
Fortaleza mudou de pele muitas vezes.
A cidade dos bondes, dos sorvetes na Praça do Ferreira e dos clubes sociais à beira-mar foi, aos poucos, cedendo lugar aos espigões, às avenidas largas e ao ritmo cada vez mais apressado da vida moderna. Algumas lembranças, entretanto, resistem. Não apenas nas fotografias amareladas que sobreviveram ao tempo, mas, sobretudo, na memória de quem viveu aqueles domingos luminosos das décadas de 1960 e 1970.
Era 1966. Nós frequentávamos o Clube dos Diários. Eu tinha apenas cinco anos e, por isso, minhas lembranças mais fortes não pertencem aos bailes elegantes, aos carnavais ou às noites de gala que fizeram a fama da agremiação. O que ficou comigo foi outra coisa: o cheiro de cloro misturado à maresia, o brilho das piscinas sob o sol da tarde e aquela sensação de que o clube era um território imenso, feito especialmente para as crianças.
Eu era fascinado pelo parque aquático.
Havia uma passagem submersa ligando duas piscinas — uma espécie de pequeno túnel ou abertura abaixo do nível da água. Para atravessá-la, era preciso mergulhar e sair do outro lado. Fazíamos aquilo repetidas vezes, numa espécie de aventura particular. Eu gostava, mas havia um problema: tinha medo de ficar preso debaixo d’água.
Era um medo que não terminava quando saíamos da piscina. Durante algum tempo, aquela passagem subterrânea aparecia nos meus sonhos, transformada em pesadelo. Eu acordava assustado, como se ainda estivesse debaixo d’água, procurando desesperadamente uma saída.
Outra lembrança permanece intacta.
No horizonte, surgia uma enorme estrutura metálica que parecia pertencer a outro mundo. Sempre que eu perguntava ao meu pai o que era aquilo, vinha a resposta, quase solene:
— É o Titan, menino!
Eu ainda não tinha idade para compreender a dimensão daquela máquina.
Anos depois, descobri que o Titan havia chegado a Fortaleza em 1939 e se tornara uma das imagens mais marcantes da construção do Porto do Mucuripe. O gigantesco guindaste de aço era utilizado na movimentação das pedras destinadas ao quebra-mar. Para o menino que eu era, porém, aquilo não passava de um monstro metálico parado no horizonte.
E havia ainda o mar.
Na praia em frente ao clube, praticávamos a famosa carretilha. Deitávamos na arrebentação e nos deixávamos levar pela força das ondas, rolando de um lado para outro. Não havia prancha, boia ou qualquer equipamento especial. Bastavam o corpo, a coragem e aquela irresponsável confiança que só as crianças parecem possuir.
O mar também nos deixava lembranças menos agradáveis.
Ao sair da água, era comum encontrar nos pés pequenas placas escuras e pegajosas de piche. Eram resíduos de óleo e derivados de petróleo que chegavam à praia, trazidos pelas correntes ou lançados por embarcações. Para nós, aquilo era apenas uma inconveniência que precisava ser resolvida antes de voltar para casa.
E as mães sabiam como resolver.
Óleo de cozinha, querosene ou algum outro produto que ajudasse a dissolver aquela meleca negra. Depois, água e sabão. Estava tudo resolvido — pelo menos até a próxima ida à praia.
O Clube dos Diários havia sido fundado em 3 de março de 1913 e se tornara uma das instituições sociais mais tradicionais de Fortaleza. Seus bailes de réveillon, carnavais, festas de debutantes e outras celebrações reuniam famílias que ocupavam posição de destaque na vida social, política e econômica da cidade.
O próprio nome do clube carregava uma história curiosa.
Um grupo de amigos costumava se encontrar diariamente, ao cair da tarde, na Praça do Ferreira. Conversavam sobre política, economia, acontecimentos do país e, naturalmente, sobre os assuntos da própria cidade. Da frequência daqueles encontros nasceu a ideia de formar uma agremiação.
Daí teria vindo o nome: Diários.
A primeira sede funcionou na esquina das ruas Barão do Rio Branco e Senador Alencar, no Centro. O clube não era apenas lugar de festas. Ali também aconteceram concertos, saraus e encontros que reuniam nomes da sociedade e da intelectualidade cearense.
Mais tarde, naquele mesmo endereço, funcionariam a boate Palacete Guarani e uma agência do antigo Banco do Estado do Ceará, o BEC.
Em 1956, o Clube dos Diários chegou à Beira-Mar.
A nova sede representava também uma mudança na própria cidade. Fortaleza começava a olhar cada vez mais para o litoral, e a avenida se transformava em um dos principais espaços de convivência da capital.
Os salões do clube continuaram recebendo carnavais, réveillons, festas de debutantes e grandes acontecimentos sociais.
Mas, para mim, nada disso se compara às tardes nas piscinas.
A memória não guarda necessariamente aquilo que os adultos consideravam importante. Guarda aquilo que nos tocou.
Para uma criança de cinco anos, a verdadeira riqueza do Clube dos Diários não estava nos lustres, nos vestidos de gala ou nas grandes festas. Estava nas piscinas cheias de crianças, nas brincadeiras, nas amizades, nas disputas improvisadas de natação, na praia logo adiante e naquele estranho túnel submerso que parecia conduzir a um mundo secreto.
O tempo passou.
O Clube dos Diários deixou a Beira-Mar e mudou-se para a Praia do Futuro. A antiga sede desapareceu e, no lugar onde tantas famílias viveram seus domingos, surgiram condomínios residenciais.
A paisagem mudou completamente.
Mas há uma coisa que os prédios não conseguiram demolir.
Na memória de quem esteve ali, o velho clube continua existindo.
Continua existindo no cheiro de cloro das piscinas, no gosto salgado do mar, nas manchas de piche grudadas nos pés, no gigantesco Titan desenhado contra o horizonte e, sobretudo, naquele menino de cinco anos que mergulhava entre duas piscinas, com medo de não encontrar a saída — mas mergulhava novamente assim mesmo.
Talvez seja essa a verdadeira maneira de sobreviver que algumas cidades encontram.
Elas desaparecem da paisagem, mas permanecem dentro de nós.
E o Clube dos Diários, para quem o conheceu, é uma dessas lembranças que Fortaleza não conseguiu apagar.








