O naufrágio do Alcântara. Por Angela Barros Leal

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O vapor costeiro Alcântara, da Companhia de Navegação Maranhense, naufragou entre as 23h do dia 27 de junho de 1892 e as 6h da manhã do dia seguinte, após bater em rochedos e arrecifes submersos a 1,5 milha da praia de Pericoara, Paracuru, onde não havia casas e o mar se fazia habitualmente traiçoeiro.

Estavam a bordo 16 passageiros, sete praças do Batalhão de Segurança, além de pesada carga, avaliada em cem contos de réis, verdadeira fortuna transportada de Fortaleza para São Luís, no Maranhão, com a escala habitual em Camocim. O manifesto do embarque listava caixas com tecidos e licor de caju, ancoretas de vinho, garrafas de querosene, barris com chumbo, com manteiga e cigarro, sacas de arroz e açúcar, baús com carabinas, engradados de louça, mercadorias a serem comercializadas nas praças de destino.

“O naufrágio é uma batalha aceita com os elementos”, decretou o jornal A República, escolado em noticiar naufrágios. “Tudo depende da firmeza do Comandante e da disciplina e cega obediência dos passageiros”. Nada disso havia a bordo. Como tripulação o vapor dispunha de meia dúzia de auxiliares do comandante Manuel da Silva, nenhum deles qualificados para substitui-lo ao leme. De acordo com os sobreviventes, o Comandante dormira tendo entregue o leme a um marinheiro de um olho só, como todo bom pirata, que deixara o vapor se chocar contra as rochas e nada fizera quando a água começara a inundar o barco.

Instalou-se o pânico, agravado pela escuridão. Passageiros rebelaram-se contra o descaso do Comandante e tiros foram disparados a bordo. Havia apenas uma boia salva-vidas, e dos três escaleres disponíveis os dois primeiros desfizeram-se em pedaços. No terceiro escaler embarcaram os membros da tripulação – entre eles o próprio Comandante.

Que, apesar de descumprir uma das mais antigas leis da navegação, em quase nada se abalara com o desastre. Conforme relato de um dos passageiros, “o Comandante, marinheiro sem coração, recebeu-me em terra com risadas e bem deitado na areia”. Esse mesmo passageiro registrara o que vira a bordo, enquanto o dia nascia e o vapor enchia-se com braças e mais braças de água.

O narrador subira no mastro tentando vislumbrar inexistente socorro, e assim testemunhara duas das três mortes a seus pés: a da viúva Maria José de Miranda, desabando do referido mastro, e a do engenheiro hidráulico Saunders, excelente nadador que não resistira à fúria das ondas nem à força das correntes.

O inglês Richard James Harris Saunders era “cavalheiro muito estimado pela população nacional”. Residira com a família em Recife, morava no Ceará, e viajava para o Maranhão. A viúva Maria José foi igualmente lamentada. Fez-se silêncio nos jornais sobre o terceiro afogado, “o inditoso moço Álvaro da França Cavalcante”.

Silêncio também sobre um passageiro de 22 anos recém-completados, rapaz “franzino, pálido, olhar perscrutador e vivaz, semblante empanado pelo véu de tênue melancolia”, como dele dissera o conterrâneo Adolfo Silveira. No mês anterior o jovem participara em Fortaleza da fundação de um grupo literário diferente de quantos havia. Com os amigos Antônio Sales, Adolfo Caminha, Henrique Jorge e outros, Lívio Barreto selaria sua imortalidade na literatura cearense como um dos fundadores da Padaria Espiritual.

Era poeta de doce sensibilidade, dos que cantavam “lábios púrpuros, medrosos”, “idílios, alegrias mansas”, de imensa adoração pelo feminino. Imagino seu coração aflito frente ao risco, no meio da noite, temendo pelas páginas manuscritas, pelos originais de poemas que certamente conduzia nos bolsos ou na bagagem com que embarcara para Camocim, tão perto de sua Granja natal.

Consta que se salvou a nado. Pode também ter sido um dos que foram salvos pela jangada improvisada, construída às pressas pelos passageiros que primeiro alcançaram a praia, e que a impulsionaram para além das ondas, evitando mais perdas de vidas enquanto o Comandante ria-se na areia.

Da tragédia brotou um poema, “Náufrago”: “Eis-me náufrago e só na vastidão/ da praia desolada,/ aonde o mar, indômito leão, /esmaga a onda fria e angustiada”. Não morreria afogado Lívio Barreto, o poeta sonhador. Três anos depois tombaria a cabeça sobre sua mesa de guarda-livros, em uma morte sem aventuras, sem metro e sem rima, tendo perpetuado em poesia, com a data de 29 de junho de 1892, o naufrágio do Alcântara.

 

Angela Barros Leal é jornalista e escritora.

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