
Átila Varela
atila@focuspoder.com.br
A economia pós-pandemia não será a mesma. Mesmo com as medidas encabeçadas pelo Governo surtindo efeito, ainda há um longo caminho a ser percorrido. A atividade econômica, que seguia de maneira trôpega, foi à lona por causa do novo coronavírus. A recuperação, no entanto, está prevista para daqui a dois anos.
A análise é de Carlos Kawall, atual diretor da ASA Bank e ex-secretário do Tesouro Nacional (2006), em entrevista ao Focus. O executivo inclusive participa amanhã, 23, de uma live realizada pelo Ibef Ceará, às 11 horas. Debaterá o tema “Perspectivas para o cenário brasileiro em tempos de COVID-19”.
Confira abaixo a entrevista:
Focus – Qual o impacto da crise para a economia do País?
É devastador. Não há palavras. Uma verdadeira tragédia, não só do ponto de vista sanitário. Em alguns meses, talvez, a pandemia esteja sob controle. Os efeitos econômicos são muito agudos. Estamos falando de uma queda de PIB de 6%. O desemprego, a duras penas, havia caído de 13 milhões para 11 milhões. Agora vai bater de 15 milhões.
Vamos ter em 2020 a maior queda de PIB de toda a história. Essa crise afeta, evidentemente, de uma maneira desigual os setores da economia, sobretudo micro e pequenas (empresa) notadamente do setor de serviços. O pequeno tem menos fôlego financeiro, menos acesso ao crédito e linhas emergenciais. Ele acaba sendo forçado a lançar mão da demissão.
Quando, de fato, sairemos desse atoleiro?
Carlos Kawall – Você não recupera essa perda do início do ano (2020) mesmo ao longo de 2021. Isso vai demorar uns dois anos para voltar a ter o PIB de 2019. Vamos crescer nesse ano, em 2021 e 2022. E para recuperar essa perda, como é muito profunda, vamos demorar uns dois anos. Por que é tão difícil recuperar? De um dia para o outro, tivemos greve dos caminhoneiros. Depois, tudo voltou a normalidade e as pessoas não mudaram o padrão de consumo. Não houve nenhum efeito que mudasse a vida das pessoas.
À medida que se perde o emprego e perdas econômicas expressivas, as pessoas não vão sair como antes. Não terão mais a mesma renda. Estão receosas. Em 2008, levamos um tombo, mas a recuperação foi igualmente rápida. Agora, teremos de uma queda abruta e recuperação lenta.
Focus – O que pode ser feito para mitigar mais perdas?
Kawall – O Governo entrou um pouco atrasado, poderia ter agido com antecipação. As medidas foram na direção correta. Você tem que fazer o dinheiro chegar o mais rápido para quem precisa. Duas prioridades: atender as pessoas que não tem acesso à rede de proteção social, seguro desemprego, o BPC, o Bolsa Família ou aposentadoria. Precisa de um benefício extraordinário que pega, inclusive, o informal. Basta ter um CPF. Temos vantagens no Brasil, como por exemplo, esse modelo da Caixa com agilidade em receber. São coisas que em outros países não existe. O negócio que foi decidido há um mês atrás (auxílio emergencial) e que está começando a fluir.
Na área de crédito, houve várias medidas de liberar compulsórios, requisitos de capital. Está se discutindo medidas mais setoriais, apoio ao setor elétrico, aéreo, setor automotivo.
Focus – Acredito que os bancos ainda estão insensíveis com o atual momento, especialmente com os pequenos…
Kawall – A ideia de que haverá crédito barato no sistema bancário para a pequena e microempresa não vai acontecer. Não é assim que funciona. O crédito é uma relação bilateral, tem que tomar emprestado e o outro querer empresar. O risco é elevado. Existe um racionamento de crédito.
Eu acredito que as medidas estão indo na direção certa, mas acontece que é sempre uma relação bilateral. O que o Governo fez, no início, de reduzir o recolhimento do imposto teve efeito imediato. O crédito, no entanto, vai ser difícil mesmo. Quem tem boa capacidade financeira, vai conseguir superar. Não é um problema só do Brasil. É um problema global.
Focus – Qual a opinião do senhor sobre o afrouxamento do isolamento social e abrir de maneira gradual a economia?
Kawall – Somos bombardeados por coisas que vão para um lado e outro. Por um tempo devia acontecer o isolamento social. Mas é preciso ver com as autoridades sanitárias. Todo mundo sai de casa? Todo mundo fica em casa e não sai mais? É preciso analisar. Ficar de olho nos casos da COVID-19 e nos óbitos. Tem de haver uma melhor avaliação sobre isso. É uma situação dramática, seletiva e de priorizações. Vamos ver.






