Morre, aos 97 anos, José Walter Cavalcante, um modernizador de Fortaleza

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Obituário: José Walter Barbosa Cavalcante (1927–2025)

Por Carlos Henrique Martins
Especial para o Focus Poder

Fortaleza amanheceu mais silenciosa no dia 3 de julho de 2025. Partiu, aos 97 anos, José Walter Barbosa Cavalcante — engenheiro, professor, urbanista e ex-prefeito que deixou sua marca nos alicerces, nas ruas asfaltadas e na vida de milhares de famílias que encontraram um lar no bairro que leva seu nome – não por vaidade, mas por gratidão. Focus apurou que a morte foi consequência de causas naturais.

Nascido em Capistrano em 16 de julho de 1927, José Walter foi um filho do interior que fez da engenharia seu idioma para transformar cidades. Professor catedrático na Universidade Federal do Ceará, diretor da Estrada de Ferro Fortaleza–Baturité, sempre carregou a convicção de que servir era mais importante do que aparecer.

Indicado pela Ditadura Militar para governar Fortaleza entre 1967 e 1971, herdou uma cidade “abandonada”, como ele mesmo descreveu — quase sem asfalto, com apenas mil lâmpadas públicas. Não recuou diante do desafio: abriu avenidas, urbanizou bairros, pavimentou quilômetros de esperança. Entre suas obras, o Ginásio Paulo Sarasate e a Avenida Perimetral, que ajudaram a costurar uma Fortaleza mais conectada. Mas o feito de que mais se orgulhava estava longe das placas de inauguração: o Núcleo Habitacional Integrado de Mondubim, hoje conhecido como Conjunto Prefeito José Walter. Foram mais de 4 mil casas com quintais e lajes, pensadas para acolher famílias inteiras, galinhas no fundo do quintal e sonhos nos fundos da casa.

O nome estampado em placas nunca foi ideia dele. “Nunca coloquei meu nome em nada de nada”, repetia, divertido, relembrando que foi seu ex-aluno quem batizou o conjunto habitacional em sua homenagem. Da varanda do apartamento no Mucuripe, José Walter gostava de contemplar o mar, folhear revistas e espiar, em silêncio, a cidade que ajudou a erguer. “Meu lugar é aqui”, dizia, sem vaidade, com o mesmo afeto reservado ao bairro que via crescer, mas que preferia visitar sem alarde: “Gosto de passar sem ninguém saber que eu tô passando”.

No livro de sua vida, cada rua asfaltada, cada quintal com galinhas, cada família que fincou raízes no José Walter é um parágrafo de gratidão. “A vida gosta de quem gosta dela”, filosofava, entre risos, com a serenidade de quem acreditava ter vivido para fazer o bem — e só o bem.

Foi marido, pai de quatro filhas — e guardou na memória a breve vida do filho homem, que partiu ainda bebê. Na velhice, rodeou-se de lembranças, retratos de família e peças trazidas de viagens, sem nunca abandonar a vista para a Beira Mar, que ele tanto admirava.

Hoje, Fortaleza se despede do engenheiro que ajudou a construir não apenas casas, ruas e praças, mas também um senso de pertencimento. O bairro que leva seu nome segue vivo, pulsante, como um lembrete diário de que legado não se mede em estátuas, mas na vida que floresce debaixo de cada laje de concreto.

Descanse em paz, José Walter. A cidade que você pavimentou segue andando, grata pelo chão firme que deixou.

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