Ideologia de gênero e subversão cultural, por Catarina Rochamonte

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Catarina Rochamonte é graduada em Filosofia pela UECE, Mestre em Filosofia pela UFRN e Doutora em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos (Ufscar).

Segunda da parte da resenha da obra El libro negro de la nueva izquierda
Vimos que nos anos 70 e 80 houve uma síntese entre o feminismo radical e um marxismo reformulado, a família e o matrimônio sendo reforçados como agentes de opressão política da mulher; opressão essa que se daria também pela imposição da heteronormatividade (neologismo criado justamente para pôr em questão a definição supostamente cultural da sexualidade hétero como natural e normal). Já nos anos 90, estabelece-se a ponte entre essa terceira onda feminista, culturalista e destrutiva com o que passou a ser conhecido como “teoria queer.”
A teoria queer, cuja principal representante é a “filósofa” Judith Butler, não sustenta apenas a ideia de que o gênero é uma construção social, mas vai além e critica a heterossexualidade  dominante (e supostamente compulsória) que limita o número de gêneros existentes. Para a teoria queer não existe apenas homem, mulher, gays, lésbicas, etc, mas há tantos gêneros quantas formas estranhas e bizarras de sexualidade houver. Daí que a sigla do movimento que supostamente atua em favor das minorias sexuais (LGBTQIAP +) precise sempre ser acrescidos de letrinhas ad infinitum.
Não se trata apenas de um movimento político, mas de um movimento cultural que esteve por trás das maiores extravagâncias apresentadas em teatros e museus como se fossem arte e não o que realmente são: um espasmo de corpos saturados, talhados por ideias libertinas, grosseiras e grotescas (vide a performance “macaquinhos” ou a mostra “queermuseu”) e de uma corrente teórica disseminada na academia sob o disfarce da linguagem rebuscada de um Foucault, Deleuze ou Derrida (vide o artigo acadêmico intitulado “Da filosofia como modo superior de dar o cu ou Deleuze e a “homossexualidade molecular”, dentre muitos outros do tipo.)
Judith Butler empenha-se na desconstrução total das noções de gênero e sexualidade, modificando também, por meio dessa ressignificação, o sujeito político do feminismo, que passa a incorporar qualquer um que possa se contrapôr ao homem, à sociedade heterossexual e à instituição familiar. Se, para Simone Beauvoir – a despeito da ênfase no aspecto cultural que corresponderia ao gênero – ainda havia a aceitação do sexo como dado natural, com Butler a distinção entre sexo e gênero praticamente não existe e a atribuição de significado que damos a certas características biológicas é considerada arbitrária e política, resultado da regulação binária da sociedade que busca eliminar a multiplicidade subversiva.
Com o objetivo de desqualificar esse binômio homem/mulher, Butler traz para a linha de frente da sua guerra moral travestis, transsexuais e transgêneros como exemplos que pairariam acima de qualquer enquadramento natural. Os teóricos queer militam  para subverterem as relações sexuais heteronormativas e degradarem o máximo possível a sexualidade humana. A centralidade do pênis e da vagina na relação sexual é problematizada na busca de uma “desterritorialização da sexualidade heteronormativa.” Quanto mais degradante for a relação sexual mais alta será considerada a “tecnologia anti-sexual”. Não importa que a vagina tenha mais de oito mil terminações nervosas e o pênis mais de quatro mil, para ideólogos queer, a exemplo de Beatriz Preciado (professora de teoria do gênero da Universidade de Paris VIII), a escolha de tais órgãos como zona erógena privilegiada é resultado da opressão de uma “falocracia heterocapitalista” contra a qual rituais sadomasoquistas, práticas coprofílicas ou outras aberrações agradáveis aos discípulos do Marquês de Sade seriam formas de resistência.
A “professora” Beatriz Preciado consome testosterona, cultiva uma estética masculina, não se assume nem como homem nem como mulher, vai dar aulas com bigodes postiços, é lésbica, comunista e se faz chamar por Paul Beatriz. Ela/Ele tem um fã clube de alunos e leitores que aclamam suas elucubrações acerca de um “igualitarismo sexual” fundamentado no ânus. O ânus, afirma Preciado, escapa à “retórica da diferenciação sexual” que o capitalismo insensível impõe ao enfatizar e centralizar os conceitos de genitalidade (pênis e vagina) que forçam diferenças discriminatórias e hierarquiza pessoas. É pelo ânus que se enfrentará a “máquina heterossexual” e se alcançará a “democracia sexual pós-humana” que anuncia o “comunismo sexual” por vir.
Não faz muito tempo, essa política escatológica se fez presente de modo mais explícito no Brasil por meio da difusão de trecho de uma palestra da “filósofa” e candidata ao governo do Rio de Janeiro pelo Partido dos Trabalhadores, em 2018, Marcia Tiburi. No vídeo em questão, Tiburi afirma que é “super a favor do caráter anal”, que  “o cu é uma coisa muito boa na vida das pessoas, sobretudo porque é laico” e que “nesse país em que tudo está neofundamentalista, neopentecostal e neoliberal, o cu é precioso” e conclui o raciocínio da sua profunda filosofia com a exortação: “a gente tem que libertar o cu”. Vê-se, pois, a linhagem teórica à qual se filia Marcia Tiburi e a maioria dos professores de Filosofia do Brasil.
Se as extravagâncias de Tiburi podem se limitar ao anedotário dos discursos bizarros de intelectuais e políticos brasileiros, o mais além da degenerescência intelectual e moral de Preciado é  a defesa da pedofilia (como foi em Firestone, Kate Millet, Sartre, Beauvoir, Foucault, Derrida, Alhusser, e outros “sofistas da subversão cultural”.) Como se não bastasse a vontade de degradar tudo o que diz respeito à sexualidade humana, tenta-se atingir a inocência e o pudor ali onde eles ainda se escondem como podem. A nova esquerda quer agir e já está agindo sobre as crianças. Esse é o aspecto mais grave de tudo o que aqui foi dito.
A denúncia e a resistência à ideologia de gênero pouco tem a ver com uma crítica à escolha individual de modos de vida e orientações sexuais, mas sim com a imposição abusiva e totalitária de uma doutrina que não aceita ser contestada e cuja militância se organiza para criminalizar as ideias que lhes são contrárias (vide nosso artigo anterior sobre a criminalização da homofobia) e para incutir nas crianças em tenra idade a sua própria perturbação. Se não nos cabe interferir em escolhas sexuais de indivíduos, muito menos cabe aos militantes proselitistas a imposição e conformação da sociedade às suas extravagâncias: “não nos importa, por exemplo, que um determinado sujeito se considere um crocodilo ou uma chita dentro de um corpo humano […] o problema é a pressão ideológica levar o Estado a obrigar o resto a compartilhar essa loucura e a pagar as despesas, sob a ameaça de coerção”[1]
Nota da autora (esse texto contém paráfrases da obra resenhada. Minha intenção foi divulgar as ideias gerais do livro e despertar a curiosidade do leitor para que vá à obra original.)
Confira a primeira parte da resenha da obra El libro negro de la nueva izquierda
[1]     p.113

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