Hipocrisia e demagogia nas abas da democracia

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Por Paulo Elpídio de Menezes Neto
Articulista do Focus Poder

Na Grécia, os atores usavam no palco máscaras, de acordo com cada papel que desempenhassem.

A estrutura etimológica da palavra sugere, como me confiaram amigos mais ilustrados, deficiência da decisão, hipokrinein [hipo=baixo; krinein=decisão].

O termo “Hipocrisia” aplicava-se, no mundo greco-romano, a qualquer performance pública, como a retórica e a representação e a dramaturgia.

Não tenho, entretanto, licença vernacular para aprofundar estas explorações filológicas. Meu voo é mais rasteiro, prefiro as minhas idiossincrasias maquiavelianas…

Quero chegar, se a tanto permitirem os meus limitados recursos linguísticos, ao ponto crítico destas considerações: a associação da palavra hipocrisia, ver a sua derivação adjetiva “hipócrita!”, ao comportamento político.

Sobre ser um desvio de caráter, a “hipocrisia” marcaria a distância que existe entre a ação e o juízo real que o agente político dela faz, mostra e demonstra, dissimula e esconde.

“Demagogia” seria a ação comum e constante que revela o claro interesse de manipular ou agradar a massa popular e fazê-la acreditar em promessas irrealizáveis. Hipocrisia e demagogia são estratégias de uma ação declarada e declaratória de tomada do poder do Estado — pelo graças engodo e das metáforas.

Estas forças de recrutamento da boa fé popular e do voto dos eleitores encontram passagem segura pelos atalhos que circundam a democracia. Manifestam-se no âmbito da representação e do mandato e ganham mundo afora, nas assembleias nacionais e nas organizações internacionais nas quais se projetam interesses e bandeiras ideológicas poderosas.

A abertura dos trabalhos da ONU, em Nova Iorque, liturgia cultivada por gregos e troianos, serve, renovada a cada ano, de encenação à uma performance “amplo espectro” em cujo cenário as máscaras dissimulam a fala dos estadistas, guiada e protegida pelos “prompts” que dão ordem e equilíbrio a tudo que não faria sentido sem o seu uso cuidadoso.

A retórica, servida pelas metáforas improvisadas de muitas falas, discursos e narrativas, em plenários alternativos, exibe, como acontecido em outros momentos de mostra pública, a evidência surrada de uma esforçada manipulação de conflitos armados pela militância de muitos credos ideológicos.

A hipocrisia associada à retórica, nesta performance magnífica de vozes amestradas, oferece a visão fantasiosa de grandes construções estratégicas.

Engessadas em um discurso destituído de energia e de autenticidade, bem longe das motivações que animam as nações que possuem os poderes de Marte ao seu alcance, esses ensaios de um espetáculo repetido perde-se no terreno baldio de novas distopias restauradas. A semântica é arma de toque para a negação de certas evidências incomodas. As palavras e o sentido que expressaram em determinadas circunstâncias são “ transformers” invulgares: tomam a firma e a cor das conveniências de ocasião. Substantivos, adjetivos e advérbios não têm vida longa no léxico de um político…

Neste evento, como em outras celebrações bem curtidas, a hipocrisia, como a representação na boca de cena de um grande cenário, acompanha o gestual de atores encapuzados sob a proteção das máscaras. Esses disfarces mascaravam a presença das mulheres no palco, impedidas de participarem da encenação por não serem considerada cidadãs…

Paulo Elpídio de Menezes Neto é articulista do Focus Poder, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação (Rio de Janeiro), ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC, ex-secretário de Educação do Ceará.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Obtuário: Frank Gehry e o fim de uma era em que a arquitetura acreditava poder mudar cidades

Drones, motos e cidades no limite: por que Fortaleza terá que se adaptar

A análise da reviravolta: PL suspende apoio a Ciro Gomes após ofensiva de Michelle

A aposta limpa do Governo com Spark na frota pública: baixo carbono, eficiência e maior economia

Entenda o incômodo de Michelle com Ciro Gomes

Com Ciro como pivô, racha no bolsonarismo explode no Ceará e expõe disputa por comando no PL

Aeroporto de Jericoacoara. Foto: Divulgação

Entenda o que o leilão dos aeroportos regionais realmente revela

Aécio reposiciona PSDB, abre janela para apoiar Tarcísio e facilita a vida de Ciro no Ceará

Aécio banca PSDB no centro com veto a Lula e ao bolsonarismo; E como fica Ciro?

Com pesquisa e patente cearenses, curativo de pele de tilápia chega ao mercado; E o local da indústria?

Domingos Filho entendeu que o gênero é ativo estratégico e Patrícia Aguiar vira peça do PSD para 2026

Editorial Focus Poder: Equilíbrio no comando da CPI do Crime Organizado

MAIS LIDAS DO DIA

Por que o data center do TikTok no Pecém pode redesenhar a economia do Ceará

Governo projeta 3 milhões de moradias do Minha Casa, Minha Vida até 2026

Ceará amplia liderança nacional na produção e geração de valor na indústria de calçados

BNDES aprova R$ 200 milhões para nova etapa do eVTOL da Eve, subsidiária da Embraer

Governo revisa decreto da educação especial após pressão no Congresso

Lula acerta ao dar Incentivo ao bom motorista com CNH renovado automaticamente

A construção do voto, a eleição e a democracia; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

O Silêncio das Togas; Por Gera Teixeira

TRF-5 rejeita investida do ICMBio e sela derrota ao “pedágio” em Jeri e comunidade vence nova disputa por acesso livre