambientais que nos cercaram desde a concepção.

Pensando nisso, digo à minha irmã que temos aberto à nossa frente o campo vasto do inesperado, no qual se faz inútil qualquer registro, e a respeito do qual sabemos apenas que tudo irá desaguar no mesmo final. Caminhamos sobre o fino fio da navalha, e essa é a realidade que precisamos aceitar, filhos que somos de uma igual e única irmandade.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

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