Guerra por outros métodos, por Igor Macedo de Lucena

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Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

As guerras, ou disputas entre nações, são históricas dentro do conceito de desenvolvimento das sociedades. As razões para os conflitos entre povos têm diversas origens, sejam pela segurança de suas populações, disputas por territórios ou a busca de recursos naturais.

Com a evolução do capitalismo, a adoção da globalização em várias nações, a liberalização dos fluxos de capitais e mercadorias e principalmente com a maior capacidade das Multinational Corporations de se desenvolverem em todo o planeta com o uso das cadeias globais de valor, chegamos a um momento no qual os conflitos armados se tornaram muito mais prejudiciais do que lucrativos, quando as nações estão intrinsecamente conectadas por meio do mercado.

Entretanto, isso não quer dizer que Estados deixem de competir. No mundo moderno a disputa internacional ganhou novos objetivos, novos interesses e maneiras mais sutis dentro do campo de batalha. Nações continuam a competir por seus interesses em territórios estrangeiros, contudo o fazem dentro das leis locais, buscando fontes de recursos naturais ou a ampliação de seus mercados consumidores. Para isso Estados passam a ter relações quase que íntimas com suas empresas multinacionais, com suas estatais e com seus fundos soberanos. Esses agentes passam a ter uma interdependência complexa com o Estado, seja ele seu controlador, seu investidor ou seu parceiro.

Neste contexto, o Estado busca usar suas ferramentas diplomáticas, seu poder financeiro e sua capacidade de pressão internacional para que esses novos agentes possam exportar para o estrangeiro, realizar investimentos diretos ou adquirir empresas no país receptor. Quanto mais uma nação conseguir expandir seus “braços corporativos” para outras nações, maior se torna o poder geoeconômico daquele país, tornando-o mais rico e mais influente.

Claro que para que ocorra isso, os produtos e serviços estrangeiros devem ser bem recebidos na nação receptora, tendo em vista que apesar de toda a ligação que o Estado possui, ainda estamos falando de economias de mercado, ou seja, os consumidores possuem a palavra final para que essa teoria seja efetivada.

Em um cenário de disputas a nível global, os Estados podem ser mais ou menos alinhados aos interesses das empresas. Vejamos o exemplo dos Estados Unidos, uma nação que consegue projetar suas empresas ao redor do planeta, mas ao mesmo tempo impõe limites sobre o quão poderosa essas empresas podem se tornar. Alguns exemplos clássicos são da Microsoft na década de 1990 com o abuso de poder contra o Netscape e, mais recente, processos contra o Facebook e a Google sobre abuso de poder de mercado e inviabilidade de competição.

Do ponto de vista do consumidor e do direito dos indivíduos essas ações do governo federal norte-americano são bem vindas, pois conseguem impor limites até onde o poder e a influência dessas empresas podem ir. Conduto não significa que os Estados Unidos estão contra sua internacionalização, muito pelo contrário, eles incentivam e as defendem em vários flancos de disputas internacionais.

Por outro lado, a China entende que o apoio do Estado às internacionalizações de suas companhias deve ser irrestrito, pois só assim poderá ganhar espaço dentro das disputas geoeconômicas ao redor do mundo. Desta forma as empresas como Xaomi e Huawei não enfrentam obstáculos junto ao governo de Pequim. A necessidade de obter empresas globais que possam expandir o poder chinês é um objetivo tão grande que a possibilidade de abusos dessas empresas dentro de mercados concorrenciais passa a ser irrelevante.

Dentro desse universo, o qual é moldado dentro do liberalismo, a China consegue passo a passo subverter a ordem liberal por dentro dela, admitindo e coexistindo com outras empresas em mercados concorrenciais, porém livre das “amarras” ou regras que regem a boa governança e as legislações voltadas para segurança do trabalho, mercados concorrenciais ou propriedade intelectual.

O efeito prático disso é que companhias chinesas estão cada vez mais presentes em bens e serviços globais como celulares, televisões, aplicativos de mensagens e empresas virtuais de comércio. Por estarem inseridas em um contexto global, com suas próprias regras conseguiram avançar em tecnologias e hoje passam a oferecer esses bens com qualidade similar aos produtos europeus, americanos ou japoneses e com preços muito mais baratos.

Em uma sociedade em que o “preço” passou a ser a bússola de todas as pessoas para tomar decisões de compra e venda, os chineses estão com a “pólvora” do século XXI e estão usando-a em tudo e em todos. A frase de um colega representa bem o que estamos vivendo: “o smartphone chinês da Huawei é tão bom quanto o da Apple ou da Samsung, a diferença é que eu pago metade do preço e o governo chinês paga a outra metade, em troca ele copia todos os meus dados, mas tudo bem”.

A frase era em tom de ironia, mas para os principais serviços de inteligência do planeta, é essa a realidade. Quanto maior a presença das empresas, produtos e serviços da China no ocidente, maior será a captação de informações e inteligência de Pequim, fazendo com que nações inteiras paguem um preço muito caro, em troca de produtos baratos.

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