Um léxico indeterminado, por Rui Martinho

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

A palavra democracia adquiriu a plasticidade indeterminada. A violência contra adversários políticos se diz democrática por combater inimigos da democracia. Antidemocrático, o outro lado da moeda, também padece de profunda indeterminação. Criticar os titulares dos cargos das instituições democráticas pode ser rotulado como contrário à democracia, confundindo-se os “tripulantes” das instituições democráticas com as ditas instituições. Tal indiferenciação transforma os titulares dos cargos em pessoas intocáveis, situadas acima da crítica. Contratar mercenários de torcidas organizadas para impedir pela violência manifestações pacíficas pode ser anunciado como defesa da democracia. O fato de que as torcidas mencionadas têm um histórico de bandidagem, inclusive com um caso no Ceará em que uma organização desse tipo deu origem a uma organização abertamente criminosa. A violência dos mercenários é noticiada como defesa da democracia.

É estranho que o conflito entre pesquisadores, inclusive entre entidades de profissionais, sobre o uso terapêutico e profilático de alguns medicamentos, seja apontado como ignorância ou má-fé. Divergência é próprio das ciências. Estranho é uma vertente da divergência falar em nome da ciência, como se esta fosse unívoca, dogmática. É estranho que se considerem de alta periculosidade drogas antigas, que eram comercializadas sem o menor controle por décadas a fio. É estranho que se suspendam pesquisas, com base em um só estudo refutado por cientistas respeitáveis. É estranho que profissionais qualificados confundam protocolos de pesquisa com procedimentos clínicos, muito mais flexíveis.

Excluindo a desinformação dolosa, restam muitos casos de erro inocente. O psiquiatra inglês Anthony Daniels (1949 – vivo), conhecido como Theodore Dalrymple, acha que o mundo está desorientado. O relativismo adjetivado por Karl Raymond Popper (1902 – 1994) com laxista, tanto no plano cognitivo como no axiológico, acaba por comprometer o uso da razão e o contato com a realidade. A pós-modernidade é isso. Foi descrita por Zygmunt Bauman (1925 – 2017) como modernidade líquida, para enfatizar a fluidez dos significados e referências em geral. O estruturalismo faz parte do conjunto de fatores ligados ao advento da pós-modernidade. Não se trata de uma escola de pensamento. Guarda, todavia, estreita relação com o modelo linguístico de estudiosos entre os quais destaca-se Ferdiand Saussure (1857 – 1913), que considera relações básicas ou fundamentais definidoras do sentido do léxico e da sintaxe. A cultura, indiscutivelmente é um sistema maior e abrangente, mas considerá-lo rigidamente determinante é outra coisa. A inspiração transbordou para outras áreas do conhecimento, do que são exemplos os trabalhos de Antropologia de Claude Lévi-Strauss (1908 – 2009); Roland Barthes (1915 – 1980) e até a Filosofia matemática, do que é exemplo Paul Bernacerraf (1931 – vivo).

O determinismo estrutural subordina significados, inclusive valores, às determinações econômicas, sociais, políticas e culturais. Chega assim a excluir o sujeito sem o qual a cognição é determinada por estruturas. Afasta a noção de consciência. Sem conhecimento, sem valores e sem consciência o reprodutivismo reina e desconstrói a lógica da sintaxe e do léxico. Os corifeus do desconstrutivismo pós-estruturalista negam a lógica das referências cognitivas da língua, exceto do discurso deles mesmos. Resta saber o quanto os neossofistas desorientaram o mundo e o quanto eles se desorientaram em face da vida.

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