Alien: Romulus abraça o sadismo e a reflexão do ciberfuturismo para colocar a franquia nos trilhos

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Foto: Divulgação/Fox

Quando Ridley Scott lançou Alien: O Oitavo Passageiro em 1979, ele não imaginava que estava prestes a redefinir o universo da ficção científica. Em uma entrevista recente, o diretor revelou que a sua inspiração para essa narrativa surgiu após assistir Star Wars, de George Lucas, dois anos antes. Scott admitiu ter se sentido deprimido ao perceber que não sabia como mostrar o espaço de maneira tão bela.

Logo, o cineasta, que tinha 42 anos e apenas um filme em seu currículo, afastou o otimismo e as cores vibrantes de Guerra nas Estrelas para mergulhar em uma atmosfera mais sombria e realista, retratando proletariados envolvidos em uma missão que se desintegra à medida que um xenomorfo, encontrado acidentalmente em um planeta, elimina um a um. Nesse contexto, o androide infiltrado entre eles está mais ciente de sua missão, de levar a criatura para os chefões da corporação, do que os próprios humanos, que lutam apenas para sobreviver, sem perceber que a empresa para a qual trabalham é, na verdade, o verdadeiro antagonista. 

Alien: Romulus, continuação direta do original, torna explícito tudo o que anteriormente era subentendido e transforma temas anacrónicos da franquia em elementos centrais dessa nova aventura. Esta abordagem é surpreendente, considerando a tradição de consciência social presente no sangue latino-americano do diretor, um acerto que faltava na saga que existe há 45 anos. 

Dito isso, o cineasta uruguaio Fede Álvarez abandona o misticismo em torno dos heróis e os apresenta como semi-escravos desesperados para escapar da Weyland-Yutani, organização que serve de vilã em todos os filmes. Após alguns diálogos, os protagonistas utilizam o robô sintético de um deles para acessar o interior de uma nave abandonada no espaço, onde encontram um elemento crucial para sua fuga do planeta inóspito em que trabalham. No entanto, um incidente rapidamente se transforma em um pesadelo quando um facehugger agarra o rosto de um dos personagens, iniciando o ciclo do xenomorfo e da matança.

Nesse aspecto, o diretor demonstra maior competência na prática do que no texto. Após a introdução, o grupo enfrenta desafios típicos de um filme slasher, com um a um perecendo até que a “final girl” resolva o problema sozinha. Os momentos de tensão são eficazes, especialmente nas cenas em que atravessam a escuridão infestada de aliens ou enfrentam o sangue ácido das criaturas. Dito isso, o filme se destaca pela originalidade e pela sensação de renovação, algo raro em Hollywood, onde continuações são produzidas em série sem inovação significativa.

Foto: Divulgação/Fox

Romulus não apenas funciona nesse sentido, mas também na forma como sua iluminação claustrofóbica dialoga com o que preferimos não ver. Consequentemente, o diretor é bem-sucedido ao enfatizar o ataque fálico da criatura, seja nos fluidos ácidos ou na forma de seu corpo, para falar, mais uma vez e com um grau ainda maior de horror, da exploração capitalista sobre seus protagonistas que buscam uma vida mais digna. A presença de uma grávida no filme, que serve tanto como complicação para a heroína principal quanto como vítima favorita do monstro, exemplifica a ideia de que ninguém tem vez neste universo.

Além de tudo isso, Álvarez aborda uma polêmica cada vez mais relevante no mundo artístico: enquanto usamos a inteligência artificial, corretores automáticos e uma série de artifícios ciberfuturistas em nossa rotina, ainda há uma certa relutância em exibir personagens inteiramente digitais em produtos audiovisuais. Alien, sempre à frente de seu tempo, recria um digitalmente com a voz e o corpo de um ator falecido, gerando uma grande controvérsia sobre o uso ético dessa tecnologia. A franquia sempre pontuou temas sobre os horrores do ciberfuturismo, mas Romulus transforma isso em uma possibilidade ainda mais enriquecedora de tratar suas análises.

É uma homenagem ao filme original de Scott, ao mesmo tempo em que dá um sentido à jornada daquele rosto. O personagem atua como um dos vilões do longa-metragem, rivalizando ou até superando a vilania que o ator dono da face, o Ian Holm, no caso, explorou no filme da década de 1970. No meio dessa discussão, Álvarez ignora as críticas sobre o que é e o que não é ético e conta sua história da melhor forma possível, usando a mesma tecnologia que é alvo de tantos ataques na saga (e no mundo real).

Utilizar computação gráfica, um banco de dados de semblantes e a assinatura de familiares para manter as pessoas em um ciclo perpétuo de trabalho não poderia ser uma representação mais óbvia dessa crença criticada. É a metalinguagem usada para fortalecer o questionamento que o roteiro persiste: “perderemos o nosso trabalho no futuro para as máquinas?”. Como um exercício de sadismo e desesperança, Alien: Romulus sabe confundir o catastrofismo de tais questionamentos com um final otimista.

Quantos diretores contemporâneos são tão astutos quanto Álvarez?

Por fim, Romulus é um filme que veio para ficar: conta uma história de maneira acertada tanto para os fãs mais antigos quanto para os novos espectadores, trazendo uma discussão política rara em blockbusters norte-americanos e provando, como observou o crítico e diretor de cinema francês, Eric Rohmer, que cada filme é um documento da época em que é lançado. 45 anos após o filme original, o que mudou desde então?

Confira um pouco mais sobre o filme no Cine Amora:

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