Games of 5G, por Fernando Barbalho

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Fernando Barbalho é Auditor Federal de Finanças e Controle da Secretaria do Tesouro Nacional. É formado em Administração pela Universidade de Boa Viagem (PE), com Mestrado e Doutorado pela UNB. E cearense.

Por Fernando Barbalho
No final, tudo acabou sendo surpreendentemente fácil e se resolveu ao cabo do penúltimo episódio da série. A introdução da artilharia aérea no campo de batalha de uma forma criminosa, eliminando qualquer rastro de regra do jogo sobre guerra, levou a uma vantagem competitiva tão grande que o exército vencedor praticamente não precisou usar sua infantaria e sua cavalaria.
A rainha má perdeu, e a outra, que até a batalha anterior contra outros inimigos não possuía rastros de maldade, sagrou-se vitoriosa. No que veio a ser uma vitória de Pirro. Mas isso aí é uma outra história.
A história que se quer contar aqui envolve mudança de regras de jogo, vantagem comparativa, uma potência que ao longo do longo século XX se consolidou como o principal player do sistema mundo e uma outra ligada a dragões e que a uma grande velocidade vem se levantando de seu sono milenar.
Ou seja, é um excelente enredo de série que tem tudo para fazer tanto sucesso ou levantar tantas críticas quanto essa do parágrafo anterior. As intrigas que nos avizinha, desta vez na vida real, vão fazer de GoT um ingênuo romance de José de Alencar.
O New Yorker já traz alguns dos primeiros spoillers da série de guerra 5G. O artigo The Terrifying Potential of the 5G Network nos diz que por conta do avanço sobre velocidade e latência, se você quiser acreditar no hype, em breve todos os sonhos de Internet das Coisas vão estar disponíveis. O texto sugere que tostadeiras vão se comunicar com coleiras de cachorro. Bem, eu não sei qual a utilidade disso.
Eu prefiro que minha geladeira avise à do depósito de bebidas ao lado o momento crítico em que a cerveja está acabando, mas cada um tem suas prioridades.
Para além das delícias, o texto do New Yorker (sempre preferi ao NYT) aponta para as dores. Está lá escrito: extrema amplificação das possibilidades de vigilância, ampliação de desastres causados por cyberattacks e o que incomoda muito os poderosos do império dos irmãos do Norte, a ampla vantagem dos chineses nessa nova tecnologia, o que está deixando o governo de lá com os nervos à flor da pele.
As regras do jogo das telecomunicações estavam até agora aderentes ao espírito do laissez-faire. Uma das consequência disso foi que os chineses através da Huawei conseguiram uma importante capilaridade em todo o mundo, tem seus equipamentos utilizados por uma das gigantes das telecomunicações dos EUA em operações no Mëxico, e vejam só, eles estão na ponta da nova tecnologia 5G.
As coisas estão por vir, mas o susto dessa movimentação está fazendo Trump e sua turma agirem. E, pasmem, houve até rumores de nacionalização do 5G, mandando às favas todo o discurso que vinham apregoando ao longo de décadas. Além disso, há alertas para o risco de um Estado como a China ser agente ainda mais ativo no sistema de vigilância mundial.
Esses temores dos EUA parecem uma doce vingança contra quem sempre teve total controle sobre as possibilidades da internet, inclusive de vigilância, e imposição mercadológica. Talvez seja até por isso que há nem todos os aliados costumeiros aderiram aos apelos dos EUA de tirar espaço da Huawei. Depois de tanto escândalo de espionagem vazado pelo wikileaks não são todos que irão acreditar nos bons propósitos do império ocidental.
O fato é que a China é um adversário completamente diferente de todos os que já apareceram. Longe de ser uma república de banana latino-americana, eles têm pautas próprias, relações comerciais agressivas, uma cultura disciplinada e nas últimas décadas têm desenvolvido um impressionante repertório de pautas tecnológicas. O império do Oriente de acordo com o relatório “Benchmarks 2019: Second Place America? Increasing Challenges to US Scientific Leadership” está cada vez mais avançando nas pesquisas, formação de doutores e implementação de novas tecnologias, deixando para trás os outros players como os EUA, UE e Japão.
Portanto não é de se surpreender que tenham capital técnico suficiente para bancar uma batalha que envolve entre outros elementos boicotes das empresas dos EUA contra a Huawei.
A série promete. Dragões contra águia. Muita polêmica, muita tecnologia, capitais simbólicos, técnicos e culturais postos em circulação. E nós, em nossa posição de país que acredita em mamadeira de p… e despreza as Universidades, vamos de novo ficar apenas assistindo, consumindo as séries estrangeiras sem qualquer poder de interferência no enredo.
*Texto publicado em conjunto com o site Capital Digital.
 

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