Folhetim de Santa Ozita – A curandeira que desafiou o governo do Ceará. Capítulo 3/7. Por Angela Barros Leal

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Ozita encontra seu algoz

Em Fortaleza, como em todas as cidades onde atuaram, o modus operandi das curandeiras Jael, Ozita e Ariete se mantinha imutável, aperfeiçoando-se a duras penas em cada escala. Ozita, a mais qualificada, beneficiava-se do conhecimento que a mãe, Madame Jael, conquistara no enfrentamento diário ao poderio dos homens, e chegara à capital cearense trazendo na bagagem o instinto de sobrevivência, a inata inteligência (ou esperteza, como preferiam alguns), e a necessária assessoria jurídica.

Por um lado, poderia haver cobertura constitucional para o que elas faziam, caso fosse de fato relacionado a práticas da doutrina espírita. O Art. 208 do Código Penal brasileiro considerava crime “escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso”. Tanto assim que, ainda em 1947, no Recife, o advogado Agesislau Pinheiro conseguira impetrar um mandado de segurança contra a suspensão definitiva das atividades de Jael, como demandava o Estado.

Por outro lado, a linha de atuação de Ozita Paiva poderia ser tipificada em normas do Capítulo III do Código Penal, dedicado aos Crimes contra a Saúde Pública, que previa punições a quem causasse epidemia mediante a propagação de germes patogênicos (Art.267); infringisse determinação do poder público destinada a impedir introdução ou propagação de doença contagiosa (Art.268); exercesse, ainda que gratuitamente, as profissões de médico, dentista ou farmacêutico, em especial com fins de lucro (Art.282); e aos que lidassem com charlatanismo (Art.283) ou curandeirismo (Art.284).

Para contornar os ditames legais Ozita valeu-se da experiência materna. Não cobrava as consultas: apenas aceitava donativos feitos a título de agradecimento. Não punha em risco a saúde pública: dedicava apenas um dia da semana, quinta-feira, para receber o público. Não prescrevia ou ministrava qualquer substância: ao contrário, expunha um pedaço de papelão ou tabuleta em local visível, com mensagem pedindo aos pacientes que evitassem medicamentos. E não dirigia a eles “gestos, palavras, ou quaisquer outros meios de curandeirismo” (Art.284-II), realizando seus prodígios tão somente através do olhar.

Uma nova modalidade de cura que Madame Jael, com seu inabalável senso de mercado, denominara “aplicação de olhares mediúnicos”. Não havia lei alguma proibindo isso.

A partir de maio Ozita encontrava-se instalada no número 42 da rua principal do bairro do São João do Tauape, zona Sul de Fortaleza, em uma casinha simpática com telhado de duas águas, varanda emoldurada por um arco, modesta janela de madeira abrindo para a paisagem de novas multidões trazendo as mesmas doenças, as mesmas esperanças.

Antes de Ozita a animação do bairro durante a semana se restringia aos dias de quermesse. Depois de Ozita, o panorama das quintas-feiras era o de uma dezena, uma centena de quermesses juntas, agitado pelo comércio informal de café, dos roletes de cana em tabuleiro, dos bolos e doces caseiros, refrescos, guloseimas e até cachorro quente.

Desde antes do nascer do sol já se formava o quadro vivo da espera. Já chegavam os carros de aluguel conduzindo os clientes de maiores posses, já estacionavam os ônibus carregados de sofredores, saídos na véspera do interior, já se enfileiravam as carroças carregando os mais miseráveis, incapazes de caminhar, já se ouvia o arrastado de pés dos cegos e o bater dos cajados e das muletas dos estropiados, o choro dos que sentiam dor, o padecimento dos incuráveis, a procissão interminável do sofrimento humano.

Ozita, a Santa, curava, juravam os que tinham ouvido a história do professor de música quase cego, que agora lia as partituras sem dificuldade; o relato do jovem que, há quatro anos diagnosticado com reumatismo poliarticular, dispensara as muletas; a triste narrativa da criança de pés e mãos deformados que vira sossegar suas dores excruciantes.

Os círculos do Inferno de Dante se revezavam entre 7h e 17h das quintas-feiras nas ruas e calçadas do São João do Tauape, e foi esse o panorama com que se deparou o repórter Luciano Carneiro na manhã do dia 19 de janeiro de 1949, quando foi cobrir, a mando do jornal vespertino Correio do Ceará, integrante da rede Diários Associados, os milagres de Santa Ozita em Fortaleza.

Aos 23 anos, Luciano já se fizera reconhecido no jornalismo investigativo cearense. Iniciara como repórter esportivo aos 17, no referido jornal, noticiando os embates entre os times do Maguary, Ceará, Luso, Ferroviário, Fortaleza, aprimorando seu texto escorreito e investindo em informações precisas. Daí passara a locutor da PRE-9, redator fotográfico do associado Unitário, correspondente da Agência Meridional e da prestigiada revista O Cruzeiro, reconhecido como profissional completo e destemido, capaz de pilotar um avião, saltar de paraquedas, enfrentar com “entusiasmo irradiante” qualquer tipo de cobertura, fosse ela a Guerra da Coreia, em 1951 – ou os fenômenos provocados pelos olhos mediúnicos de Ozita, naquele ano de 1949.

(Continua)

 

Angela Barros Leal é jornalista e escritora.

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