Espiões entre nós. Por Angela Barros Leal

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Com o mais puro espírito de franqueza e honestidade, deixo um aviso a você, caro leitor, cara leitora: não confie em quem escreve. 

Detalho melhor: não confie em quem precisa produzir, com regularidade e em curto prazo, um determinado texto a ser levado ao conhecimento público, seja esse dito texto reportagem, livro, artigo ou crônica. Os mais distraídos ou mais inocentes, os que facilitam tal contato, correm o sério risco de serem surpreendidos com suas vidas, ou trechos dela, inadvertidamente expostos à luminosidade do sol. 

Um simples encontro, uma breve conversa, um diálogo fugidio, uma fala solta à toa próxima aos ouvidos de quem escreve, pode ser o suficiente para a produção de uma peça benéfica ou incriminatória, sabe-se lá, veiculada na permanência certa do velho papel, de alcance limitado, ou piscando na indiscrição universal e brevidade eterna das telas, grandes e pequenas.

Sejamos mais claros. Você encontra para almoçar, digamos, com Aquele-que-Escreve. Acima dos pratos da refeição, entre uma garfada e outra, entre um gole e outro, antes ou depois da sobremesa, você comenta algo que julga irrelevante, ou apresenta um pensamento próprio, original, ou, pior ainda, em sua própria pessoa existe algo que atrai o interesse de seu companheiro de repasto – isso mesmo, Daquele-que-Escreve. 

Prepare-se para no outro dia, ou dias depois, encontrar exposto aos leitores exatamente o referido fato, ou algo que orbite em torno dele.

Mas esse sou eu, você se reconhece na leitura, espantado. Mas fui eu quem falou isso, naquele dia, naquela hora, você se admira, estranhamente dividido entre a mágoa da traição e um inesperado sentimento de vaidade.

E nesse momento você percebe ter sido canibalizado por Aquele-que-Escreve, ter sido vítima de um par de olhos que você achava conhecer, que acendem e se dissimulam, movidos a interesses outros, ter servido de pasto a um par de ouvidos insaciáveis, ter se entregue a observações fingidamente amigas, na verdade sedentas de revelações com as quais pudesse alimentar mais uma lauda, agregar um certo número de palavras, completar mais uns tantos caracteres, e assim dar por findo mais um dia de trabalho.

A vida (inclusive a sua própria, que lê isso agora) é o material de trabalho dele, a ser convertido em frases e palavras. Tudo o que acontece no entorno Daquele-que-Escreve pode ser pretexto (pré-texto) para a constante captação de dados, servindo como ponto de partida ou pano de fundo para mais uma peça escrita.

Caso você sofra a infelicidade de ser apresentado Àquele-que-Escreve, grave bem o rosto à sua frente e fuja dele assim que puder, com todas as suas forças. Se você avistar Aquele-que-Escreve passando na rua, refugie-se na outra calçada. Se o destino condenar você a repartir o mesmo espaço fechado com Aquele-que-Escreve, implore ao Rei Salomão que lance seu véu protetor, seu manto de invisibilidade, protegendo você da triste sina de ser visto ou ouvido por Aquele-que-Escreve.

Revelo quem de fato ele é: trata-se de um espião. De um espia. Um espreitador. De um espírito sorrateiro e dissimulado. De alguém que se vale de artifícios simples, de perguntas banais, de interesses verdadeiros ou falso, para ouvir você e verrumar a sua inocência, para esquadrinhar, dissecar, furtar e exibir ao mundo a complexidade ou fraquezas da sua alma. 

Aquele-que-Escreve é alguém que coroou a si mesmo com esse direito, que se equipou com antenas giratórias virtuais, incansáveis, online as 24 horas do dia, alguém que desenvolveu uma miríade de pequenos truques para fazer você se manifestar, se revelar e, bem mais tarde, materializar tais manifestações e revelações sobre você.

É alguém perigoso, notifico, alguém que vive de investigar e descobrir invisíveis relações entre fatos aleatórios, que dorme e acorda preocupado em unir os pontos das pequenas coisas, a qualquer preço, e a partir daí arquitetar as melhores condições para construir um montículo, um monte, um morro, uma montanha, uma cordilheira de revelações visionárias e encantatórias, edificadas para matar a sede de informações que aflige a outras tantas criaturas – tão igualmente curiosas quanto você mesmo, que está lendo isso agora.

 

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