A mídia tendenciosa e a democracia, por Raquel Machado

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Raquel Cavalcanti Ramos Machado é advogada, mestre em Direito pela UFC, doutora em Direito pela USP, professora de Direito Eleitoral e Direito Administrativo da UFC e Visiting Research Scholar da Wirtschaftsuniversität, Viena, Áustria. Escreve artigos para o Focus.jor.

Não só o Brasil, mas o mundo tem se polarizado politicamente. É normal (1) a saliência de ideias diante do ataque a valores que se considera relevantes, como se o indivíduo precisasse intensificar as próprias opiniões para não sucumbirem. Nesse espadachim ideológico, esquerda e direita se acirraram, e ao mesmo tempo em que se habilitam a agredir mais, parecem mais suscetíveis a ataques. 

Os governos eleitos nesse cenário, representantes geralmente de um dos polos ideológicos, sujeitam-se à observação dos jornalistas que em suas narrativas fazem relatos críticos ou elogiosos, dificilmente neutros. Assim como tem-se elevado a polarização ideológica, intensificou-se a qualificação da mídia como tendenciosa, na tentativa de desacreditá-la. 

Não discutirei a fundo aqui a veracidade do pensamento de que a mídia é tendenciosa. Deixarei isso para um outro texto, até porque a própria definição de tendenciosa pode ser, em si mesma, tendenciosa. Às vezes, precisamos acolher alguns argumentos para tensioná-los e testar se justificam a prática de determinadas atitudes, ou algumas conclusões racionais. 

Parto assim do pressuposto de que a mídia pode ser tendenciosa e tem sido tendenciosa. Contamos com canais de transmissão e com jornalistas que tendem a lados diversos, uns mais à direita, outros à esquerda e festejam o governo com elogios ou bombardeiam-no com ataques.

Ainda que assim seja, a mídia é essencial à democracia, e devemos defendê-la enquanto instituição mesmo quando discordamos da notícia que veicula ou da narrativa que desenvolve, principalmente no cenário contemporâneo de propagação das notícias anônimas pela internet e em que muitos indivíduos com pouco conhecimento sobre diversos temas, sem compromisso profissional, sentem-se especialistas, comportando-se como protagonistas na formação de opiniões.

As notícias propagadas anonimamente na internet merecem um destaque especial, porque é comum que, mesmo sendo falsas, passem a ser consagradas como verdade pelo alto compartilhamento alcançado, numa espécie de “prova”, por sinal irônica, de que a verdade não passa de um contrato de crenças e não algo em si mesma.

Lembremos que os jornalistas e os canais de comunicação têm nome, podem ser identificados e responsabilizados por eventuais danos causados. Além disso, podem ser atacados com palavras e ideias na construção do diálogo democrático, mesmo que seja apenas para deixar evidente os pensamentos adversários em jogo, recordando que, em civilizado jogo limpo, o adversário não deve ser tomado como inimigo.

Notícias anônimas não se sujeitam ao mesmo controle social. Abrir mão do jornalismo para simplesmente cair no vão do ambiente pantanoso de notícias compartilhadas em redes sociais é como se jogar em um buraco negro do desconhecimento. 

Mas não apenas. O juízo de que fora desse jornalismo há neutralidade e a revelação da verdade sem desvios é mera ilusão. Despreza-se não apenas a incapacidade absoluta de neutralidade na elaboração de relatos, mas principalmente despreza-se a força das bolhas digitais e do processamento de algoritmos (2). Mesmo aqueles que só leem reportagens de jornalistas presumivelmente isentos serão jogados em suas próprias bolhas ideológicas. A internet não apenas cria tribos, mas permite o rápido e agressivo ataque às tribos diversas, despertando alguns dos sentimentos humanos mais primitivos. 

Tendenciosa não é a mídia. Tendencioso é o humano, e mais ainda os programas digitais elaborados pelos humanos e que tanto guiam as ações contemporâneas sem que se perceba. Há os que buscam realizar uma reflexão crítica, ouvindo as várias narrativas sobre o mesmo fato, investigando atentamente. Existem inúmeros jornalistas com essa seriedade, assim como existem cidadãos. 

Desqualificar profissionais, que pelo próprio ambiente em que se inserem dispõem de meios para investigar fatos e acesso a fontes variadas, e dar esse poder a cada indivíduo, com base em compartilhamentos e curtidas na internet, é retirar da verdade qualquer necessidade de correspondência com a realidade e transformá-la em critério de alcance. Dado que as mentiras historicamente se propagam com mais velocidade, será fazer das mentiras verdades por mero consenso, fragilizando os critérios para as mais diversas escolhas sociais. É preciso conhecer fatos, ter um ambiente e um processo de análise estáveis e identificáveis para discuti-los. A internet é manuseada na velocidade dos instintos e não obrigatoriamente do pensar. A volatilidade de compartilhamentos feitos nesse ambiente certamente não é suficiente para guiar tomadas de decisão e debates profundos.  

A mídia, a de origem e assinatura conhecidas, mesmo quando está equivocada, é essencial a uma sociedade livre e plural, como um possível e permanente canal independente contra poderes estabelecidos, como voz estruturada para tratar de assuntos caros à sociedade, como posicionamento identificável no qual é possível estabelecer um ambiente construtivo, e não apenas uma arena para a contraposição de ideias. Atacá-la genericamente enfraquece não apenas os meios de comunicação classicamente instituídos e os jornalistas, mas debilita, na verdade, a própria liberdade de quem ataca e o pluralismo social e político, com nome e endereço responsáveis. 

Por irresponsável e covarde, nada é pior que o amadorismo e o anonimato, em especial na construção de coletivos.

1 Normal no sentido de que se compreende o fenômeno comportamental, apesar de entendê-lo como não salutar do ponto de vista cívico ou psicológico.
2  BARTLEY, Jamie. The people vs tech: how internet is killing democracy and how to save it, London: Ebury Press, 2019, versão Kindle, posição: 23% de leitura.

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