Não chores mais, Brasil! Por Ricardo Alcântara

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Ricardo Alcântara é escritor e publicitário. Filiado à Rede Sustentabilidade.

No auge da Guerra Fria, só um país da América do Sul atravessou os anos 70 sem viver sob uma ditadura militar: a Venezuela (havia outras mais na zona central, como El Salvador, Panamá e Nicarágua). Não é procedente analisar aqueles regimes fora do contexto internacional em que eclodiram: a disputa entre as duas potências nucleares de então, EUA e URSS.
Impedidos de realizar um confronto direto, já que provocaria um colapso da civilização e ambos seriam destruídos, os impérios disputavam a hegemonia mundial em países do “terceiro mundo”, onde o atraso econômico de fundo colonial os colocava em permanente tensão. Foi assim na Indochina (Laos, Camboja, Vietnam) e nas guerras anticolonialistas da África (Moçambique, Angola, Guiné Bissau).
Na américa latina – “tão perto dos Estados Unidos e tão longe de Deus” – a onipotente presença do “irmão do Norte” impediu conflagrações (à exceção de Cuba, e Nicarágua por breve tempo), garantindo suas posições geopolíticas ao menor custo dos golpes de Estado liderados por generais que, do Chile à Colômbia, haviam passado por cursos de formação em Washington sob a “doutrina de segurança nacional”.
A doutrina sustentava que o inimigo externo, o socialismo soviético, já se infiltrara nas estruturas sociais (sindicatos, universidades, imprensa e até a igreja). Teriam as forças armadas, portanto, que cumprir sua missão magna, a defesa do território nacional, colocando o Estado sob seu comando absoluto. Enfim, foram tempos difíceis e o resto é história.
Façamos agora um corte até 2019. Jair Bolsonaro tem uma inesgotável capacidade de atingir a própria cabeça com as pedras que atira para cima! No momento em que disputa “o jogo da sua vida” – a Reforma da Previdência que pode garantir a retomada dos investimentos públicos, fundamental para o crescimento econômico e a recuperação de taxas aceitáveis de empregabilidade – o presidente se distrai criando problemas onde há muito custo já se havia colocado termos.
Ao exortar as forças armadas a comemorar o regime militar – episódio encerrado há 34 anos! – estimulou controvérsias quando seu governo mais necessita de convergências. E mais: fustigou ressentimentos contra a instituição militar num momento em que alguns de seus membros assumiram a linha de frente do governo e se esforçam, inegavelmente, para afastar temores quanto à estabilidade constitucional.
Hoje é 31 de Março. Considerando que desde então o mundo passou por tantas mudanças, deve o país deve tirar os olhos do retrovisor e mirar seus horizontes possíveis. Digo, amparado nos versos do magnífico Gilberto Gil, que “as recordações, retratos do mal em si, melhor é deixar pra trás”. Não, Brasil. Não chores mais.
 

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