O casaco. Por Angela Barros Leal

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Trata-se de um casaco. Um simples casaco de mangas longas, dotado de um zíper que permite a abertura frontal por parte de seu usuário. Ou, até onde posso ver, por parte de sua usuária, pois me parece um casaco feminino. É curto, o casaco, terminando talvez na altura da cintura de sua dona. E sua cor tende para o marrom, mais precisamente para o tom neutro criativamente chamado camelo, na paleta atual de cores quentes e cremosas.

O casaco pende de um cabide branco, preso a uma das malhas da tela que protege a janela da área de serviço do prédio que confronta o meu. Não há nele, no casaco, nada que o distinga de outros casacos que costumam circular por aí, nas cidades e países nos quais a temperatura exija seu uso. Entretanto, venho há meses dedicando a ele a minha atenção, despertada por sua permanente imobilidade.

Roupas penduradas nas redes protetoras dos apartamentos têm passagem breve. Ficam por ali um dia ou dois, expostas ao sol e ao vento. Tão logo secam, ou se libertam do cheiro de guardado, das manchas do mofo, são recolhidas ao guarda-roupa, às malas e baús, a seus lugares de direito

Esse casaco não.

Ano passado já ocupava esse mesmíssimo posto na janela. Passaram-se os dias, as semanas, os meses, posso garantir que já se passou mais de um ano – e lá continua ele, imexível, inamovível, braços ocos pendentes rumo ao chão, inerte no tempo e no espaço da área de serviço daquele apartamento.

Entendo que nosso clima dispensa casacos. Por experiência própria, vim a precisar de um casaco apenas aos 20 anos, quando mudei para Brasília. Até então, uma blusa de mangas compridas, usada sobre uma camiseta, se fazia suficiente para enfrentar o clima de – digamos – Guaramiranga, nossa ingênua referência para baixas temperaturas.

Entendo, portanto, que pelo menos em parte se justifique a demora de sua dona para recolher o casaco, e removê-lo do lugar em que se encontra, já que dele não necessita em sua rotina. O que não consigo entender é o fato de ter ele atravessado, intocado, inalterado, tantos meses de férias e a profusão de feriados, tantas tardes de sol e manhãs de chuva, tanta poeira levantada pela demolição de um prédio vizinho, ter experimentado tudo isso sem que uma alma sequer, dentro da casa, tenha tido a iniciativa de guardá-lo.

Longe dele qualquer semelhança com o famoso casaco descrito pelo russo Nikolai Gogol, no conto traduzido para o português como O Sobretudo, ou O Capote, um conto terrível entranhado na miséria da Rússia oitocentista. Mil vezes remendado por seu envergonhado dono, mil vezes ridicularizado pelos colegas na repartição pública, tanto seu dono quanto o novo casaco sofridamente adquirido estavam fadados a um triste fim desde as primeiras linhas.

Não creio que esse casaco na janela, cinco andares abaixo da minha, esteja destinado a ser roubado com desumanidade e selvageria, em uma praça deserta, mal e mal iluminada por fracas lanternas a óleo, incapazes até mesmo de refletir a luz na alvura da neve. O casaco que avisto, com seus braços vazios, paira suspenso entre o piso e o teto de uma cidade acostumada a um céu azul, ensolarado, e não ao céu cinzento de São Petersburgo, onde o infortunado personagem de Gogol vivia e sofria. E por isso mesmo não entendo o que impede alguma criatura do apartamento em frente de recolhê-lo da janela, dando a ele o devido destino.

Está condenado a jazer na área de serviço, tão estável como a máquina de lavar, a pia da lavanderia, o local para guardar as vassouras, os baldes, os panos de chão –, com os quais, aliás, costuma de vez em quando compartilhar seu espaço ao sol.

Fecho minha janela e paro de espiar as janelas alheias. Sei quando dar um ponto final às minhas elucubrações sem futuro. Melhor assumir que há tempos o casaco deixou de ser um simples objeto, e que ele é hoje ponto de referência da minha paisagem real, e da minha curiosidade eternamente insatisfeita.


Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Fortaleza domina Enem 2025: capital ocupa as 3 primeiras posições do BR e tem 4 escolas entre as 10 melhores

Ibmec chega a Fortaleza e firma Ceará como polo nacional de educação, inovação e negócios

Pesquisa Atlasintel Piauí 2026: eleição praticamente resolvida a favor do PT

Pesquisa Focus Poder/Atlasintel explica decisão de Ciro e PSDB de manter distância de Flávio

PSD dos “Domingos” leva Comissão de Orçamento do Congresso e reforça musculatura para a vice no Ceará

Focus/Atlasintel: Lula abre larga vantagem no Ceará e reforça ativo eleitoral de Elmano para 2026

Pesquisa Focus/Atlas para o Senado Ceará: Cenários embolados com Cid favorito; sem sua candidatura, Luizianne salta

Pesquisa Focus Poder + Atlasintel: Ciro e Elmano empatam na corrida ao Governo

UFC entra no Top 15 nacional de patentes e reforça posição como polo de inovação

Governo do Ceará: Pesquisa Focus Poder/AtlasIntel será divulgada nesta segunda-feira

PIX vira vitrine global: fundador do Web Summit diz que sistema brasileiro “destrói monopólios” e inspira o mundo

Em meio à batalha judicial, Eneva e Diamante iniciam investimento de R$ 6 bi em energia e infraestrutura no Pecém

MAIS LIDAS DO DIA

Latam encerra voos de Fortaleza para Miami e Santiago e amplia operação para Lisboa

Governo quer aumentar limite de faturamento do MEI e permitir até dois funcionários

Fechamento de quatro fábricas de calçados deixa 528 trabalhadores desempregados no Ceará

Governo mantém alta de tarifas para elétricos, mas libera cota de importação sem imposto

A aposta do Ibmec no capital humano cearense

Cerco da PF e MP amplia pressão sobre ex-prefeito de Choró; Filho foi preso

Soberania de fantasia: Rio anunciou uma IA própria e os chineses a desmascararam; por Machidovel Trigueiro Filho

Fortaleza. Beira Mar

Estudo da UFC aponta que esgoto no mar de Fortaleza também contamina o ar da orla

Vídeos: Michelle faz ataque frontal a Ciro Gomes e transforma Ceará no epicentro da crise do bolsonarismo