O iene volta a cena dos investidores internacionais, por Igor Macedo de Lucena

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Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

O iene japonês é atualmente uma das moedas favoritas de muitos investidores. Nos últimos doze meses a moeda japonesa se valorizou cerca de 7% em relação ao euro e mais de 3% em relação ao dólar americano. Mas porque isso ocorreu quando a grande maioria das moedas internacionais se desvalorizou?
Uma das principais razões para o voo alto é a incerteza mundial. A crescente guerra comercial e a incerteza em torno do Brexit alimentam o medo de uma nova recessão mundial. Nesse ambiente, os investidores buscam aplicações mais seguras, o que é chamado de “refúgio seguro”.
Atualmente a escolha dos grande fundos de investimentos e investidores institucionais tem sido principalmente no iene japonês. Especialistas em câmbio veem um potencial de valorização adicional da moeda japonesa, especialmente no caso de uma desaceleração global mais forte. Segundo especialistas em moedas, o iene é o melhor hedge contra uma recessão global no mercado de câmbio, então os investidores vendem posições em outras moedas e compram ienes.
“Refúgios seguros” são moedas com alta demanda durante períodos de grande incerteza, quando os investidores evitam riscos. Além do iene, também se inclui o franco suíço e o dólar americano. Os critérios que distinguem esses países são controversos.
O Japão tem grandes superavits na sua conta corrente, ou seja, no comércio de bens e serviços com países estrangeiros é muito positivo. Além disso, os títulos do governo japonês são mantidos quase que exclusivamente por residentes, e há uma estabilidade política no Japão, o que causa pouca pressão sobre o governo e as taxas de juros.
A Suíça também cumpre esses critérios. Lá, no entanto, as taxas de juros são bem mais baixas. Atualmente, na Suíça, a principal taxa de juros é de -0,75% enquanto no Japão a taxa básica é -0,1%. Para os investidores, isso significa que, se eles fugirem para o franco suíço, terão que pagar consideravelmente mais pela segurança que ganham.
No Japão, por outro lado, as taxas de juros negativas baixas torna o iene mais atraente em uma comparação direta. Leva-se em consideração que a zona do euro é politicamente incerta demais para muitos investidores.
Os EUA, por outro lado, têm altos déficits em conta corrente. O resultado final é que eles importam significativamente mais bens e serviços do exterior do que vendem para o resto do mundo. Em princípio, isso não é um problema, porque o dólar é a principal moeda de reserva mundo. Contudo os EUA podem financiar os déficits por meio de entradas de capital do exterior. O que está afastando parte dos investidores é que como o presidente americano está cada vez mais usando o dólar como arma política, alguns países estão mudando suas reservas de câmbio para outras moedas.
O Japão é reconhecido internacionalmente como um laboratório de política monetária. Desde 1995 as principais taxas de juros estão próximas de zero. Já em 2001, o Banco Central Japonês começou a comprar títulos do governo muito antes do Federal Reserve dos EUA e do Banco Central Europeu. Enquanto isso, tornou-se o primeiro grande banco central do mundo a controlar diretamente a curva de juros por meio de sua política monetária.
O banco central japonês sinalizou recentemente que está pronto para outro corte na taxa de juros. A economia japonesa orientada para a exportação também está sofrendo com a economia global mais lenta e a disputa comercial entre a China e os EUA e por esse motivo o Banco do Japão discutirá seu curso na próxima semana.
Para o iene, não apenas o status de “porto seguro” fala. Alguns especialistas acreditam que a moeda se beneficiará no futuro com o desenvolvimento demográfico do país. A população do Japão está envelhecendo mais rapidamente do que qualquer outra devido ao aumento da expectativa de vida e à baixa taxa de natalidade. Isso afeta os fluxos internacionais de capital. Nas últimas décadas, os japoneses adquiriram muitos ativos estrangeiros. Esta tendência é revertida agora. Devido ao envelhecimento da sociedade, os fundos de pensão trazem ativos de volta para casa do exterior e isso valoriza ainda mais o iene.
Especialistas vêem um novo potencial no mercado japonês. O país se beneficia do crescimento intra-asiático, principalmente na trinca China-Japão-Coréia do Sul, a baixa avaliação patrimonial e a mudança na cultura corporativa. A previsão de uma maior abertura a imigração também indica que o iene é uma boa proteção contra uma economia global fraca e muitos riscos políticos.

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