Sobre a China: democracia e liberalismo. Por Igor Macedo de Lucena

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Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

On China, obra escrita pelo ex-secretário de Estado dos Estados Unidos Henry Kissinger, é talvez a mais importante obra sobre a China no âmbito das relações internacionais e no campo da geopolítica. Seu livro focou a história chinesa através das lentes de considerações de política externa e, em particular, sua própria marca de realpolitik, impressa durante o governo de Richard Nixon. Ele se concentrava na forma de como os confrontos nas fronteiras sino-soviéticas forçaram a China a considerar uma nova abertura de relacionamento com os Estados Unidos.

Neste contexto que ora vivemos, diferente e ao mesmo tempo semelhante sobre o relacionamento da China com os Estados Unidos e o resto do mundo, é importante analisar como a história tem ‘ares’ repetitivos e como se pode evoluir dentro do conceito de sociedade.

Gostaria de começar com uma pergunta direta e já com a resposta: a China é culpada pela existência do vírus Covid-19? A resposta a essa pergunta é: “talvez!”… e esse talvez depende de uma prova cabal sobre a natureza do vírus, algo que provavelmente nunca saberemos.

Outra pergunta, mais específica, é: a China é culpada pelo estágio avançado da pandemia? Com certeza! Tanto a OMS quanto outros órgãos multilaterais já comprovaram que a China tinha conhecimento sobre a existência do vírus meses antes de decretar o “Lockdown” na cidade de Wuhan, e uma das principais causas disso é baseada no seu modelo de organização política. Não é correto afirmarmos que a China vive hoje em um sistema de ‘comunismo clássico’ ou em qualquer outro de ponto de vista marxista. Hoje se observa na China um regime totalitário, uma ditadura no sentido clássico, porém o capitalismo é exercido em sua plenitude, no qual o lucro é uma das principais regras do jogo. Como se vê, e como em toda ditadura, trata-se de um sistema político opaco em que as informações são controladas e dificilmente se podem realizar denúncias que sejam prejudiciais aos seus líderes.

O maior problema é que, sob o nosso ponto de vista ocidental, é extremamente condenável um sistema organizacional político que seja totalitário, mas considerações devem ser feitas do ponto de vista histórico e social. A China tem aproximadamente 8.000 anos de história como civilização, e a primeira dinastia Xia tem um histórico datado de 2500 a.C. De lá para cá acompanhamos impérios e dinastias que cresceram e se alternaram até o ano de 1945, quando ocorreu a formação da República Popular da China, que se iniciara como uma ditadura comunista nas mãos de Mao Tse Tung e foi evoluindo até se tornar uma ditadura do partido único; ou seja, a ordem democrática, como conhecemos no ocidente, praticamente nunca existiu na China continental.

Nas palavras do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Toffoli: “A democracia é fruto da cultura humana, ela não é da natureza, e ela não é natural em toda sociedade humana; ou seja, ela tem que ser defendida permanentemente.” Isso significa que por mais que possamos condenar as atitudes do governo chinês, aquele sistema não é uma “aberração” ou algo “diferente”, o modelo autoritário de governo é algo que precede toda a civilização ocidental, a democracia ou mesmo a república. Todavia, isso é uma exclusividade da China? Não mesmo! A grande maioria dos países do Oriente Médio, principalmente os países Árabes, possuem regimes monárquicos absolutistas com milênios de história.

Isso significa que devemos simplesmente aceitar a China como ela é? Por um lado, as transformações sociais, ou mudanças de regimes governamentais, devem ocorrer de dentro para fora, como foi na França, nos Estados Unidos e no Brasil. Nações estrangeiras se imiscuírem na política interna de outras nações geralmente não acaba bem. Entretanto, por outro lado, parece-me muito fora da realidade imaginar que a sociedade chinesa realmente queira alterar seu regime político enquanto continua com prosperidade econômica, com crescimento de 6% ao ano e cada vez com mais bens materiais sendo produzidos e acessíveis a diversas classes sociais. É inegável a expansão da influência chinesa no planeta, tanto no mundo empresarial quanto especificamente na tecnologia e na ciência.

Não se pode processar um país, principalmente por algo tão nebuloso quanto uma pandemia, isso é algo que esbarraria na imunidade diplomática. Por outro lado, se o poder econômico da China é seu maior ‘Soft Power’, também é sua maior vulnerabilidade. As nações ocidentais podem começar a aumentar seus escrutínios sobre aquisições de empresas nacionais para empresas ou fundos chineses. Os Estados que podem deverão incentivar para que ocorra maior produção nacional de bens e serviços que sejam estratégicos para a segurança nacional. As cadeias produtivas das multinacionais devem passar a usar o modelo de China+1 para seus fornecedores, para não perderem acesso ao mercado consumidor chinês e ao mesmo tempo poderem ter uma segunda opção de fornecedores para situações de emergência. Taiwan deve ser reconhecida como uma Nação independente tanto pelos Estados Unidos quanto pela União Europeia. A Inglaterra deve exigir a manutenção integral do acordo sobre da democracia em Hong Kong. O Japão e a Coreia do Sul devem se unir, juntamente com os europeus e os americanos, para expandir o poder geoeconômico no sudeste asiático por meio de uma “onda” de financiamentos e investimentos diretos em toda a região. A Austrália e a Nova Zelândia devem fechar acordos de livre comércio no ocidente para diminuir sua dependência chinesa. Esses são alguns fatos que podem, na prática, atingir o governo da China, diminuir sua influência e forçá-lo a alterar suas políticas pelo menos para com a comunidade internacional.

O que o governo de Pequim mais preza é sua expansão econômica, que é a ‘chave’ para a manutenção política do regime. Caso essa expansão seja ameaçada, imediatamente Pequim agirá. Para rivalizar regimes ditatoriais, somente o contraponto com a união das democracias fortes.

Apesar de essas estratégias terem algum efeito sobre a China, com a intenção de gerar-lhe algo negativo economicamente, elas causarão um impacto regressivo na globalização e no livre mercado de mercadorias e serviços, o que deverá implicar fundamentalmente em um menor crescimento global. Será esse o melhor para o Brasil?

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