Rede sem sustentabilidade? Por Ricardo Alcântara

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Ricardo Alcântara é publicitário e escritor.

O Brasil marcha para legalizar seu 35º partido político (se já não perdi as contas): a Aliança Pelo Brasil do presidente Bolsonaro. O que justiçaria a existência de um partido? Uma boa margem de singularidade, nas suas bandeiras de luta e nas escolhas que faz, ou uma tradição de força que não justificaria dispersão. Fora disso, são franjas de espuma que se dissolvem ao fim das ondas.

Animados pela receptividade ao nome de Marina Silva à presidência, e com seu grupo de apoio sem encaixe orgânico em outras legendas, fundamos mais uma: a Rede Sustentabilidade. A singularidade a justificá-la seria sua identidade com a questão que a nomeia: sustentabilidade – vocação inequívoca, a ver o perfil político de sua liderança maior.

Sucessivas derrotas eleitorais encolheram a liderança de Marina. O partido foi tragado pela regência de seu (reduzido, mas qualificado) bloco parlamentar, cujos membros guardam uma identificação ambientalista apenas secundária. Lá, no Congresso Nacional, apesar da adesão de Marina Silva a Aécio Neves (segundo turno, 2014), a Rede se alinha com forças de centro-esquerda que rejeitam a vocação tutorial do PT, como o PDT, maior deles e com candidato presidencial postado, Ciro Gomes.

Agora, Marina Silva vem aí para filiar à sigla a ex-presidente do CIC, Nicolle Barbosa – jovem na política, mas com diversificada experiência partidária – e, também, para anunciar apoio ao nome que surgir como candidato a prefeito de Fortaleza por indicação do atual gestor, Roberto Cláudio, que já conclui seu segundo mandato. A adesão a essa empreitada eleitoral não seria inadequada, se considerados somente os índices de aprovação da gestão (são bons, embora não espetaculares) e o desempenho geral de sua equipe.

O problema, no caso, é que a causa central da Rede, a questão ambiental, é área em que Roberto Cláudio tem sido muito combatido pela comunidade ecológica não somente porque são tímidas as iniciativas da gestão aí, considerando seus sete anos, mas sobretudo pelos estragos que as obras de mobilidade causaram, sem compensação convincente, ao sombreamento arbóreo de uma cidade de latitude equatorial.

Como os companheiros da Rede Sustentabilidade irão se haver com a comunidade ambientalista, não sei. Sei, contudo, que a identidade original do partido se dilui e coloca em questão a necessidade de sua própria existência. Afinal, se a Rede não for ambientalista, que necessidade temos de tomá-la como opção de voto? Há outras legendas, maiores e mais antigas, que podem abrigar seus membros. Só acho.

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