Engajamento, isenção e honestidade. Por Rui Martinho

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Engajados, por vezes, referem-se pejorativamente aos não ativistas como “isentões”, pessimistas, derrotistas ou coisa pior. Analistas algumas vezes reagem qualificando os torcedores como facciosos ou ingênuos. A palavra honestidade tem sido esquecida. Não se faz política sem engajamento, ativismo, torcida e otimismo. Não devemos desqualificar o que é necessário à prática política democrática. Por outro, a boa política não pode prescindir de lucidez, realismo ou reconhecimento dos fatos. Torcedores e analistas devem respeitar os limites da honestidade.

Um certo exagero, em propaganda comercial, é tolerado. Dizer que um produto é o melhor do mundo em sua categoria é quase sempre inverdade. Mas não configura propaganda enganosa. É adjetivação hiperbólica. Atribuir qualidades objetivas a um produto, como dizer que um carro pode rodar quarenta quilômetros com um litro de combustível, porém, é mentira, é propaganda enganosa. Ativistas podem desfrutar do privilégio da adjetivação hiperbólica. Analistas não gozam de tal licença. A propaganda mentirosa pode se voltar contra quem a faz, como um bumerangue.

Os argentinos diziam ter destruído um porta-aviões britânico e infligido outras baixas severas ao inimigo. Isso gerou entusiasmo e expectativa de vitória que se transformou em decepção e revolta quando desfeita pelos fatos, ocasionando a queda do regime militar argentino. A propaganda inglesa não admitia imediatamente as perdas de navios, mas dizia que eles haviam sido avariados e estavam sendo reparados. Depois acrescentavam que os danos eram mais graves do inicialmente se pensava. Por fim admitiam a perda, depois de preparar a opinião pública para o choque, omitindo uma parte da realidade, mas sem mentir de forma grosseira.

Outro aspecto esquecido, nos debates políticos é a má qualidade da propaganda e das análises que se indiferenciam de manipulação. Analistas são necessários para alertar os ativistas que deixam de enxergar a realidade e contribuem para a credibilidade das ideias e programas no debate eleitoral. Dizer, como o prócer nazista, que uma mentira repetida mil vezes se torna verdade (Paul Joseph Goebbels, 1897 – 1945) é um erro grosseiro. Mentiras jamais se tornam verdades. Podem adquirir credibilidade, tornando-se convicção para muitos, mas não passarão jamais de ilusão, como a propagada do Terceiro Reich.

Vivemos dificuldades econômicas ligadas ao grande problema sanitário. Problemas políticos agravam tais dificuldades. Tivemos crises vindas de fora desde 1898, passando por 1929 e tantas outras, como as provocadas pelas duas guerras mundiais, até a de 2008 e a atual. Em todas elas, porém, tivemos – e temos – fatores internos que agravam a contaminação da nossa economia pela crise mundial. Temos problemas logísticos que estão sendo bem administrados, o manicômio tributário que não tem solução previsível, a vinculação quase total do orçamento a finalidades outras que não investimento produtivo e a ingovernabilidade causada por cerca de trinta partidos no “parlaprismo” da CF/88, que transformou o STF em um Frankenstein (romance de Mary W. Shelley, 1797 – 1851), omnipotente e arbitrário, que destrói a segurança jurídica. Os defeitos do Executivo se agravam com a ingovernabilidade. Eric Hobsbawm (1917 – 2012), comentando os problemas do leste europeu após a queda do comunismo, disse que o pior dos governos é melhor que a falta de governo. A ingovernabilidade é o pior dos mundos. Sobram torcedores, faltam analistas que indiquem de caminhos edificantes.

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