
Que beleza ia ser o Cassino fortalezense, pronto para surgir no segundo plano do Passeio Público, vista para o Atlântico, equiparando-se em encantos ao Cassino fluminense. A planta em cores, desenhada por ordem do Tenente-coronel e Comandante da Escola Militar, João Nepomuceno de Medeiros Mallet, que por dois dias governara interinamente o Ceará e encarregara da obra o engenheiro Capitão José Freire de Bizerril Fontenelle, encontrava-se exposta no escritório da redação do jornal “Libertador” desde julho de 1889, data na qual os Estatutos da associação Cassino foram divulgados.
Os curiosos que a quisessem ver no número 54 da rua do Major Facundo apreciariam o desenho de um edifício em formato octogonal, inscrito em um círculo de 8m de raio, recoberto por um zimbório, a cúpula em semicírculo feita no ouro falso do zinco – material resistente à corrosão inevitável do vento marinho –, apoiada internamente por tesouras de madeira. Em quatro cantos do octógono sobressaiam salões quadrados, com 6,25m de lado, tendo ao topo pirâmides quadrangulares também em zinco.
Um dos salões abrigaria o vestíbulo. Portas largas dariam acesso ao grande salão – o maior da capital – e às galerias com balaústres que o abraçavam à meia altura, em um mezanino alcançado por duas escadas laterais. Dois outros salões abrigariam o bar, plebeiamente denominado botequim. O quarto salão serviria à Secretaria, podendo ser transformado em toilette na ocasião dos bailes e eventos que ali aconteceriam. O formato circular da obra era obtido com o jardim gradeado que unia os quatro salões.
Quando tento desenhar a estrutura descrita chego a algo que me parece mais assemelhado a um forte que a um Cassino, diferenciado apenas pelos jardins, pelo topo dourado e pelas torres palacianas. O que não surpreende, com tantos militares à frente da associação. Duzentas ações foram postas à venda. Todas foram subscritas e em março de 1890 os jornais já consideraram o Cassino pronto e inaugurado, o “centro de reuniões de toda a elite da nossa sociedade”, no texto esperançoso da “Gazeta do Norte”.
O salão principal foi apressadamente erguido e, de fato, inaugurado em 25 de março de 1890 para servir de cenário à celebração do sexto aniversário da abolição no Ceará. Do meio dia até à noite foram ali recebidas as pessoas gradas da capital, uma notável afluência de damas e cavalheiros tilintando joias e exalando extrato francês ocupando as ruas e avenidas que levavam ao Passeio e transbordando a área construída do edifício.
A esses privilegiados foi dado o direito de apreciar a decoração nas cores do brasão do Cassino, branco e vermelho, as bandeiras entrelaçadas dos países, as placas esmaltadas trazendo “os nomes dos Diretores da casa, seus construtores, dos mártires cearenses, de brasileiros que prestaram à Pátria serviços valiosos na guerra, nas letras e na política”, de receber um exemplar da “primorosa Polianteia intitulada Cassino”, sendo polianteia uma miscelânea de escritos, enquanto estrondejava no vestíbulo a banda de música dos Aprendizes Marinheiros executando o Hino da Casa, pois que havia um.
Este não seria um Cassino na acepção atual da palavra, que priorizasse cartas de baralho, roletas, jogos de azar. Aliás, o Regimento Interno expressamente proibia jogos e apostas a dinheiro na área interna, sob pena de expulsão. Seria o espaço restrito a divertimentos sociais familiares, sociais e culturais: bailes, saraus, concertos instrumentais e vocais, banquetes para incontáveis talheres, apresentações de peças teatrais no seu palco móvel.
Os jogos ali realizados seriam “war games”, adequados ao agitado período de transição da Monarquia para a República. Haveria aulas e competições de esgrima, o primeiro esporte a permitir participação feminina, utilizando baioneta, espada ou florete; de tiro ao alvo com pistolas e espingardas; de ginástica sobre equipamentos próprios. Todos os apetrechos foram adquiridos na Europa pela firma Boris Fréres & Cia. e expostos na Escola Militar, antecipando simbolicamente a existência do Cassino.
Que estava fadado a jamais existir, como bem sabemos todos que descemos vez ou outra pela rua Barão do Rio Branco, entre a Santa Casa de Misericórdia e o segundo plano do Passeio Público, tendo o Atlântico como pano de fundo, ou que cruzamos ao largo a avenida Leste Oeste enxergando sobre a esplanada apenas o arvoredo do Passeio e um trecho integrado à Fortaleza de N. Sra. da Assunção. Pouco tempo depois da gloriosa inauguração do salão principal, o Cassino desmoronaria qual um castelo de areia, tijolo, cal, alvenaria, madeira e zinco.








