Os Estados Unidos e os Curdos, por Igor Macedo de Lucena

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Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

A população curda da Síria é a maior minoria étnica do país, compreendendo entre 7% e 10% da população do país. As organizações de direitos humanos acusaram muitas vezes o governo sírio de discriminar e assediar rotineiramente os curdos sírios. O principal objetivo dos curdos na região é buscar autonomia política em áreas habitadas da Síria.
No início de 2015, quando o Estado Islâmico invadia outros Estados e destruía exércitos do Oriente Médio, tornaram-se uma ameaçava global, pois conseguiam cada vez mais territórios para a criação do Califado Islâmico e ao mesmo tempo ampliavam suas capacidades de atentados terroristas no ocidente, já que passavam a possuir vários pontos de extração de petróleo.
Dentro do conflito da Síria, os EUA poderiam invadir com tropas de infantaria em um território inóspito e com uma alta probabilidade de criar um novo Afeganistão, onde teriam uma guerra sem fim. Diante desse cenário mostrou-se vital a aliança com a etnia minoritária dos curdos. Criou-se uma relação na qual Washington apoiava a independência curda e assegurava recursos e armamentos para a manutenção da região, por outro lado os curdos se tornaram a linha de frente no combate com o Estado Islâmico. O resultado foi positivo pois o grupo terrorista foi fortemente neutralizado e desarticulado em grande parte do ocidente, entretanto isso não quer dizer que a ameaça tenha sido encerrada e é nesse contexto que o governo de Donald Trump coloca em risco a segurança dos Estados Unidos e do Ocidente.
Quatro anos depois, as pessoas que ajudaram a proteger a ordem global foram abandonadas pelos norte-americanos na véspera de uma investida da Turquia, inimiga do ditador Sírio, nas terras curdas do nordeste da Síria. Foram retiradas as tropas e os equipamentos de maneira abrupta, o que tem sido considerado como a maior das traições dos Estados Unidos, colocando em dúvida a capacidade de outros grupos ou nações de confiarem no país.
O governo turco considera que os curdos são terroristas e que desestabilizam a região, mas não tem coragem de enfrentá-los enquanto os Estados Unidos estiverem formalmente em uma aliança com eles.
No momento em que os equipamentos militares e as tropas americanas começaram a deixar a região na última segunda-feira, lideranças curdas exigiam explicações e se preparava para uma invasão que poderia mudar o mapa da região, inclusive minando os ganhos de segurança alcançados no país na guerra contra o Estado Islâmico.
Desde a vitória no campo de batalha os curdos se tornaram carcereiros, detendo 90.000 apoiadores e terroristas em quatro campos da província. Os guardas permaneceram leais à causa e a manutenção desse sistema sob a promessa de patrocínio contínuo de Washington, contudo agora eles têm muito menos incentivo.
Entre os detidos do campo, há ideólogos que seriam essenciais para o ressurgimento do Estado Islâmico. O fantasma da volta jihadista se mostra cada vez mais percorrendo as planícies do Iraque e da Síria com a possibilidade desses presos estarem mais uma vez em liberdade e capazes de se reagrupar em meio ao caos e um novo conflito entre a Turquia, a Síria e os curdos.
A visão de um mundo meramente transacional de Trump, onde relações comerciais estão acima de tudo e de todos, não oferece lugar para a história ou a moralidade. Seu realismo implacável a curto prazo ignora o fato de que os interesses regionais que ele deseja garantir, neste caso as eleições de 2020, podem se tornar um risco a segurança nacional de todo o ocidente.

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