Quando os campeões nacionais funcionam, por Igor Macedo de Lucena

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Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

Uma das maiores críticas dos governos liberais é a famosa política, utilizada durante anos no Brasil, dos chamados campeões nacionais. A ideia básica é a escolha de alguns grupos empresariais específicos que passam a receber subsídios e incentivos do governo para ganharem mercados tanto no Brasil, por meio de fusões e aquisições, quanto no exterior.
Alguns dos maiores campeões nacionais brasileiros foram a JBS, o Grupo EBX, a Oi e várias outras que foram em sua maioria apoiadas com recursos do BNDES. Anos depois dos aportes, o grupo EBX chegou ao fim, a Oi a beira da falência e a JBS está envolvida com escândalos, mesmo assim conseguiu um grau de competição global.
Mas o que foi que deu errado? Seria muito simples falar que do ponto de vista do liberalismo clássico essas empresas nunca seriam competitivas sem a ajuda do Estado e por si só não deveriam existir, pois em um mercado realmente concorrencial esse tipo de política é ilógico, pois prejudica o consumidor e prejudica a boa alocação de recursos públicos.
Baseado no “textbook” liberal isso é correto para economias desenvolvidas, onde falhas de mercado são poucas e em que o ambiente ao empreendedorismo é favorável com baixa inflação e juros em níveis internacionais. Podemos dizer que temos isso no Brasil?
Hoje nações como o Japão e a Coréia do Sul são nações com forte vertente empreendedora, desenvolvem tecnologia de ponta, possuem juros reais próximos de zero para o mercado e a inflação é baixíssima, com casos de deflação em alguns períodos recentes, contudo isso nem sempre foi assim.
O Japão foi um país bastante fechado ao mundo exterior até a Revolução Meiji de 1868, algo muito parecido com o Brasil no âmbito empresarial. Ao se abrir para o mundo os japoneses entenderam que seria muito difícil desenvolver uma indústria e um mercado interno capaz de competir globalmente com os ingleses naquele momento se não houvesse uma política nacional, algo que ficou conhecido como Zaibatsu, conglomerados industriais e financeiros, cuja influência e tamanho propiciaram o controle de parte significativa da economia japonesa e criaram empresas globais como Mitsubishi, Sumimoto, Nissan e Furukawa.
Na Coréia do Sul o desenvolvimento dos campeões nacionais foi chamado de Chaebols e se assemelhavam ao modelo japonês. Eram grupos empresariais que reuniam um grande número de empresas afiliadas diversificadas, controladas por uma família tradicional coreana, geralmente ligada ao poder político local. Nesse grupo podemos citar a Hyundai e a Samsung.
A principal característica desses campeões era um tempo limitado de maturação, após a consolidação do grupo no mercado interno, essas empresas deixaram de ser incentivadas pelo governo e teriam que competir tanto dentro do país como fora dele. Vários desses Zaibatsu e Chaebols foram sucessos globais e colocaram seus países no centro de indústrias que provavelmente não teriam capacidade de competir sem a ajuda do Estado, como foi o caso da Kia e da Toyota no setor automobilístico ou a Sony e a LG no caso aparelhos eletrônicos.
A base fundamental desses campeões nacionais não era apenas criar uma “grande empresa”, mas alterar fundamentalmente a capacidade nacional de competir em mercados globais que eles não teriam competitividade uma vez que outras nações já tinham uma tecnologia mais avançada e uma maior qualidade e quantidade de bens produzidos nestes setores. O professor Ha-Joon Chang da Universidade de Cambrigde (Reino Unido) disse: “ficamos muitos anos dirigindo carros péssimos na Coréia do Sul pois a importação era proibida, protegendo assim a indústria nacional, entretanto as montadoras sabiam que o governo logo abriria o mercado e procuraram desenvolver carros cada vez mais confortáveis e tecnológicos. Não haveria hoje a Hyundai como player global no mercado automobilístico sem uma política estatal.”
Pessoalmente questionei o professor Chang se essa política não era um desestímulo a inovação no longo prazo e sua resposta foi: “a política de campões nacionais é como criar um filho, você o protege até os 18 anos, depois ele deve se virar sozinho, caso contrário vai a falência”. Essas falências ocorreram tanto no Brasil quanto no Japão e na Coréia do Sul, contudo ao finalizar essas políticas, essas nações asiáticas já estavam dominando mercados globais e no mercado nacional já existia uma economia dinâmica e voltada ao empreendedorismo, com grandes cadeias de pequenas e médias empresas interligadas, mostrando que em alguns casos de desenvolvimento tardio, políticas nacionalistas podem ser uma porta para nações se integrarem a mercados globais e se tornarem nações realmente liberais.
Hoje acredito que não temos as condições de dizer que o Brasil é uma economia realmente liberal, porém estamos caminhando nesta direção. Seria possível a adoção de uma nova política de campeões nacionais como os países asiáticos? Talvez nossos exemplos não deixem que possamos repetir essa ideia, entretanto existem outras políticas públicas que podem se atrelar a empresas privadas para ampliar o poder geoeconômico brasileiro. A Índia não financiou a divisão automobilística do grupo Tata a se desenvolver, porém foi importante durante a aquisição das marcas britânicas Jaguar e Land Rover, inserindo a Índia como novo player global neste setor.
Em nações liberais ou nacionalistas, uma tendência é irreversível, Estados e grupos empresariais estão cada vez mais conectados por uma rede complexa e interdependente de interesses dentro do mercado internacional.

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