A teoria da acomodação; Por Angela Barros Leal

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Você olha o relógio na cabeceira da cama. Os ponteiros não se mostram com clareza a seus olhos enevoados de sono, embora tudo indique estarem próximo das 2 horas da madrugada. Se seus olhos não se enganam, como é possível estarem despertas as crianças cujos pés você escuta correndo, de um lado a outro, no apartamento acima do seu? 

Você se mexe na cama, de olhos fechados, e apura os ouvidos. O som dos pés é nítido. São pisadas infantis, rápidas, como se duas ou mais criancinhas estivessem apostando um campeonato entre elas. 

Espere. Agora, parece que as duas ou três delas resolveram jogar bila, o nome antigo do que hoje é chamado bola de gude. Você vira para o outro lado, inquieto. Acompanha o movimento deslizante, no chão, daquelas esferas miúdas, as mesmas com as quais você costumava brincar na infância, em especial nos dias de chuva, o calcanhar escavando buracos na terra.

As crianças do apartamento de cima parecem ser donas de um estoque inesgotável de bolinhas, que vem e vão durante um bom tempo, impedindo seu sono.  Mas você consegue abrir os olhos em expectativa, quando começa a escutar o toc-toc de saltos altos entrando no aposento acima.

Um adulto, finalmente, você pensa. Tudo indica ser a mãe, chegando de algum evento de madrugada a dentro, e que, antes mesmo de descalçar os sapatos, apressou-se a dar fim às brincadeiras dos filhos.

Mas, se é assim, por que a mãe continua a caminhar de uma ponta do quarto a outro, o toc-toc revelador traçando o percurso? Quem será essa mulher incansável, que pisoteia seu sagrado direito ao sono?

E agora, que você resolveu erguer-se a meio corpo, recostando-se na cabeceira da cama, você se pergunta qual seria a razão para essa dita criatura resolver arrastar móveis pesados, em plena madrugada?

Espere aí: você escuta, com total claridade, o ruído de móveis sendo empurrados… para onde? Para a porta do quarto, acima do seu? Será que a dona dos sapatos de salto alto, ainda não removidos dos pés, encontra-se barricando a entrada do quarto de dormir com algum gaveteiro de grande porte? Estará empurrando um conjunto de sofás? Um guarda-roupa repleto? 

Deu-se o silencia das crianças correndo. Calaram-se as bilas rolando, substituídas pelo toc-toc e pela estridência do mobiliário brutalmente arrastado contra o granito do piso. 

Alguns pensamentos odiosos perfuram sua cabeça. Interfonar para a mulher de salto alto e protestar, no mesmo diapasão, contra tamanha abundância de sons, em horário por demais inconveniente. Ou vestir alguma coisa por cima do pijama, da camisola, e se dirigir pessoalmente ao apartamento de cima, o indicador pressionando, furibundo, o botão do elevador, para exibir à dona da casa suas olheiras tresnoitadas, a angústia de uma noite insone.

Nada disso você faz. Até porque você sabe muito bem que o andar superior ao seu é ocupado por um casal de idade avançada, que costuma caminhar devagar no jardinzinho do prédio, ambos calçados com sapatos ortopédicos. Não têm filhos, não têm netos. 

Com a mente clareada pelo café da manhã, você desenvolve uma suposição puramente empírica: assim como acontecia com os antigos pisos de tábua corrida, a madeira costumeiramente estalando em acomodação durante a noite, os prédios novos têm seu sistema próprio de entendimento, de conformidade a ser estabelecida entre o concreto e o ferro, entre as pastilhas e o granito, entre o gesso e os tijolos. 

O processo criaria um sistema próprio de ruídos, como os que você escuta aqui, suspiros iguais aos que já escutara antes, em outros endereços: o mesmo patear de pés infantis. O rolar das bolas de gude. O toc-toc dos saltos. O empurrar de móveis.

A hipótese satisfaz você – até o momento de repartir o elevador com o seu vizinho de baixo: as olheiras dele, o olhar enviesado na sua direção, o rosto fechado – talvez você precise esclarecê-lo logo sobre sua teoria da acomodação.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

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