Auxílio, pobreza e retomada. Por Igor Lucena

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Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

O auxílio emergencial do Governo Federal com o valor inicial de R$ 600,00 foi uma das mais importantes políticas públicas de manutenção da economia nacional e no Ceará sua importância foi ainda maior. Com uma população atualmente de 9,8 milhões de habitantes, é bastante expressivo que 5,5 milhões de cearenses tenham recebido o auxílio emergencial do Governo; ou seja, mais da metade da população.

Neste contexto, é importante frisar que no Brasil o auxílio foi capaz de reduzir o nível da desigualdade social de uma maneira bastante rápida, pois aqueles que eram beneficiados pelo programa “bolsa família”, o qual possuía um valor médio de recebimento de R$ 192,00 viram sua renda elevar-se para R$600 e em alguns casos para R$ 1.200,00 quando se tratava de mães chefes de família. Além disso, cerca de 30 milhões de brasileiros que não tinham renda alguma passaram a integrar o programa.

Segundo dados da PNAD e da Caixa Econômica Federal, no estado do Ceará os primeiros meses do auxílio emergencial de R$ 600,00 injetaram na economia local cerca de 6 bilhões de reais e, apesar disso, o total da massa de rendimentos decresceu cerca de 900 milhões de reais durante o mesmo período, apesar do auxílio emergencial. Dentro desse contexto, é possível inferir que caso não ocorresse essa política pública o impacto na economia cearense seria ainda maior. Vale lembrar que a contração do PIB do Ceará no primeiro trimestre de 2020 alcançou a marca de -4,6%, um dos piores da história.

Neste mês de setembro, o auxilio emergencial passou para um valor inferior, R$ 300,00, tendo em vista que o custo mensal deste benefício beira os 50 bilhões de reais por mês e é algo impossível de ser operacionalizado por um longo prazo, dado ao teto de gastos e à política de responsabilidade fiscal. Neste contexto, como se comportará o PIB do último trimestre no Ceará? Teremos mais uma piora na massa de rendimentos dos cearenses? Em tese, sim, pois estamos assistindo a uma diminuição da força do auxílio emergencial. Entretanto, agora nos deparamos com uma situação na qual a grande maioria das atividades econômicas voltou a funcionar no Estado, e isso é um trunfo importante para amenizar a queda anualizada do PIB.

Muitas empresas em segmentos-chave da economia local e nacional, como elétrica, cimentos, materiais de construção, engenharia e construção civil realizam boas vendas e muitos estão com dificuldades para repor os estoques, dado à quebra das cadeias de produção mundial e pelo fato de a pandemia ainda estar com expressivos números de mortalidade e infecção no sul e no sudeste. É possível que estejamos assistindo à famosa recuperação em V, em que todo o consumo represado durante o lockdown volta de imediato, fazendo com que a renda e o emprego voltem em uma velocidade tão rápida quanto foram abalados? Ainda é muito cedo para afirmar isso, apesar dos bons números e da salutar espectativa. Como as empresas se endividaram muito, encontramos também problemas de crédito para repor estoques e receio dos empresários sobre uma segunda onda de Covid-19 ou até mesmo um segundo lockdown, que seria fatal para muitos pequenos e médios comerciantes.

É notório que assistimos hoje a uma recuperação econômica e que cada dia estamos mais próximos de uma vacina eficaz que possa ser produzida em larga escala, finalizando definitivamente essa pandemia. Uma coisa é certa, apesar da retomada, seja ela tímida ou em V, a necessidade de continuidade do Auxílio Emergencial para o Ceará até o final do ano foi uma decisão acertada do governo do presidente Bolsonaro e da equipe econômica liderada pelo ministro Paulo Guedes. Essa continuidade será um elemento necessário e fundamental para que possamos recuperar nossas empresas, garantir os empregos da nossa população e possibilitar um crescimento econômico positivo em 2021.

 

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