Dólar fecha em baixa de 0,08%, a R$ 5,1404, na contramão da tendência global

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Foto: Freepik.

Equipe Focus
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A onda de valorização global da moeda norte-americana, em meio a um forte movimento de liquidação de ativos de risco, não se traduziu em corrida pelo dólar no mercado doméstico de câmbio, como se podia esperar.

Segundo operadores, o tom positivo da bolsa brasileira, em um possível movimento de rotação de carteiras, e a valorização de algumas commodities agrícolas deram certo suporte a moeda brasileira. Houve também relatos de redução de posições defensivas no mercado futuro e de entrada de exportadores, especialmente pela manhã.

O dólar até abriu em alta e chegou a tocar no patamar de R$ 5,20 nos primeiros negócios, ao atingir máxima a R$ 5,2096. Mas perdeu fôlego logo em seguida e desceu até a mínima de R$ 5,1073. Mesmo com as bolsas em Nova York tendo amargado perdas superiores a 1% em certos momentos e a moeda americana batendo máximas contra o euro, o dólar não foi capaz de apresentar um desempenho robusto por aqui.

Alternando entre ligeiras altas e baixas na última hora da sessão, no fim do dia a moeda era cotada a R$ 5,1405, em queda de 0,08%. Na semana, a divisa acumula valorização de 1,28%, o que leva os ganhos em maio para 4%. Em 2022, o dólar apresenta perda de 7,81%.

“O dólar trabalhou em queda à tarde muito por conta da alta do Ibovespa. Vimos balanços do setor financeiro bem positivos”, afirma o head de câmbio da SVN, Renan Mazzo, ressaltando que a moeda americana já acumula uma alta forte frente ao real.

Entre as demais divisas emergentes, apenas o peso mexicano mostrou fôlego similar ao do real, na esteira da decisão do Banco Central do México de elevar a taxa de juros em 0,50 ponto porcentual, para 7% ao ano. As maiores perdas ficaram para as moedas do leste europeu, como florim húngaro e o zloty polonês, em razão do recrudescimento das tensões geopolíticas na região. Os atritos entre Rússia e Ocidente se agravam com a perspectiva de que Finlândia e Suécia aderirem à Otan.

O índice DXY – que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis divisas fortes – chegou a subir mais de 1% e registrar máxima aos 104,925 pontos, graças sobretudo ao tombo do euro. Isso a despeito de declarações mais duras dirigentes do Banco Central Europeu (BCE). As taxas dos Treasuries caíram em bloco, com a T-note de 10 anos trabalhando na faixa de 2,80%, em claro sintoma de fuga para a qualidade.

A aversão ao risco e a volatilidade extremada dos mercados tem como pano de fundo a possibilidade de perda de fôlego da economia global em meio a aperto monetário nos países desenvolvidos, sobretudo nos EUA, para conter a inflação. Nos Estados Unidos, o índice de preços ao produtor (PPI) em abril, divulgado pela manhã, veio em linha com as expectativas, mas o resultado de março foi revisado para cima, de 1,4% para 1,6%. Na comparação anual, o PPI subiu 11%, um nível muito elevado. Embora haja a leitura de que a inflação nos EUA possa ter atingido seu pico, é dado como certo que o Federal Reserve terá que promover altas consecutivas da taxa de juros e até mesmo levar a política monetária a campo restritivo.

Após alívio com redução expressiva de casos de covid na China na quarta, voltaram à baila nesta quinta temores de que desaceleração mais acentuada da economia chinesa, em meio à política covid-zero que sustenta medidas restritivas em Xangai. Foram reportados dois novos casos de covid fora do centro de isolamento administrado pelo governo chinês.

O economista-chefe do Banco Original, Marco Caruso, não vê um gatilho específico para o movimento mais forte de fuga do risco nesta quinta, argumentando que não houve fatos novos. “O impacto do lockdown na China, a alta de juros nos Estados Unidos e essa questão mais cedo de Finlândia e Suécia na Otan não são uma surpresa”, afirma.

Apesar de o real tenha se portado bem nesta quinta, Caruso vê um cenário de alta do dólar por aqui nos próximos meses e taxa de câmbio a R$ 5,50 no fim do ano, embora diga estar um pouco menos “confortável” com essa previsão. Três são os propulsores do dólar, segundo Caruso. O primeiro, e mais relevante, é a alta de juros nos Estados Unidos. O economista do Original ressalta que, para segurar a inflação, a taxa americana deveria ir para cerca de 4% ou 4,5%, bem acima do nível neutro. Também joga contra a moeda brasileira a possibilidade de uma acomodação dos preços das commodities (que dispararam com a guerra na Ucrânia), com a desaceleração da economia global e menos demanda chinesa. E o terceiro fator, de menor impacto, são as eleições presidenciais, que podem provocar turbulências e aumentar o risco-país.

“Meu conforto com essa previsão de R$ 5,50 diminuiu porque o Fed, após a fala de Powell (Jerome Powell, presidente do BC americano) descartando alta de 75 pontos-base, pode fazer um ajuste mais lento da política monetária para não descarrilar os mercados”, diz Caruso, acrescentando que certos gargalos de oferta fazem com que a acomodação dos preços das commodities seja mais lenta.

Por ora, Caruso argumenta que a taxa de juros doméstica elevada ainda dá certa sustentação ao real, ao tornar muito custoso o carregamento de posições compradas em dólar. Além disso, caso o Fed opte por seguir com altas de 50 pontos-base da taxa básica americana, o diferencial de juros local e externo vai se estreitar mais devagar. O economista trabalha com fim do ciclo do aperto monetário por aqui em junho, com uma alta da Selic em 0,50 ponto porcentual, para 13,25%. “O Copom deve dizer que quer tecnicamente parar para olhar o impacto do aperto na inflação. O juro deve ficar nesse patamar por um bom tempo”, afirma.

Agência Estado

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