Civilização e trocas, por Rui Martinho

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Trocas são essenciais à civilização. Não há sociedade sem interação. A linguagem está na base do fenômeno social. É meio de troca de informações e expressão de sentimentos. Claude Levi-Strauss (1908 – 2009), na obra “Estruturas elementares de parentesco”, menciona o interdito do incesto, a exogamia e a troca de mulheres com intercâmbio cultural situando no âmago do processo civilizatório. Existem trocas específicas e inespecíficas. A especificidade consiste em explicitar a contribuição de cada parte. São inespecíficas aquelas cuja obrigação das partes não é declarada, mas existe.

Trocas inespecíficas funcionam em comunidades simples, culturalmente homogêneas, em que as partes têm entendimento semelhante a respeito dos valores envolvidos. A confiança e o conhecimento pessoal entre os sujeitos são necessários. O potencial de conflito cresce com a insatisfação resultante da valoração desigual de cada lado do que entrega e recebe. A recompensa, inclusive como prazer, é fator importante na conduta social, nos termos da psicanálise. As relações parentais verticais descendentes são exceção. Dádivas aparentes são trocas inespecíficas. Mas até os pais querem dos filhos respeito e acatamento. Gratidão é obrigação moral de reciprocidade nas trocas sob aparência de dádivas.

Não há sociedade sem troca. A recompensa está presente nas relações humanas. Aristóteles (384a.C. – 322a.C.) era cético em relação a república. Considerava que esta espera que os cidadãos contribuam para o interesse social desinteressadamente. Preferia a monarquia por entender que esta recompensa com honraria aos que servem à sociedade. Os resíduos e derivações de Vilfredo Pareto (1848 – 1923) influenciam a elaboração do pensamento sobre as trocas. A necessidade de manifestar sentimentos é um dos resíduos mencionados. Satanizar a busca de recompensa é uma manifestação de sentimentos generosos, um tipo de resíduo de Pareto, relacionadas com as emoções, podendo ser a escolha racional de aparentar virtude, nos termos de Nicolau Maquiavel (1469 – 1527).

Resíduos relacionados com a sociabilidade, a integridade do indivíduo e até motivações sexuais podem contribuir para o repúdio às recompensas. Quem não se submete aos paradigmas hegemônicos pode encontrar todas as portas fechadas e ter a segurança pessoal ameaçada. A continuidade de agregados (conjunto de ideias) paretiano presente na crença de uma sociedade sem recompensa é a persistência do pensamento confessional da Idade Média. Presenciei pessoas cultas, detentoras de muitas informações e inteligentes dizerem: “o problema do Brasil é o lucro”, embora os tigres asiáticos tenham adotado a busca do lucro com sucesso, estimulando o desenvolvimento da produtividade e reduzindo custos, criando o consumo popular de bens outrora havidos como luxo.

Não mencionada por Pareto, mas por Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 – 1900), é a vontade de potência. O altruísmo legitima a reivindicação de poder baseada no paredão, arquipélago Gulag ou na catequese. A exclusão do lucro seria a estrada da igualdade. A cegueira dos paradigmas (Thomas Samuel Kuhn, 1922 – 1996) permite pensar que os últimos cem anos de concentração de renda aumentaram a pobreza, embora a mortalidade infantil e a esperança de vida; o analfabetismo e a escolaridade média; o acesso aos bens como eletrodomésticos e veículos tenham melhorado. Resta o argumento da amargura, ou infelicidade, que é induzida pelos formadores de opinião (Theodore Dalrymple, 1949 – vivo), contrariando os indicadores objetivos.

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