Faixa presidencial se torna símbolo da conturbada e tensa relação republicana

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Michel Temer passa a Faixa Presidencial ao novo presidente da República, Jair Bolsonaro, no Palácio do Planalto.

Equipe Focus
focus@focuspoder.com.br

Na história política, a faixa presidencial virou símbolo da conturbada vida pública brasileira. O gesto de Jair Bolsonaro de não passar o poder a Luiz Inácio Lula da Silva neste domingo, 1º, é mais uma cena de uma República de tensões, ameaças e golpes.

Outros seis ocupantes do Palácio do Planalto deixaram de entregar a tira de lã e seda verde e amarela ao sucessor. Teve quem sofreu isquemia cerebral, impeachment ou golpe. Houve ainda quem recusou o rito por desapreço à democracia.

Desde que Juscelino Kubitschek inaugurou o palácio e Brasília, em abril de 1960, foram 18 substituições de presidentes – tirando três reeleições. Em um terço destas trocas não houve entrega de faixa. Quando havia, a situação costumava ficar tensa Ao ser informado de que o eleito, Jânio Quadros, poderia fazer um discurso demolidor, Juscelino avisou que lhe daria um soco. Não houve ataque verbal nem físico, mas a faixa original foi levada pelo ex-presidente para casa – e reapareceria mais tarde num mausoléu construído em forma de pirâmide cortada na cidade.

Militar

Um ano depois, Jânio renunciou ao mandato, decisão vista como tentativa de golpe, e não passou o poder ao vice. Por sua vez, João Goulart sofreu golpe e estava no Rio Grande do Sul, em 2 abril de 1964, quando o presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli, chegou ao palácio vazio. Dias depois, Mazzilli disse que era um “privilégio” concedido pelo “Altíssimo” passar a tira de pano ao marechal Castelo Branco, o primeiro dos cinco militares presidentes da ditadura.

Aí virou troca da guarda. Ao repassar o cargo ao general Costa e Silva, Castelo reclamou que alguns levantavam suspeita sobre a “autenticidade democrática” e chamavam a passagem de governo de “rendição de guarda”. Em 1969, Costa e Silva teve isquemia e não transmitiu o poder ao vice Pedro Aleixo, deposto por uma Junta Militar.

Figueiredo

Em 15 de março de 1985, o País acordou com a notícia de que o presidente eleito pelo Colégio Eleitoral, Tancredo Neves, tinha sido internado. Quando o então vice, José Sarney, chegou ao palácio, no fim da manhã, para assumir, o presidente João Figueiredo tinha deixado o prédio. Era a primeira vez, em Brasília, que um militar se recusava a transmitir o cargo.

Com a morte de Tancredo, o mundo político pediu que o presidente fosse enterrado com a faixa. Sarney aceitou, mas mandou fazer outra para o morto e pôs a antiga no peito. Em 1990, cioso com a “liturgia do cargo”, entregou a faixa a Fernando Collor de Mello, que havia feito campanha contra o governo.

A reconciliação ocorreu dias antes. A pedido do sucessor, Sarney decretou feriado bancário de três dias, o que permitiu a Collor confiscar, logo que assumiu, poupança acima do que equivale hoje a R$ 18 mil, sem dar chance de ninguém escapar. Nunca o cumprimento da tradição da faixa presidencial doeu tanto no bolso dos brasileiros.

Depois, Collor sofreu impeachment e saiu do Palácio do Planalto pela lateral. O sucessor dele, Itamar Franco, passou o poder a Fernando Henrique Cardoso, em janeiro de 1995, que repetiria o gesto em 2003, dando posse a Lula. Durante a entrega de faixa ao petista, o tucano acabou se atrapalhando e deixou os óculos caírem. Lula se abaixou para pegá-los.

Perdida

A atual faixa presidencial foi confeccionada em 2007 para Lula entregar a Dilma Rousseff. Mas nem essa peça escapou do destino da confusão política. Em 2015, a tira foi perdida e Dilma usou a velha na cerimônia da reeleição. A faixa nova foi achada depois num armário do palácio, mas a então presidente sofreu impeachment no ano seguinte e não a passou a Michel Temer.

Neste dia 1.º de janeiro, Lula irá ao Palácio do Planalto para assumir pela terceira vez a Presidência da República. Enquanto isso, Jair Bolsonaro deverá continuar em viagem a Orlando, nos Estados Unidos, terra dos parques temáticos, hábitat dos personagens de Walt Disney.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Agência Estado

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Vídeo: As marcas dos tiros no peito de Cid Gomes e o ruidoso silêncio de uma ruptura

Entre o discurso do colapso e alianças instáveis, Ciro tenta reconstruir seu poder no Ceará

Vídeo de Alcides liga Ciro ao núcleo de Flávio logo após caso Vorcaro

Relação de Flávio com Vorcaro faz Michelle entrar no radar presidencial

Alece vai batizar rodovia do Cumbuco com nome de Lúcio Brasileiro

AtlasIntel detecta erosão do “bônus nordestino” de Lula e acende alerta para 2026; Ceará é ponto importante

J&F, holding dos irmãos Batista, amplia presença no Ceará com compra de termelétrica em Maracanaú

Ciro voltará à disputa pelo Governo do Ceará após 36 anos

Queda da violência esvazia principal discurso da oposição no Ceará

O Ceará em outro patamar: energia, dados e poder

Pesquisa Quaest mostra disputa presidencial em 10 estados, incluindo o Ceará

Obituário: Lúcio Brasileiro 1939-2026

MAIS LIDAS DO DIA

Mercado eleva projeção da inflação e dos juros para 2026, aponta Focus

Pesquisa Quaest aponta que 68% dos brasileiros apoiam fim da escala 6×1

Fortaleza sedia Congresso Consad e reúne elite da gestão pública nacional em debate sobre governo digital

Entre o discurso do colapso e alianças instáveis, Ciro tenta reconstruir seu poder no Ceará

Vídeo: As marcas dos tiros no peito de Cid Gomes e o ruidoso silêncio de uma ruptura

AtlasIntel: áudio de Vorcaro derruba Flávio e Lula dispara na corrida eleitoral

Custódia protetiva para a democracia; Por Paulo Elpídio

Projeto Brief identifica operação coordenada em crise da Ypê e levanta alerta sobre manipulação digital

Dois mundos; Por Gera Teixeira