
Existe um cansaço silencioso pairando sobre o nosso tempo. Não apenas o cansaço físico, mas o esgotamento mental de viver dentro de trincheiras emocionais permanentes. Como se o mundo tivesse sido reduzido a uma arena estreita, onde tudo precisasse obrigatoriamente passar pelas querelas entre Lula e Bolsonaro, pelos seus derivados ideológicos, pelas promessas recicladas de governos e pelos espetáculos cuidadosamente produzidos para fabricar sensações artificiais de esperança ou indignação.
Há gente que acorda e dorme aprisionada nisso. Consumindo frases prontas, repetindo opiniões embaladas por terceiros, compartilhando indignações em série como quem cumpre um ritual automático. Muitas vezes sem perceber que a própria capacidade de pensar começa lentamente a atrofiar. Não porque lhes falte inteligência, mas porque o excesso de ruído vai ocupando os espaços onde antes existia reflexão.
Mas existe um outro mundo. E ele continua respirando, mesmo abafado.
Um mundo onde ainda nascem pensamentos próprios. Onde alguém observa o cotidiano e produz uma ideia sem precisar da autorização de um grupo político, de um influenciador ou de uma bolha digital. Um mundo onde pessoas criam, trabalham, estudam, escrevem, constroem negócios, cuidam da família, contemplam a vida e tentam compreender a existência para além das guerras narrativas que sequestram as redes sociais e os afetos humanos.
Esse outro mundo talvez seja menos barulhento, porém infinitamente mais fértil.
Não se trata de negar a importância da política. Seria ingenuidade. As decisões dos governos atravessam a vida concreta das pessoas. Mas transformar toda a experiência humana numa disputa eleitoral permanente empobrece a alma coletiva. O ser humano não nasceu apenas para defender lados. Nasceu também para imaginar, criar, amar, produzir sentido e deixar alguma realização que carregue sua própria assinatura interior.
Há quem encontre identidade apenas na militância. E há quem encontre identidade naquilo que consegue pensar por si mesmo. Ambos coexistem. Ambos existem. Ambos revelam aspectos da condição humana.
Talvez maturidade seja justamente compreender isso: há de se respeitar esses dois mundos. Mas sem permitir que um deles destrua a possibilidade do outro respirar.







