
Antes de mudar a matriz energética, talvez seja preciso mudar a nossa matriz mental
O vento sempre esteve ali.
No Preá, em Jericoacoara, no litoral do Ceará e em boa parte do Nordeste brasileiro, ele sopra muito antes de existirem parques eólicos, kitesurf, discussões sobre transição energética ou expressões como economia azul.
Durante décadas, porém, foi apenas vento.
Paisagem. Incômodo. Condição climática.
Recordo de uma época, não tão distante, em que falar do vento como fonte de riqueza causava estranhamento. A pergunta era quase inevitável: vento para fazer o quê?
Hoje ela parece pertencer a outro mundo.
Mas talvez essa pergunta antiga revele algo profundamente atual: nem sempre nos faltam recursos. Muitas vezes nos falta a capacidade de reconhecê-los.
Trabalhando faz tempo com desenvolvimento organizacional e humano, vemos empresas que investem fortunas em tecnologia sem conseguir mudar. Vemos outras transformarem seus resultados quase sem alterar seus ativos, simplesmente porque aprenderam a pensar de outra maneira: mindset.
Mudança começa antes da tecnologia.
Começa no modelo mental.
Matteo Motterlini, Prof. de Filosofia della Scienza di Milano propõe no seu ultimo livro de: descongelar os cérebros não os glaciares”
Há algo de incômodo e verdadeiro nessa frase.
Passamos boa parte do debate sobre qual modelo para o futuro tentando descobrir quais máquinas, fontes energéticas, leis ou investimentos poderão nos salvar. Tudo isso importa. Mas talvez exista uma etapa anterior: somos capazes de imaginar um modelo de desenvolvimento diferente daquele que nos trouxe até aqui?
Antes de mudar a matriz energética, talvez seja necessário mudar a matriz mental.
Na última edição de Onde o Vento Levar, percorremos aproximadamente 2.500 quilômetros entre Salvador e São Luís em kitefoil.
Sobre o mar, não usamos gasolina para avançar.
O combustível estava em toda parte.
Invisível.
Disponível.
Renovado continuamente pela própria natureza.
Viajar dessa forma altera a percepção das coisas. Quando se depende do vento para avançar, deixa-se de tratá-lo como fundo da paisagem. Aprende-se a observá-lo, respeitá-lo e, principalmente, compreendê-lo.
Ao longo da costa nordestina, vimos também cada vez mais parques eólicos ocupando o horizonte.
Começamos a nos perguntar se ainda estamos olhando para o vento apenas como uma maneira de produzir eletricidade.
Talvez seja pouco.
Durante muito tempo, riqueza energética significou procurar algo escondido: perfurar, extrair, transportar, refinar, queimar.
Agora temos diante de nós uma riqueza que chega sozinha e limpa.
Seria o vento uma espécie de novo petróleo?
A comparação é imperfeita, evidentemente.
E talvez seja justamente por isso que seja interessante.
O petróleo transformou economias inteiras porque ao redor dele foram construídos portos, indústrias, universidades, profissões, tecnologias, cadeias de fornecedores e cidades.
O valor nunca esteve apenas no barril.
Estava no ecossistema construído em torno dele.
Com o vento não deveria ser diferente.
O próximo capítulo da energia eólica brasileira não pode ser apenas instalar mais turbinas.
Precisa ser transformar vento em desenvolvimento.
Em tecnologia.
Em indústria.
Em conhecimento.
Em formação profissional.
Em pesquisa.
Em novos negócios.
Em turismo.
Em esporte.
Em oportunidades para quem vive nos territórios onde essa riqueza é produzida.
Ter um recurso extraordinário é uma vantagem.
Saber construir uma sociedade ao redor dessa vantagem é outra coisa.
Nas organizações, uma competência isolada raramente transforma uma empresa. Ela só se torna estratégica quando pessoas, processos, decisões e investimentos começam a se organizar ao redor dela.
Possuir vento não basta.
É necessário ter visão coletiva.
E talvez visão seja justamente a capacidade de conectar aquilo que fazemos hoje com aquilo que queremos ser daqui a vinte ou trinta anos.
É aqui que a discussão deixa de ser apenas “energética”.
Ela passa a ser uma discussão sobre desenvolvimento.
O Nordeste pode ser apenas o lugar onde se produz energia ou pode ser umas das principais fonte de desenvolvimento para construir sua própria próxima economia e bem estar..
São escolhas diferentes
Uma transforma o território em fornecedor de recurso.
A outra transforma o recurso em conhecimento, renda, indústria e autonomia.
Essa talvez seja a grande oportunidade escondida dentro do vento.
E existe ainda outra dimensão dessa escolha.
Durante muito tempo tratamos desenvolvimento e natureza como forças opostas.
De um lado, preservar.
O artista italiano Michelangelo Pistoletto chama de Terceiro Paraíso a possibilidade de superar essa divisão: um ponto de encontro entre natureza e inteligência humana, entre aquilo que recebemos do planeta e aquilo que somos capazes de criar.
Não se trata de retornar a uma natureza intocada e negar tecnologia ou desenvolvimento.
Também não significa repetir indefinidamente um modelo no qual todo recurso natural precisa ser explorado até seu limite econômico.
Existe uma terceira possibilidade.
Criar riqueza sem destruir a origem dessa riqueza.
Usar tecnologia para ampliar a capacidade humana de conviver com os limites do planeta, e não apenas para superá-los.
O vento talvez seja uma das melhores metáforas dessa possibilidade.
Ele movimenta sem precisar ser consumido.
Produz valor sem desaparecer.
Volta amanhã.
E depois de amanhã.
Talvez tenhamos demorado tanto para perceber sua importância justamente porque ele é invisível.
Mas existem muitas coisas invisíveis que sustentam uma sociedade.
Confiança.
Conhecimento.
Cultura.
Visão.
E futuro.
O vento sempre esteve ali.
Durante muito tempo, os navegadores e pescadores sabem e viviam disso.
Agora sabemos.
E isso muda também a nossa responsabilidade.
Porque a pergunta já não é mais o que podemos fazer com o vento.
A pergunta é maior:
que país somos capazes de construir a partir dele?
O futuro talvez não esteja enterrado esperando ser encontrado.
Talvez esteja soprando diante de nós.








