Os Demiurgos. Por Rui Martinho

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

A sociedade é complexa demais para ser integralmente dirigida. Inúmeros fatores, entre eles a ação voluntária e incontrolável dos sujeitos da ação social, inviabilizam a engenharia da sociedade. O conhecimento dos fenômenos sociais não tem a precisão, a previsibilidade e o rigor das ciências da natureza requeridos dos engenheiros. Manuais de Biologia dizem que os seres vivos não se adaptam para sobreviver, mas sobrevivem porque se adaptam. Isto é: efeitos não planejados predominam.

A engenharia social tem fracassado. O planejamento é um importante fator de sucesso, mas no âmbito restrito de atividades específicas, porque quanto menor a abrangência do objeto mais profundo e seguro é o conhecimento. A complexidade do conjunto da ordem social impede o sucesso no planejamento geral da sociedade. Friedrich A. von Hayek (1899 – 1992) explicou a ordem espontânea. O fracasso da engenharia social se repete desde a tentativa malsucedida de Platão (348 a.C. – 328 a.C.) em Siracusa. A perseverança dos candidatos a demiurgos da nova sociedade e de um novo homem, pelo planejamento, é notória. Há sempre uma desculpa para o insucesso.

A confiança nas próprias conjecturas, que Friedrich W. Nietzsche (1844 – 1900) disse ser vontade de potência, explica a perseverança no erro. A vaidade estimula a autoimagem de sábio, capaz de resolver de uma vez os problemas da humanidade. Também é reconfortante sentir-se exonerado dos próprios fracassos, culpar o sistema, os opressores. Tais coisas existem e são prejudiciais. Mas as fórmulas alternativas fracassam. É reconfortante sentir-se e projetar a imagem de sábio e virtuoso, propondo um mundo melhor. A reivindicação de poder, para salvar o mundo, vem junto com o desfrute das delicias da nomenklatura (Milovan Djlas, 1911 – 1995, na obra “A nova classe”), no mundo dos “mais iguais” de George Orwell (Eric A. Blair, 1903 – 1950, na fábula “A revolução dos bichos”).

Junte-se a isso o aspecto psicológico. Culpar opressores oferece a oportunidade de odiar, que a muitos agrada. Camuflar a inveja sob o manto da proposta de igualdade e justiça social afaga o ego. Projeta imagem favorável. É eleitoralmente útil. Desejar o poder para fazer o bem e impor sacrifícios e renúncias a terceiros é uma fórmula atraente. A sabotagem dos adversários, a hora e o lugar impróprios e a traição ou desvios dos executores “salvam” a validade do projeto. A implantação de uma ordem social diversa da realidade histórica precisa ser compatível com a condição humana. Surge então a pergunta: o homem tem uma natureza ou é totalmente moldado socialmente? Textos milenares da mitologia grega apresentam o mesmo perfil humano atual, passando por cima dos vários modos de produção, sugerem a existência da natureza aludida.

Invocar a democracia querendo o papel de guia de cego, próprio dos reis filósofos da “República” de Platão; prometer muito e sempre pedir mais tempo e poder para realizar grandes coisas; dogmatizar valores sem deixar de negá-los ou relativiza-los quando conveniente obtém sucesso eleitoral, consagra autores de livros, faz prosélitos. Não consegue, porém, realizar o que promete. Liberdade, não de agir, mas de ser, é um dos objetivos nunca alcançado. Igualdade de resultados também é uma promessa típica da “terra sem males” (Eduardo Neuman, em obra publicada pela Méritos Editora) do imaginário tupi-guarani. Raoul Girardet (1917 – 2013), na obra “Mitos e mitologias políticas”, demonstra a influência atávica do pensamento mágico nas doutrinas políticas.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Fortaleza domina Enem 2025: capital ocupa as 3 primeiras posições do BR e tem 4 escolas entre as 10 melhores

Ibmec chega a Fortaleza e firma Ceará como polo nacional de educação, inovação e negócios

Pesquisa Atlasintel Piauí 2026: eleição praticamente resolvida a favor do PT

Pesquisa Focus Poder/Atlasintel explica decisão de Ciro e PSDB de manter distância de Flávio

PSD dos “Domingos” leva Comissão de Orçamento do Congresso e reforça musculatura para a vice no Ceará

Focus/Atlasintel: Lula abre larga vantagem no Ceará e reforça ativo eleitoral de Elmano para 2026

Pesquisa Focus/Atlas para o Senado Ceará: Cenários embolados com Cid favorito; sem sua candidatura, Luizianne salta

Pesquisa Focus Poder + Atlasintel: Ciro e Elmano empatam na corrida ao Governo

UFC entra no Top 15 nacional de patentes e reforça posição como polo de inovação

Governo do Ceará: Pesquisa Focus Poder/AtlasIntel será divulgada nesta segunda-feira

PIX vira vitrine global: fundador do Web Summit diz que sistema brasileiro “destrói monopólios” e inspira o mundo

Em meio à batalha judicial, Eneva e Diamante iniciam investimento de R$ 6 bi em energia e infraestrutura no Pecém

MAIS LIDAS DO DIA

BTG/Nexus: Lula e Flávio Bolsonaro empatam tecnicamente em cenário de 2º turno

Datafolha: 68% dos brasileiros não lembram de deputados e 75% não sabem citar senadores

Uece lidera Norte e Nordeste em ranking internacional de sustentabilidade e educação

Conar manda suspender anúncios de bets na CazéTV durante a Copa após denúncias de publicidade irregular

Onda de calor na Europa bate recordes e expõe crise climática

STJ decide que e-mail sem assinatura não vale como testamento

PSD prepara anúncio de Kassab como vice de Caiado

Brasil anuncia aporte de US$ 100 milhões por ano ao fundo de desenvolvimento do Mercosul

STJ define regras para atuação da PM em manifestações